
Sexta-feira, 12 de Agosto, 2011
Doce confiança assassina
Como você faz para atravessar a rua? Se você só olha para frente, cuidado com o trânsito. Quando criança nossos pais sempre nos ensinam que para atravessar a rua devemos olhar para frente, para os lados e para baixo, pois pode ter algum obstáculo, buraco ou desnível que pode nos fazer cair. Mesmo assim muitos morrem todos os dias atropelados por desatenção. A confiança é doce, nos traz aquele ar de sabedoria e de estar no topo do mundo. Nos esquecemos no entanto, que a mesma confiança ao subir o topo de uma montanha pode nos trazer a morte por uma única e pequena pedra fora do lugar ou com encaixe solto. Os alpinistas detestam a confiança, ela é mais assassina do que doce. Quantos senhores de ternos bem alinhados não vieram nas televisões do mundo no fim do ano de 2010, com a voz empostada, sentados em suas análises "perfeitas" dizer que a crise financeira tinha terminado. Alguns foram tão otimistas que previram para esse ano 122 mil pontos para o Ibovespa. Na mesma linha de nosso texto "Cadê os 80 mil pontos do Ibovespa" a reportagem do uol expõe os erros dos grandes analistas. Nenhum, absolutamente nenhum previu quedas violentas e valores próximos a 50 mil pontos para o Ibovespa, confira:
Então podemos nos perguntar: Por que as bolsas que caíram tanto nessa semana, subiram tão rápido? Simples, esses mesmos analistas interpretaram que o pedido de seguro-desemprego abaixo de 400 mil nos EUA é sinal de que não há recessão. Jornalistas de alguns telejornais decretaram que os EUA não estão em recessão, mas com recuperação lenta. Recuperação lenta com 9,2% de desemprego e alguns estados (Nevada) com 15%? Se esses analistas dos grandes bancos de investimentos e consultorias erraram 100%, por que deveríamos acreditar que eles decretaram fim da crise por um simples dado de pedido seguro-desemprego? Já mostramos aqui o grande erro de interpretação dos números-índices ("Sabores dos índices do mercado") e que seus resultados não dizem nada. Os grandes fundos e as consultorias que possuem grandes montantes nas bolsas, ficam ansiosos para saber desses índices e torcem para vir acima do esperado. Quando isso ocorre, eles levam o investidor a acreditar que pronto! Tudo acabou, problemas resolvidos e vamos às compras. O flash-crash não foi uma simples brincadeira e não é segredo o quanto já expusemos os perigos e a irracionalidade dos robôs-traders ("Asboniz, o super robô trader"). Agora os pequenos investidores, além de acreditar que não existe crise nenhuma apenas devido a um simples dado, são induzidos a correr atrás do prejuízo em movimentações ultra-rápidas. Hoje um artigo do yahoo!Finance expõe exatamente o mesmo pensamento, dizendo que o investidor físico está sendo levado a se tornar maníaco por altas-freqüências achando que bolsa é jogo. A afirmação que se faz é que os computadores não são armas, mas as pessoas atrás dele usam como arma ou "game". Ao invés de aplicar em empresas, estão aplicando apenas em gráficos e números.
|
||||
Em todos os casos dessas quedas o repertório foi o mesmo. Banqueiros se reuniram, viajaram pelo mundo, tiraram fotos com poses de senhores do universo e davam entrevistas. Compravam ativos, compravam bancos "amigos" falidos ou títulos das dívidas e nada freava a onda final de vendas. No caso do IMA (Índice de Mudanças Abruptas) o sinal de entrada atingiu o valor 1,0, seu máximo. Isso não significa o fundo do poço ou uma virada imediata para cima. Na crise de 2008 o IMA-entrada ficou dois meses oscilando entre 0,9 e 1,0. Só então as bolsas começaram a subir com consistência fazendo o IMA-entrada desabar. Claro que dessa vez pode ser diferente, com grandes e sólidas ações dos banqueiros e governos agindo sobre o mercado e tendo resultado positivo. Pode ser que na semana que vem o IMA comece a cair. Mas no histórico esses fatos desanimam nossa esperança, pois sempre o script se repete. Temos que ter confiança de que os empregos e a economia real vão melhorar lá fora, para manter nosso status de emergente sólido aqui no Brasil. Mas confiança não significa esquecer de cravar o grampo na pedra. Um pequeno vento pode por fim a qualquer aventura de escalada da doce confiança. |
||||
|