Segunda-feira, 09 de Julho, 2018

 

Escarro sobre Barbosa

 

Ele olhou para ela e caminhou até lá no fundo, de cabeça baixa, sabendo que não havia mais tempo nem força para nada. Pegou-a, olhou tudo ao seu redor e só o silêncio dominava. Há poucas horas só havia certeza, festa e glória, mas tudo mudou muito rápido. De herói na noite anterior, da certeza de um futuro promissor, a vida dele mudou sendo considerado o responsável por tudo de ruim.

Foi assim o início do fim do goleiro da seleção brasileira de 1950 ao pegar a bola nos fundos da rede após tomar o segundo gol, no fim do jogo da grande final, sendo o Brasil vice-campeão do mundo de futebol. Moacir Barbosa Nascimento, ou somente Barbosa, viveu para sempre o fantasma da acusação de ser responsável pela "perda do título".

Ele dizia que sua vida fora muito boa, teve muitos momentos felizes e nunca teve rancor das acusações. Mas a cada novo jogo de futebol entre Brasil e Uruguai sempre aparecia o fantasma do maracanaço e seu nome sempre estava em pauta.

Goleiro Barbosa ( 1921 - 2000)

Apesar de ter 11 jogadores em campo, mais outros tantos na reserva, mais o técnico, o presidente da confederação e todos os pertencentes ao momento histórico, Barbosa provou de toda a ira, racismo e desprezo que a mídia e população brasileira naquela época nutria pela população mais pobre, sobretudo a população negra.

Numa excelente entrevista à rede e televisão Cultura de São Paulo (assistir aqui no YouTube) , Barbosa se pronuncia sobre sua mágoa e os acontecimentos antes e depois da derrota de 1950. Barbosa até então era tido como o melhor goleiro do país, representando o Vasco da Gama, com títulos e estando sempre presente na imprensa falada e escrita.

Isso durou enquanto lhes interessava.

Após o dia da derrota, ele ainda jogou por outros times e ganhou campeonatos. Mas mesmo assim, sempre voltava a história e sempre ele era associado à derrota "vergonhosa" para o Uruguai. Na voz do próprio Barbosa, ele conta que após o jogo, pegou seu carro e voltou para onde morava no Rio de Janeiro.

As ruas desertas, ninguém circulava, apesar de ainda ser tarde e o Sol começar a se pôr. Na rua em que morava, ele conta que a tristeza era tanta que as comidas de todos os tipos estavam em mesas no meio rua. Ninguém apareceu para comer ou beber, e na sua própria versão, nem os cachorros comiam. O animais olhavam assustados para a comida e para a rua, talvez se perguntando, onde estão os humanos?

Eleito como melhor goleiro de um torneio em 1959, Barbosa parou de jogar no início dos anos 60. Continuou a ganhar títulos até se machucar e ter de parar de jogar. Tudo o que guardou se foi, vivendo então de favores.

Cartaz em homenagem a Barbosa como melhor jogador do torneio de 1959

E a raiva da população tinha que escolher um culpado. Barbosa foi o escolhido, por ser pobre, mas mais precisamente por ser negro. Ele conta que certa vez foi comprar pão em padaria e uma senhora de idade com seu netinho apontou para ele. E ela disse para o neto: "Esse é o responsável pela tristeza do Brasil em 1950".

A amargura era tamanha que ele resolveu sair do Rio de Janeiro e voltar para sua cidade natal, em Praia Grande (cidade Ocean), estado de São Paulo. Sem novas oportunidades, Barbosa nunca mais conseguiu ser o mesmo devido a contusão sofrida. Para ele, a maior dor veio nas eliminatórias de 1993 quando Parreira e Zagalo o impediram-lhe de visitar os jogadores na porta da concentração de Teresópolis.

Barbosa havia sido convidado para uma reportagem onde mostraria sua presença com fotos e imagens junto aos jogadores de Parreira, antes do jogo Brasil e Uruguai. Mas com aquela estigma e atraso que lhe são peculiares, segundo Barbosa, a comissão técnica, mais precisamente Zagalo, teria impedido sua entrada.

Zagalo impedindo encontro entre Barbosa e jogadores em 1993

Segundo Barbosa, mesmo tendo passados 43 anos do feito na época da reportagem, ele tinha sido abordado por um sujeito tentando lhe atribuir culpas sobre os fatos. Sua resposta foi: "Como as leis no Brasil de maior condenação são de 30 anos, eu como condenado, já cumpri os 30 anos dessa culpa e mais 14 anos!".

Realmente, nunca perdoaram o pobre Barbosa. Ele demonstra na reportagem um profundo ressentimento, com 73 anos.

O gol do Uruguai não foi um grande frango de Barbosa. Talvez um erro de posicionamento, mas não uma falha terrível.

Falha maior foi da zaga que conhecia o atacante Ghiggia do Uruguai e sua tradicional jogada. Ele sempre corria pela ponta direita e cruzava na direção do centro da área.

Tanto que o primeiro gol do Uruguai surgiu dessa maneira.

Mesmo assim, os zagueiros da seleção de 50 permitiram o chute de Ghiggia que, dessa vez, não cruzou, mas chutou direto.

Barbosa, imaginando que seria outro cruzamento como no primeiro gol, decide dar uns passos à frente para interceptar o cruzamento.

Quando percebe que a bola não seria cruzada, mas seguia em direção ao gol, volta para perto da trave, mas já era tarde.

A bola entra para dentro do gol e o silêncio e choro começa no Maracanã.

Estava ali selado o futuro não da seleção, mas de Barbosa. Um mês antes sua morte, ele participa de uma entrevista pela ESPN, mostrada nesse vídeo do programa de Flávio Prado em homenagem ao goleiro.

Demonstra novamente sua mágoa, dizendo ele que esse gol "foi a única maneira que consegui entrar para a história sem nunca mais sair dela".

 

 

 

 

Ghiggia (Uruguai) no momento do chute que originou o gol do Uruguai

Bola entrando no segundo gol do Uruguai em 1950

 

Neymar através dos memes que virou "piada mundial"

Barbosa era "homem elástico", conta um historiador que acompanhou a carreira do goleiro. Ele "voava" e ninguém sabia como ele conseguia. Nas palavras de Barbosa:

"Ghiggia pensou errado e deu certo, eu pensei certo e deu errado".

Pobre, morreu pobre e acusado. Por um único gol. Sua aposentadoria no final dos anos 90, segundo ele, era de cerca de 100 reais. Sem casa, quem ajudava com o aluguel depois da mudança de cidade foi o Vasco da Gama. O clube, em gratidão e reconhecimento, pagou seu aluguel até o fim da vida.

Barbosa não deixou herança para os filhos, não deixou carro, casa, apartamentos, jatinhos ou iates. Ele deixou apenas seu nome ligado ao fracasso de um time.

E ainda hoje, mesmo com essas poucas e bonitas homenagens de alguns jornalistas com documentários, nada faz lembrar do melhor goleiro da época. Apenas lembram e sempre lembrarão do "vilão" Barbosa.

Escarram sobre a memória desse pobre homem.

A maior derrota de uma final, de todos os tempos, dentro do Brasil, nem de longe é petrificada com a mesma raiva de 1950. A Alemanha humilhou a seleção de 2014, e só não humilhou mais por compaixão.

Qual o prêmio pela derrota?

Os mesmos jogadores, nunca foram acusados de nada, nunca passaram por um milésimo da culpa de Barbosa. E ainda fecharam contratos de milhões de dólares e de euros. Mesmo humilhados, são os mais bem pagos do mundo.

Escarraram e cuspiram sobre Barbosa.

Um morreu pobre por tomar dois gols sem culpa, outros são premiados, apesar de fracassados e moralmente estúpidos perdendo por 7x1.

Ninguém precisa perseguir ninguém, afinal de contas, é apenas um jogo, uma diversão, uma apresentação de cultura.

Tiago Silva sentado na bola após pedir para não bater penalti na Copa de 2014.

Mas por que a sociedade trata com tanto carinho técnicos e jogadores derrotados e humilhados mundialmente, e apaga da memória e coloca toda a culpa do mundo nos ombros de um único homem pobre.

A sociedade brasileira mudou? A sociedade brasileira cresceu e está mais educada? A sociedade brasileira é menos racista e xenofóbica do que em 1950?

Claro que não.

Ao contrário de Barbosa, todos os derrotados do 7x1 tem contratos sólidos e milionários, onde ganhar ou perder tanto faz. A sociedade não perseguiu esses jogadores, e ainda os permitiu fazer parte de outra seleção fracassada nesse ano de 2018, pois o dinheiro deles lhes transformaram em ídolos e não suas habilidades.

A sociedade admira mais quem tem dinheiro, muito dinheiro, do quem tem habilidade ou sucesso em determinada área mas é pobre. Ser pobre é sinal de fracasso, ser rico é sinal de ser o melhor.

Por que um jogador que, mesmo sendo capitão, senta na bola e chora, se recusando a bater pênalti por medo, ainda segue idolatrado e com destaque na mídia? Por causa dos contratos com patrocinadores, que são os mesmos que mantém as redes de televisões.

Por que outro jogador que prefere simular e enganar juiz para ganhar penalti é enaltecido pela torcida, mesmo não fazendo nada, com desempenho pífio num jogo? Por causa do dinheiro.

Por que a televisão, em especial a Rede Globo, ficou um mês colocando jogadores como "deuses", com histórias e músicas de fundo para obrigar as pessoas a chorarem pelas histórias comoventes? Porque logo em seguida vinha a propaganda milionária de um grande banco. As histórias diziam de batalhadores, de heróis, de "invencíveis", de .... bem, de tudo.

E para onde foram os "invencíveis"?

Se Barbosa tivesse um contrato milionário com os refrigerantes da época, nunca seria culpado de nada. Mesmo derrotado, estaria fazendo propagandas para os rádios e tudo seria esquecido. Assim como essa turma toda ganhou com o vergonhoso 7x1.

O futebol deixou de ser diversão, de ser arte, para ser obra da máfia. Existe uma máfia grande que mantém todo o esquema de valorização e multiplicação de valores.

Por qual motivo, uma empresa demitiria um diretor, ou um presidente, e cerca de um ano depois contrataria o mesmo diretor ou presidente pelo dobro do salário? Alguma empresa faz isso? Que empresa vende um produto e depois de alguns meses, mesmo com depreciação, compra de volta pagando o dobro do preço?

Seria muito inocente acreditar que essas transações milionárias envolvendo esses "meninos de ouro" de moral fracassada, tem como resultado apenas e tão somente a arte do futebol. É claro que não. É claro que existe um esquema mundial para lavagem de dinheiro nessas transações.

Só para lembrar, o presidente da FIFA já foi preso, o antigo presidente da CBF foi preso, o outro presidente da CBF não pode sair do país, um simples jornalista de campo virou dono de emissoras de rede de televisão no interior de São Paulo e por aí afora.

Como pode um menino que há 4 anos atrás morava em comunidade pobre, onde sua professora pagava com dinheiro próprio xerox para ensinar sobre o ENEM, agora é um dos maiores milionários da Europa? Quantos gols ele fez nessa Copa? Nenhum. Mas vale milhões de dólares.

O que faz um jogador valer 600 milhões de dólares? Quanto ganhou Madre Teresa de Calcutá por uma vida inteira, salvando pessoas da fome e de doenças? Ao final de sua vida, como reconhecimento, ganhou Nobel da paz de 1 milhão de dólares. Um jogador de futebol com 20 anos pode valer 600 vezes mais do que Madre Teresa?

Qual esquema mantém essa pirâmide enganatória? Que crimes estão por trás de tudo e ainda não apareceram?

É por isso que ficaram 24 horas por dia induzindo todo mundo a parar, instalar telões, vender apetrechos, consumir produtos, praticamente tratando a população como zumbis, onde os fatos reais da política e economia estavam acontecendo nos porões da corrupção. Mesmo sendo ruim, os jornalistas enalteciam jogos ridículos, jogadores que nada fizeram, implantando na memória das pessoas que valia à pena torcer pela "nossa pátria".

Jornalistas protagonizaram choros ao vivo com a derrota da seleção para a Bélgica, porque milionários perderam por não saber jogar futebol. Mas dificilmente se vê esses mesmos jornalistas chorando quando noticiam mortes por hipotermia de pessoas sem casa morando embaixo de viadutos em dias de frio. A sociedade está tão fora da realidade, que é mais dolorido chorar por um jogo, do que pela morte de um ser humano.

Alguém tem interesse em vasculhar e prender os verdadeiros chefes? Claro que não. Se uma investigação séria for feita, com certeza vai bater nas portas de grandes corporações que usam o futebol para justificar caixas e lucros. Vai bater nas portas da grande mídia. Vai atingir pessoas famosas, governantes, empresários, enfim, o que é mais fácil?

Mais fácil é escarrar e cuspir em pessoas pobres como Barbosa, do que realmente mostrar a verdade ou a arte pelo esporte. A arte real do futebol não vai trazer todo o lucro que o esquema precisa para se manter.