Sábado, 29 de Janeiro, 2011

 

 

Dinheiro no sarcófago

 

O faraó Akhenaton herdou o trono de seu pai Amen-Hotp III nos anos 1300 A.C. com um Egito próspero e tranquilo. No entanto, Akhenaton resolveu confrontar os sacerdotes da época que tinham muito poder. O faraó resolveu criar uma religião monoteísta tendo como deus Amon, o "deus sol". Mudou a capital do Egito de lugar, mudou os costumes, criou novos templos e proibiu o culto a outros deuses. Em outras palavras, mexeu onde não deveria mexer. Decontentou o poder instrínsico do Estado Egípcio. Passou seu trono à linda faraó Nerfiti que foi assassinada. Seu filho, o faraó Tuntankamon assumiu com 14 anos e foi assassinado aos 18 anos. Fim de uma era, e a história recomeça com a mudança novamente da capital do Egito.

Akhenaton - Faraó do Egito (1300 A.C)

Mais recentemente (década 1970), depois do acordo de paz entre Egito e Israel através do presidente Anwar Sadat, durante um desfile militar, o presidente do Egito foi assassinado junto com sua comitiva de ministros. Desde então o presidente do Egito tem sido o "eterno" Hosni Mubarak. Mubarak é apadrinhado dos EUA, pois ajuda a evitar a chegada de armas por mar à faixa de gaza. Mesmo sendo didator, o que é contra os princípios da democracia pregado pelos EUA, o interesse justifica a causa. Daí porque os EUA não querem que Mubarak seja derrubado.

Essa "amizade'" entre EUA, Israel e Egito rendeu a Mubarak uma fortuna pessoal, aos EUA grandes retornos financeiros e a Israel segurança militar no sul do país. Basta visitar, por exemplo, o site property que faz longos elogios sobre investimentos americanos em propriedades egípcias. O Egito é passado para os americanos como um lugar seguro, com rendimentos garantidos, coisa que o povo local não tem.

Propaganda de site para investir no Egito - rendimento "garantido"

 

Os acontecimentos da semana no Egito são os mesmos já vistos antes, tais como a queda do muro de Berlim, a queda do regime soviético, a queda da Bastilha entre tantos outros. Ao ver a insurgência popular o primeiro ato do ditador é mudar alguém. Isso não atenua os fatos, pelo contrário, mostra aos revoltosos que estão tendo efeito sua explosão de insatisfação. Depois o ditador tenta convocar uma eleição de fachada ou chamar algum chefe da revolução para conversar. Depois tenta se desfazer de alguns poderes para o congresso. Enfim, com o crescimento da revolta, pede asilo político e sai na surdina do país. Foi o que aconteceu com o Xa Parlev também nos anos 1980, aliado dos EUA no Irã.

Paralelo ao descrito acima, a população convence os militares que estão do lado errado. Como ganham mal, como seus salários não são para os padrões de perigo que correm, esses militares desistem da causa e ficam do lado da população. Com medo de serem extirpados, os generais mudam de lado e tentam aprisionar o ditador. Ou o ditador sai correndo para o outro país, ou vai enfrentar uma corte marcial local, que será a morte. O dinheiro de Mubarak não está no Egito, mas na Europa ou ilhas Canárias. O dinheiro pode mesmo estar em imóveis nos EUA, por isso o presidente do Egito deve pedir asilo o mais breve possível aos americanos.

Imagens do Egito - CNN

 

Essa revolta pode levar um certo temor às bolsas de valores ao redor do mundo. Isso porque se o presidente do Egito cair, os investimentos americanos poderão cair na mão dos rebeldes. Todos os investimentos feitos estarão perdidos, e na maioria das vezes, esses investidores que vão para outros países são de investidores que gostam de risco. Logo, esses investidores gostam de bolsa de valores. Portanto, as bolsas vão sentir e muito com esse evento de revolta no Egito. Deve-se deixar claro que o povo tem direito à liberdade e à democracia, mas não devemos nos enganar. O próximo que assumir será também ditador e não gostará dos EUA. Israel ficará cercada por todos os lados, para a felicidade do Irã. As peças no jogo mundial estão se movendo depois de muitos anos estacionadas.

E por que o Ouro não está subindo? Ao observar o preço do Ouro desde Dezembro de 2010, é visto que seu preço segue uma trajetória descendente. Era regra dos analistas que toda crise mundial leva o preço do Ouro a subir, pois ele é considerado um aporte seguro para as dúvidas. Mas não é bem isso que está acontecendo com a crise do Egito, visto que o preço do Ouro vem caindo (gráfico a seguir).

O ouro está caindo, pois o FED sob o comando de Ben Bernanke, já anunciou e reforçou nessa semana que continuará a emitir dólar sem lastro. E mais, fará o impossível para recomprar os títulos da dívida, valorizando-os para garantir o controle do déficit. O resultado pode ser observado no gráfico a seguir que mostra os títulos americanos com vencimento em 10 anos subindo desde meados do ano passado. Obviamente, de alguma forma, os EUA resolveram atacar o Ouro e valorizar seus títulos, que como todos sabemos são papéis que já não valem mais nada. Não valem e também valem muito. Isso porque esses papéis são considerados os mais seguros do mundo.

A jogada do FED tem se mostrado a cada semana mais perigosa e sem resultado prático. Cabe lembrar que o FED e o governo Obama querem e desejam manter uma certa inflação artificial. Para eles, se ocorrer uma deflação com a atual taxa de desemprego o risco é de estagnação total. No entanto, ao contrário do que Ben Bernanke afirma, essa política não está dando certo. A taxa de desemprego continua no patamar de 9,5% e os pedidos de seguros desempregos aumentam quase toda semana. Em algumas semanas até cai para milhares a menos, mas no geral os pedidos estão aumentando.

O que os EUA não entenderam é que a economia não é mais a mesma da década em que apoiaram o Egito. Mexer apenas num país ou pensar por conta própria não garante estabilidade. Eles já erraram no Irã nos anos 70, erraram no Iraque ao apoiar Sadam Hussem nos anos 80, erraram na América Central e continuam errando. Agora, além de errar politicamente estão errando financeiramente. Estão enterrando o dinheiro no sarcófago embaixo de uma pirâmide de dúvidas global. O risco mundial aumenta, pois uma catástrofe acontece com pequenas mudanças em locais importantes da estabilidade, como mostramos no texto " A catástrofe previsível". A catastrofe financeira virá, não da revolta popular no Egito, mas dos atos faraônicos do governo americano.