Sexta-feira, 14 de Agosto, 2015

 

O El Niño está chegando

Os pescadores da costa do Peru sempre souberam reconhecer o fenômeno que hoje é famoso entre os meteorologistas, o fenômeno do aquecimento das águas superficiais do Pacífico conhecido como El Niño. Por acontecer em dezembro (na verdade são três meses, outubro, novembro e dezembro), mês do Natal, os pescadores peruanos bastantes católicos começaram a chamar esse fenômeno de "Menino Jesus", ou El Niño.

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) divulgou um alerta essa semana que o El Niño vai bater recordes de temperatura esse ano. O gráfico abaixo foi publicado nessa última quinta-feira (8-Agosto-2015) com dados reais coletados dos diversos satélites meteorológicos retirado do site da NOAA.

A temperatura na costa do Peru já está nessa semana cerca de 1,5 graus Celsius acima da temperatura média, sendo que teóricamente o período do fenômeno só começa em outubro. O fenômeno nunca tem a mesma intensidade e existe um ciclo de curto período, onde ocorre uma alternância desse fenômeno de aquecimento, com outro conhecido como La Niña, onde ocorre um resfriamente superficial das águas do Pacífico.

A figura abaixo apresenta o ciclo de variação da temperatura do Oceano Pacífico desde 1950 até esse ano de 2015, produzido pela NOAA. Pode-se notar que em alguns anos, o fenômeno é mais forte com variação de temperatura que chega a 2 graus e em outros, a variação não ultrapassa 1 grau.

A marcação em vermelho no gráfico acima se refere ao ano e 1998, onde a variação da temperatura passou dos 2 graus celsius e nós, aqui no Brasil, sentimos muito esse impacto. Em especial foi o ano em que a Amazônia sofreu muito com queimadas e seca histórica. A vazante do rio Negro foi a menor da história da região, como pode ser notado no gráfico à seguir produzido por L.M.Alves e outros no texto "Um Histórico de Secas na Amazônia".

Em 2010 a Amazônia enfrentou outra seca, e mesmo a vazante do rio Negro não sendo históricamente a menor, cenas como as dos barcos encalhados foram aterrorizantes para os moradores das localidades banhada pelo rio. Nunca isso tinha acontecido para as embarcações do volumoso rio Negro.

Seca no Rio Negro em 2010

As autoridades brasileiras novamente estão dando de ombros para a Ciência. Quando se tem um alerta, o mais correto seria criar um conselho de crise para elaborar saídas emergênciais. Como o governo do Brasil nunca em sua histórica pensa em longo prazo, em dezembro e janeiro próximos, com certeza o governo federal vai ter de liberar milhões ou bilhões de reais para as "bolsas da seca" ou para acolher os agricultores que vão perder a lavoura.

Não se vê nenhum governo preocupado em se preparar para aquela que pode ser a maior seca de todos os tempos. Nem governo federal, nem governos estaduais estão dando a devida atenção ao alerta mundial.

A chegada do El Niño tem fortes consequências nos aumentos dos furacões, aumento do consumo de energia elétrica e ele pode intensificar as queimadas provocando um aumento do aquecimento global.

Um estudo interessante feito pela NOAA, e com foco diferente, está relacionando o El Niño de 1918/1919 com a gripe pandêmica conhecida como Gripe Espanhola.

Essa terrível e assustadora gripe, com virus mortal e que matou milhões de pessoas na época, pode ter sido uma consequência do El Niño. Com uma dispersão do aquecimento diferente dos padrões atuais, o El Niño de 1918 se deslocou mais para a parte da India.

Esse deslocamento afetou as monções, chuvas tradicionais da India, responsável por manter o solo fertil e produtivo. Com a alteração do clima, as monções praticamente deixaram de aparecer naquele ano, sendo muito fracas.

Sem água potável, diversas doenças começaram a se espalhar pela India, e segundo o estudo, uma delas foi o virus da Gripe Espanhola.

O gráfico ao lado mostra as coincidências entre os dados do El Niño de 1997 e os que estão começando a aparecer desde 30 de julho desse ano de 2015.

O aquecimento desse ano já está mais forte do que o aquecimento de 1997. O formato e a dispersão do aumento de temperatura são bastante coincidentes para os dois períodos de observação.

E como se pode observar, a coloração está mais intensa nesse ano, mais escura, mostrando aquecimento maior nas águas do Pacífico.

 

Gripe Espanhola de 1918

 

 

 

A projeção é de que o aumento de temperatura seja de até 3 graus nesse ano. E então, nossa lavoura pode se preparar para grandes perdas.

Em 2005 tinha-se a expectativa de que o verão seria bom de chuva no Sul, já que a seca ocorre no norte e nordeste, e muita chuva no sul, em épocas de El Niño. Mas em 2005 o fenômeno driblou todos os cientistas e ocorreu o contrário.

O resultado foi que, ao invés dos produtores do sul colherem 3 toneladas de soja por hectare, colheram apenas 780 quilos.

Como pode ser observado ao lado, o preço da soja vem subindo ano a ano nas diversas regiões do país. No RS, estado que teóricamente será mais atingido pelo El Niño, os preços estão em tendência de alta mesmo sem o fenômeno El Niño. Com ele, esse preços deverão ser ainda maiores nos próximos meses.

Mas nem mesmo os cientistas afirmam com toda certeza que o El Niño será forte. O que se diz é que, com probabilidade de 90%, o El Niño terá temperaturas recordes.

Todos os estudiosos da área já tomaram tropeços com as previsões sobre o fenômeno e sabem que ele pode alterar de um mês para o outro.

A explicação para o El Niño? Ninguém tem, ninguém ainda sabe. Existem algumas pistas, mas nada de comprovado ou concreto sobre o porque desse fenômeno. Será que tem a ver com o ciclo solar? Pode ser. Será que é devido a oscilação do campo magnético? Pode ser.

A única coisa de concreta que temos, é que mesmo com a enorme quantia de satélites, sensores e embarcações existentes, a previsão serve apenas para dizer se estamos com El Niño ou não. Quem o faz surgir é um enorme mistério na Ciência.

E de concreto é que vamos sofrer com a seca. E vamos sofrer com as fortes inundações, elevando a inflação dos alimentos no Brasil. E mais uma vez, talvez em janeiro, veremos aquelas campanhas para ajudar pessoas que perderam suas casas, mortes de crianças por desabamentos e lamentos dos políticos de que ninguém prevê o clima.

Ninguém mesmo?

 

 

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