Quinta-feira, 3 de Novembro, 2016

 

Empresas precisam de Matemática

"... e isso se chama e-mail ....".

Foi num congresso de Matemática em 1987 na USP de São Carlos, que pela primeira vez ouvimos o nome dessa nova maneira de contato entre pesquisadores nos EUA (veja nosso texto "Traga meu e-mail"). Esse "tal de e-mail", segundo o palestrante, revolucionaria o mundo, aproximaria as pessoas e seria um correio eletrônico para troca importante de informações.

Achamos isso muito futurístico para o Brasil e que demoraria muito tempo para isso ocorrer. Mas em apenas 5 anos, todas as universidades do Brasil já possuíam um linha dedicada coletiva para todo mundo se corresponder. O e-mail era coletivo, dá para imaginar? Sim, todo mundo poderia ler o que os outros escreviam. Mas 5 anos não foi um tempo tão longo assim.

Mas o Brasil era outro. Tínhamos crise financeira, planos e mais planos econômicos do PMDB que nunca deram em nada, eleições com os mesmos de sempre falando em educação e saúde, ou seja, tudo igual aos tempos atuais. Com uma diferença: o ensino ainda que ruim, era valorizado por todos.

Depois que a bandalheira tomou conta do mundo, em especial do Brasil atrasado, ganhar dinheiro se tornou mais importante do que ganhar conhecimento. Naquela época, empresas do Brasil participavam e ajudavam congressos de Matemática, de Estatística e de Pesquisa Operacional. Os executivos apareciam e se dispunham em dar palestras para arrebanhar pesquisadores para resolver problemas.

Mas as práticas ganaciosas com único fim de lucro, aliadas ao baixo poder de instrução no Brasil, fez essa importância cair a zero. Hoje vemos nos debates de fóruns, qualquer ignorante escrevendo totalmente errado, com ideias e ideais de extrema direita, facista e xenofóbica, achando que seu conhecimento, o conhecimento do seu "umbigo" é mais importante do que a opinião de alguém que estuda e estudou muitos anos para tentar concectar a vida, a realidade, as atividades e o relacionamento humano para tentar resolver problemas.

O Brasil da internet se tornou não apenas a população mais conectada do mundo, mas a população conectada mais atrasada do mundo, que só dá interesse a piadas e perseguições. E tudo isso vem da piora, do desastre em que vivemos no ensino. E garotos que não entendem problemas, não resolvem problemas. Esses garotos se tornam adultos.

Essa ignorância de nossos garotos (que se tornaram adultos) está em todas as classes sociais. Garotos ricos também crescem ignorantes, viajam e gastam seus cartões de créditos nos EUA, na Europa, em Dubai, mas o conhecimento deles e sua capacidade de resolver problemas é zero.

O garoto envelhece, casa, tem filhos e, ou vira executivo bem sucedido pois herdou empresas da família, ou então na outra ponta, será um funcionário de chão de fábrica que também terá que resolver problemas. E ambos, nas duas classe,s tem sério problema em compreender Matemática.

Isso veio se agravando ao longo dos últimos 30 anos, e agora, com uma crise financeira que vai piorar no Brasil, nossos empresários não sabem o que fazer. Tentam aumentar gastos com propaganda para vender mais. Não deu certo, a atividade industrial despencou. Depois o empresário tenta cortar o número de funcionários, achando que esse corte nos custos vai ajudar sua empresa. Engano, a atividade comercial despencou, pois o demitido para de comprar.

Enquanto isso, no mundo evoluído da educação, a Matemática está em pleno vapor. Enquanto aqui discutimos futebol e "coxinhas x mortadelas", lá fora discutem-se diariamente aplicações matemáticas para automação de veículos, celulares 5G, satélites de última geração, viagem à Marte, construção de telescópios gigantes, construção de radiotelescópios, novas técnicas de cirurgias por robôs, novos softwares para exames intracranianos, novas vacinas e por aí afora. (veja o texto "Precisamos ir ŕ Lua")

Como não investimos em nada disso, nada em Ciência e nada em Ensino, vamos ter que comprar. Sim, comprar, pagar caro e ficar escravo e dependente das indústrias estrangeiras. As empresas fora do país não estão fazendo nada, absolutamente nada que não saibamos. Tudo o que estão fazendo está construído há 100 anos pela Matemática, só faltava recursos e invenções tecnológicas para colocar em prática.

Automóveis que dirigem sozinhos? Está solucionado há 80 anos esse problema, nos artigos de matemáticos e engenheiros da área de Controle e Automação. Cirurgia por robô? Problema solucionado há 60 anos, só faltava "chip" e computador veloz.

Enquanto isso, esses nossos governos tupiniquins, desejam apoiar essa ideia maluca de travar orçamento e investimento por 20 anos, com o propósito de "salvar o país". E a população, sobretudo os empresários, apóiam esses políticos.

Os empresários que apóiam a PEC do teto do orçamento dizem que vão aumentar competitividade com menor gasto e investimento controlado. No ano passado, por exemplo, um grupo de chineses publicou o artigo abaixo.

Esse artigo fala sobre modelos matemáticos para aumentar competitividade nas empresas da .... China. Pergunto a esses empresários que acham que os políticos tem razão e vão lhes ajudar. O que entendem do que está à seguir?

Nada?

Então peça aos políticos que apóiam a medida da restrição do orçamento por 20 anos para lhes ensinar. Sim, isso é matemática, que está ajudando as empresas chinesas a derrotar os EUA e a Europa. Investimento em educação, investimento em tecnologia, investimento em Ciência é obrigação do Estado e não pode ter restrição. Se esses empresários entendessem de toda a cadeia de processos das empresas, das intrínsicas relações de lógica existente entre compra e venda, ou entendessem pelo menos do título do artigo acima, seriam perdoados.

Mas será que entendem do artigo seguinte?

Esses empresários deveriam entender de assuntos matemáticos como esse, pois ensina como otimizar custos, como aumentar lucros, como desenvolver novas aplicações. Dentro desse artigo tem a seguinte formulação matemática:

Humm, parece bem complicada e nova essa formulação. Isso indica minimização de custos, mas .... tem 200 anos de formulação. Desde os anos 1800 já se conhecia como miminzar e como maximizar funções. Essas funções representam lucros e custos para as empresas e os grandes executivos deveriam saber e entender o que está escrito em todos os artigos relacionados a essa área.

Empresários japoneses entendem desse tipo de coisa? Sim, entendem pois tiveram um curso forte em Matemática em sua graduação, sem limitação de gastos por parte do governo japonês. Gosta de Taiwan? O governo, ao contrário do que nossos políticos falam, investiu sem restrição em ensino, do básico à pós-graduação, para todos virarem empresários que entendam da equação acima.

Ao ler o artigo acima, se depara por exemplo, com resultados abaixo. Ou seja, como otimizar uma cadeia logística, como prever vendas, como melhorar desempenho de empresas, como melhorar os nodos de conexões entre compradores e vendedores, enfim, como sair da crise financeira.

No artigo anterior, por exemplo, o autor trata sobre a complexa relação na cadeia de suprimentos nos EUA e como otimizar as vendas. Isso tudo utilizando metodologia de 200 anos atrás, com cara e formato de "revolução" do século XXI.

E quem não entende, compra essa consultoria e paga caro, muito caro. Quem mandou não investir no ensino?

Ao lado, os gráficos retirados do artigo, mostrando os pontos ótimos de entrega, de compra, de venda e quais os lucros que uma empresa pode ter nos EUA.

Está certo, pode ser pesado demais exigir assuntos básicos de matemática para os empresários que nasceram nos anos 1970/ 1980.

Eles preferem pagar caro para ver resultados, então em qualquer crise, vão de chapéu na mão para o governo.

Mas pelo menos estatística básica, sim aquela sobre diferença entre gastos e lucros, esses empresários conhecem?

Por exemplo, ao lado temos um outro gráfico. Ele se chama histograma, básico ainda para o ensino médio. É até cobrado no ENEM, mas será que o empresário entende?

Sim, ele deve dizer que sim, pois essa "estatística" se refere às frequências de suas vendas.

Bom ... errado. Histograma é estatística, mas não ajuda em nada. É apenas uma representação da conhecida tabela de frequências e não vai ajudar nas vendas, muito menos a entender crise financeira.

Esses gráficos que aparecem em muitos, centenas, milhares de powerpoint de firmas e empresas todos os dias, são apenas representações dos dados.

Não servem como tomada de decisão. Para se extrair algo importante sobre uma indústria, uma firma, uma empresa, é necessário a análise de cenários de controle, de cenários de mudanças, e checar tudo com estatística de inferência.

(veja nosso texto "O mau uso da Estatística")

Otimização da cadeia de suprimentos

histograma

 

 

 

Box-Plot - Inferência

Certa vez, numa consultoria num dos maiores bancos do Brasil, ouvimos de um diretor: "... passa logo essa Pô...a pois não entendo nada disso...". Paramos e voltamos, dizendo o seguinte:

"Vamos te explicar essa ferramenta de estatística, pois é inferência sobre seus clientes. Se você não entende essa estatística, não entende seu problema".

No final daquele ano, o dito diretor estava na rua, despedido. Motivo: ele "previu" para a presidência do banco um aumento de 30% nos lucros do setor dele, mas teve prejuízo de 17%.

Foi demitido pela Estatística!

Em tempo, o gráfico ao lado se chama Box-Plot e representa o comportamento de duas ou mais variáveis em termos de média e variabilidade.

O retângulo central representa a mediana dos dados (metade exata do conjunto de dados) e as hastes são até onde chega o desvio padrão ou variância.

No caso desse exemplo, como os retângulos estão separados, pode-se dizer com 95% de certeza que as amostras são diferentes, e ainda mais, que a amostra 2 tem média ou mediana menor estatisticamente do que a amostra 1.

Só para contextuar, a Var-1 do gráfico era o salário mensal do brasileiro de janeiro a julho de 2015. A Var-2 é a Estatística do mesmo salário nesse ano.

Como é que estamos melhor agora, ou nesse ano, em relação ao ano passado, como o governo afirma? Sem conhecer Estatística e Matemática, todos os governos se aproveitam na ignorância da população, inclusive empresários.

O preço de não se conhecer Matemática deixou o mundo atrasado por séculos. Enquanto o matemático grego Eratóstenes provou que a Terra era redonda com observação, com triangulação e com Matemática, o mundo medieval jogou a informação nas trevas da ignorância. O que se pagou foi atraso em navegações pelo mundo, atraso nas relações comerciais, doenças, guerras locais na Europa, até meados de 1498 quando Colombo provou que o planeta era circunavegável.

Se empresários da época acreditassem antes nessa informação, estaríamos 4 séculos à frente na Ciência.

Ultimamente se vê muitos jovens sentados na frente de uma planilha Excel, com dezenas de tabelas, sem entender nada sobre as consequências ou o "por que" desses dados. O empresário paga salário menor, e por algum tempo ficam contente achando que a troca foi barata e boa. O excel faz tudo por ele.

Agora nos tempos de crise, peça ajuda ao Excel.

Ou ainda, peça ajuda à moda entre diversas firmas, os softwares de "Big Data". Já provamos em nosso texto (ver "Big Data, grandes armadilhas") o quanto de erro existem nas previsões furadas do Big Data. Big Data é interessante, mas é uma ferramenta a mais para ajudar quem conhece Matemática e Estatística. Para quem não conhece, parabéns! Comprou chuchu achando que era melancia.

A Matemática está muito avançada (veja nosso texto " A Matemática do Amor"), e pelo mundo afora suas aplicações encantam. Mas para o Brasil, estamos atrasados e assim vamos continuar. Educação só é prioridade na época de eleição e nessa época do ENEM, onde os governos usam estatísticas a seu favor para continuar enganando a população.

O preço disso tudo para nós?

Uma convulsão social à curto prazo, por debates ignorantes e despreparados. Não é de se duvidar que em breve poderão até colocar nas escolas disciplinas dizendo que a Terra não é redonda. Já existe uma corrente de educadores ignorantes tentando retirar das escolas no Brasil a ideia do Modelo do Big Bang para o início do Universo.

Pensando bem, para nós brasileiros, a Terra está bem quadrada e chata!

 

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