Domingo, 9 de Maio, 2010

 

Euro monta trincheiras, mas o inimigo vencerá

Na primeira guerra mundial, a estratégia adotada pelos países aliados contra a Alemanha e a tríplice aliança foi a construção de barreiras de soldados conhecidas como trincheiras ao longo das divisas de todos os países. Essas trincheiras eram a garantia de não invasão do inimigo, pois além das barreiras naturais como montanhas e rios, barreiras formadas de cercas de arames farpados evitavam o avanço inimigo, além dos projéteis dos rifles dos soldados entrincheirados. Os generais da época eram soberbos, os senhores das estratégias e diziam que em pouco tempo a guerra estaria terminada. Acontece que o lado inimigo adotou a mesma estratégia e a guera se prolongou por quatro longos e dolorosos anos.

Sem o poder de avanço, os dois lados da guerra ficaram travados e observaram a morte de milhares de soldados não somente pelas batalhas, mas pelo frio intenso, doenças como cólera e gripe e desbarrancos dos túneis mal construídos. A guerra só foi finalizada com a entrada dos aviões na guerra e destruindo trincheiras, soldados e civis. Insistindo no erro, na segunda guerra a França possuia a "intransponível" barreira "Maginot". Hitler destruiu com seus tanques em apenas uma tarde e dominou a França, desfilando na avenida Champs-Élysées.

Tempos modernos, idéias antigas, estratégias obsoletas e soberba na fala dos chefes da área financeira da União Européia. A batalha será entre o Euro e os especuladores. Desde a crise do Lehman o Euro não "derretia" e sofria quedas tão violentas como nessa semana, segundo reportagem da bloomberg ("EU Prepares Euro Fund to Fight Wolfpack, Halt Debt Crisis").

 

Os gráficos a seguir mostram o desespero dos líderes europeus, onde nos últimos dias está perigosamente se aproximando de US$1,00. A batalha será desesperadora pois a União Européia costura um fundo bilionário de socorro a todos os países na tentativa de segurar o câmbio. A criação do fundo está repleta de segredos e o que ia ser uma divulgação normal para quarta-feira (12/05/2010) será uma divulgação corrida ainda hoje, domingo (9/5/2010). Segundo a bloomberg os líderes querem vencer a primeira batalha que será na abertura do pregão Asiático, que será marcado por volatilidade extrema.

Essa trincheira financeira terá outros ingredientes como estratégias de defesas e novas regras para atuação dentro da comunidade européia. Mas ela funcionará?

 

Não, não irá funcionar pois o problema não são os especuladores mas os próprios líderes europeus. Quanto tempo a crise grega está se formando? Em nosso texto " Os deuses do Olimpo se revoltam" postado em 15 de Dezembro de 2009 a crise já estava formada. Foram 5 meses de conversas e discussões que não levaram a nada, a não ser causar mais dúvidas e volatilidades no cenário financeiro mundial. Se não conseguiram decidir ajuda monetária em cinco meses para um único país com uma economia pobre, conseguirão alinhar estratégia em um fim de semana por teleconferência?

A nova trincheira poderá funcionar em um ou dois dias, mas o Euro continuará caindo a médio prazo. Os bancos ingleses não conseguem se manter e estão a todo instante recorrendo ao governo do Reino Unido. Na reportagem do portal inglês Financial Times "FTSE loss is biggest in five months" pode-se ver como a economia européia não se sustenta. O banco Royal Bank of Scotland caiu 5,7% sexta-feira, mesmo divulgando resultados melhores do que esperado. O Lloyds Banking Group perdeu 5,5%, Aviva caiu 4,8%, Punch Taverns deslizou gigantes 12,8%, Enterprise Inns menos 11%. São todos números enormes mesmo com a chamada "recuperação global". Na aviação, a British Airways perdeu 6,1% e BT Group caiu 6,3%.

Quem conhece o mercado financeiro, sabe que os especuladores adoram regras e batalhas como essas, pois eles sempre vencem. Que o diga o mega investidor George Soros que apostou e bateu na libra esterlina na década de 1980 se tornando bilionário. Então não se faz nada?

Sim, deve ser feito algo, mas estrutural e não no desespero apresentado pelos líderes europeus. Por exemplo, nesses tempos de crise o ideal seria identificar todos os compradores e vendedores para todos os negócios com moedas. Com nomes e completa localização poderiam ser chamados caso estivessem "forçando" negócios "maldosos". Enquanto se permitir que os chamados "robos algoritmos" façam e dominem as negociações, fica difícil a identificação de quem está fazendo do mercado roleta de cassino. Ah, mas isso não é economia de mercado, dirão alguns! A economia de mercado está mostrando o seu verdadeiro potencial nos útlimos 3 anos. Somente os poderosos que estavam quebrados é quem ganhou algo. Cita-se nominalmente CitiBank, Goldman Sachs, Bank of America, bancos brasileiros e europeus. Por que ganharam? Porque receberam dinheiro do contribuinte e não deram nada em troca, nem crédito, nem emprego. Somente agora, depois de seus lucros é que em alguns setores os créditos voltaram ao normal. Durante a crise o aporte financeiro dos governos foi usado na roleta do cassino, por softwares dentro das grandes corporações.

Segunda ação possível seria ao emprestar dinheiro à bancos, não permitir que boa parte desse capital fosse colocado em mercados mas sim, como forma de garantia de reembolso ao cidadão caso o banco venha a falir. Nessa semana, mais 6 bancos americanos fecharam e o número já chegou a 68 somente nesse ano.

Terceira ação seria que caso tivessem lucros, uma porcentagem seria usada como participação na geração de empregos ou em programas sociais tais como reurbanização de áreas pobres (sim, nos EUA e na Europa também existem áreas pobres).

Enfim, poderíamos ficar escrevendo uma série de medidas reais e sérias para estancar a crise de moedas, mas seria muito cansativo e arrogante de nossa parte. Os chefes de Estado sempre possuem pessoas muito competentes e que já devem ter muitas idéias boas, mas que não podem colocar em prática pois são filtrados pelos políticos. Os mesmos políticos que têm medo de enfrentar de frente os maus elementos do mercado.

A Europa está há pelo menos 30 anos se recusando a importar ou abrir suas portas para produtos latinos (leia-se Brasil) de forma clara e ampla. Nesse ponto os líderes europeus são mostrados como fortes. Mas quando a crise está na Europa, se deseja convocar o mundo todo para ajudá-los. Por que não retiram as barreiras alfandegárias para Africa e América? Ah sim, isso aumentaria o desemprego por lá. Mas quanto está a taxa de desemprego na Espanha? Só 17% mesmo com as barreiras de importação.

Como conclusão, se a união européia criar fundos e regras "manjadas" dos especuladores, o Euro é uma moeda morta. Essa guerra a união européia já perdeu, não para os especuladores, mas para sua soberba.