Sábado, 09 de Abril, 2011

 

 

Dinossauros são importantes

 

Aprendemos com os erros, não com os sucessos. Quando uma criança começa a andar, as quedas causam pequenas marcas em seu cérebro. Essas marcas são a experiência de como funciona um equilíbrio, qual a melhor maneira de se manter em pé, qual atitude tomar para se proteger de um próxima queda. Por outro lado, de que adianta uma mãe explicar ao seu filho sobre o choque elétrico, para nunca colocar o dedo na tomada? Ele só terá consciência do choque quando tomar choque. Lembro-me do meu filho quando certa vez, bem pequeno, veio correndo para mim e minha esposa com o dedo vermelho levantado para cima dizendo: "agora sei o que é choque, dói! ".

Na crise de 1987, quando o Dow Jones caiu 22,6% num único dia, a presença de quem viveu a crise de 1929 foi crucial para colocar a casa em ordem. O dia ficou conhecido como segunda-feira negra e alguns fatores foram investigados como possíveis causas:

1- A comissão Brade apontou como possível causa operações erradas de derivativos.

2- Negócios via computadores estavam programados para serem desfeitos em grandes lotes para qualquer alteração "anormal" no mercado. Uma pequena alteração derrubou as vendas em cascata.

3- Faltava liquidez nos negócios devido à alta constante nas bolsas de valores nos últimos anos da década de 1980.

4- Déficit no orçamento americano, causando aumento irreal nas taxas de juros americanos.

5- Sobrevalorização do mercado. Na época a relação preço/lucro estava num fator de 15:1. No dia da grande queda chegou a 20:1.

Essas possíveis causas são relatadas por Jennifer Itskevich num site com uma frase interessante:"O passado está no presente, e o futuro também. Depois desse crash, tivemos outros como os tigres asiáticos, as bolsas latinas e Russia, a crise das "dot com" com o estouro da Nasdaq, a pequena crise causada pelo 11 de Setembro e a mais recente de hipotecas em 2008. De todas, a mais estranha e permanente (retirando a de 1929) essa última de 2008 tem sido persistente. Nas outras crises, grande homens de cabelos e bigodes brancos, passeavam nas salas de operações, dando ordens aqui e acolá, sempre segurando o ímpeto jovem. Sempre esses "dinossauros" estavam perto dizendo para a garotada o que fazer.

Mas a partir do fim da década de 1990, esse dinossauros foram lentamente sendo colocados de lado ou aposentados de suas funções. Os novos operadores (principalmente nas bolsas americanas) eram mais ágeis com computadores, com telefones celulares e tinham MBAs (master bussines administration) em Harvard, Chicago ou Stanford. A sua rapidez em programar ordens e a sua capacidade inventiva foi lentamente colocando os dinossauros dentro de seus pijamas. Não temos mais dinossauros no mercado, pelo menos não diretamente dando ordens aos mais jovens em operações. Basta fazer as contas. Quem vivenciou a crise de 1987 e tinha por volta de 35 anos (idade padrão na época para trabalhar em operações) hoje tem mais de 60 anos. A voz tranquila (mesmo falando palavrões como é de costume nessas mesas), com fumaça de cigarros ao seu redor dando ordens está fora do mercado.

E então, com a crise de 2008 o que se viu foi jovens com olhos estatelados, tirando a "goma" do cabelo puxando-o na frente da tela de seus computadores, sem entender ou sem o que falar para seus clientes. Mesmo o homem que deveria ser o mais experiente de todos no mundo, o presidente do FED (banco central americano), é um teórico. Ben Bernanke é um estudioso em crises, excelente aluno com boa vivência em Academia e fácil desenvoltura em comunicação e relacionamentos. Mas na crise real, o que se viu foi um presidente de Banco Central sempre correndo até a Casa Branca para depois dar entrevistas "bem coladas" ao discurso do presidente.

Estamos em apuros, grande apuros. O mundo não tem mais uma pessoa experiente e chave mestra de guiagem para controlar crises. Na crise dos bancos em 1907 o velho Morgan tomou para si as honras de mandar no Presidente da República dos EUA e controlar o pânico dos bancos. Em 1929 baseado no princípio de John Maynard Keynes, a equipe econômica de Roosevelt criou um pacote de mudanças de nome "New Deal" (novo acordo) para tirar os EUA e o mundo do atoleiro. Nos anos 1960 John Kenneth Galbraith foi o economista preferido de Kennedy sendo até embaixador americano na Índia. Lá recebeu condecorações por suas sugestões acolhidas para tirar a Índia da condição de país subserviente da Inglaterra. Na era Nixon o secretário de Estado era mais forte que a equipe econômica e até que o presidente. Foi graças a Henry Kissinger que os EUA se aproximaram da China e URSS.

Nos dias de hoje... estamos sós, ou alguém acredita em Sarkozy, Berlusconi, Obama e David Cameron (primeiro ministro da Inglaterra e mais apagado... saudades de Churchill)? Angela Merkel (leia "A nova dama de ferro") é quem possui o perfil mais forte de todos, mas em outro patamar em relação aos dinossauros. Mesmo no Brasil estamos sem nomes ou pretensão a nomes para pôr ordem na casa. Apesar de viver com inflação em alta, um dos melhores até os dias de hoje foi Mário Henrique Simonsen. Com seu tradicional cigarro de lado na boca, qualquer repórter tinha que estudar muito bem antes de fazer uma pergunta. Perguntas sem noção era de prontamente interrompida com tiradas fantásticas do ministro e acadêmico respeitadíssimo. Não controlou a inflação por um mero detalhe: A ditadura quem mandava e não o pensamento econômico.

Mário Henrique Simonsen

 

Um grande exemplo de como os dinossauros são importantes ocorreu nessa semana na Nasa (Agência Espacial Americana). A sonda "Messenger" chegou a Mercúrio para orbitar e tirar fotos do planeta. As últimas fotos recebidas foram da sona "Mariner 10" em 1975. A sonda Mariner teve problemas e funcionou apenas um ano, enviando fotos incríveis para a época. Quando nessa semana a sonda Messenger chegou e tirou as primeiras fotos, uma pequena luz de reflexo solar apareceu numa das fotos. A equipe de controle da nave ficou se perguntando o que era o brilho na foto. Especulou-se sobre problemas na câmera da Messenger, sobre neutrinos viajando do sol, sobre radiação nos painéis até que um dinossauro (Prof. S. T. Rom) de 1973 que tinha trabalhado no projeto Marinner disse: " É a Mariner ! ".

Ninguém acreditou uma vez que a atual equipe de controle não tinha nem nascido na época. Mas no novo lote de fotos enviadas pela Messenger algumas horas depois a pequena luz se revelou: Era a Marinner 10, ainda viva e orbitando o planeta Mercúrio 36 anos depois de parar de enviar fotos. A foto é essa a seguir.

Foto Nasa: Mariner 10

A Mariner 10 está com os painéis solares danificados pelas altas temperaturas e proximidade do Sol, mas está lá e veio de encontro com a Messenger para dar boas vindas. O antigo e experiente técnico da equipe de controle de 1973 tinha acertado. Sua experiência e vivência mostraram que ele não precisava de filtro de imagens digital, ou computadores para reconhecer uma experiência e tanto do passado. Ao bater os olhos ele lembrou do artefato humano da época.

No mercado financeiro, essas pessoas são muito importantes pois possuem uma certa "aura" ao pressentir problemas e mesmo colocar calma nas pessoas quando os problemas acontecem. Descartar nossos grandes dinossauros é um erro, pois assim como os dinossauros da época Jurássica eles têm muito a nos contar. E o melhor, estão vivos!