Sexta-feira, 01 de Abril, 2011

 

 

Melindrosos da inflação

 

A palavra esperança, em bom português, significa o desejo de que algo aconteça. Os otimistas sempre têm esperanças de ótimos eventos futuros e alguns até vivem já no futuro, esquecendo seu presente, que por qualquer detalhe mudará seu futuro. Quantas pessoas naõ sonham com algo dentro de alguns meses, correm nos bancos, se endividam, fazem planos, vivem esses planos e quanto chega o futuro...frustação? O futuro não aconteceu e o passado se perdeu. Uma das melhores frases que já ouvimos foi: "Preocupa-se mais do que deve quem se preocupa antes do que deve".

Em termos probabilísticos, a esperança possui uma fórmula bastante assustadora para uma pessoa leiga, fora da área de cálculos. A fórmula da esperança matemática é a seguinte:

Assustadora! Poderíamos aqui explicar o significado da "cobrinha" que se chama integral, poderíamos explicar o significado do termo "dx", mas vamos deixar isso de lado. A integral foi uma das mais belas descobertas da Matemática, feita por Isaac Newton, o grande construtor do Cálculo Diferencial e Integral. Mas vamos contar logo o segredo para o leitor. Essa fórmula tem o nome bastante comum de ... "média ponderada"!. Pronto, não precisa se assustar mais. A Esperança Matemática (esperança em maiúscula mesmo pois é uma função) ou Expectância ou ainda Expectativa nada mais é do que a velha "média". Então quando ouvir economistas enchendo a bochecha para dizer "a Expectativa inflacionária está se degradando", traduza por "a média da inflação passada está aumentando. No caso da inflação do Brasil medida oficialmente pelo IPCA (índice de preços ao consumidor) o histórico (inflação acumulada em 12 meses) é mostrado na figura a seguir.

E esse gráfico, em especial esses dados do IPCA, causaram o maior "frenezzi" entre os analistas, assets e economistas do Brasil nessa semana que passou. O Banco Central conseguiu "melindrar" a todos ao indicar que a meta da inflação será agora atingida num período de tempo maior. Antes a meta era anual, mas o BC agora está dizendo que irá atingir a meta de 4,5%, mas somente daqui há algum tempo para não perjudicar o comportamento do crescimento brasileiro.

Até esse ponto, nenhuma novidade entre o que pensam os técnicos do BC e o que pensam os analistas e economistas do mercado. Sempre ocorreram divergências e mesmo na Europa e EUA as incompatibilidades são do mesmo tipo nas discussões acaloradas. O que realmente "melindrou" nossos analistas e assets (gerente de patrimônio) do mercado foi que o BC disse que as expectativas inflacionárias são bastante discutíveis para uso da fórmula do controle da inflação.

Pronto, foi o suficiente para mexer no vespeiro. Primeiro foram os jornalistas econômicos (que precisam estudar mais ao invés de ser apenas papagaio de pirata) e depois os próprios economistas defensores das tais "expectativas inflacionárias" (que também precisam estudar mais). Na verdade todos nós precisamos estudar mais, a vida é um eterno estudo e o debate acadêmico só engrandece quem estuda e percebe onde acertou ou onde errou.

Primeiro: O BC tem razão ao dizer que esse negócio de "expectativa inflacionária" é bastante controverso. Para encurtar a estória, o que o BC faz é ouvir o mercado através de perguntas do tipo " quanto você acha que será a inflação no fim de ano?" ou " você acha que os juros devem subir?" ou ainda "quanto você espera para o dólar no fim do ano?". Claro que as empresas de consultoria não fazem perguntas tão diretas assim, elas ganham muito bem (pagas pelos nossos impostos) para fazerem perguntas mais "pomposas", quadros com gráficos bonitos, "floream" com "bla-bla-bla" difícil, mas filtrando tudo a pergunta é :"qual é a fofoca da semana?".

Agora imagine que apareceu um grande investidor externo (dono de bilhões de dólares). Como os juros do Brasil são os mais altos do mundo ele quer investir aqui, isso é óbvio. Então ele entrega o dinheiro ao asset e pede para duplicar esse dinheiro em 6 meses. O asset junto com seu "corpo de analistas" vai responder o que ao BC? Que os juros vão cair? Que ele espera uma inflação baixa no fim do ano? Se ele está comprado vai colocar no relatório de perguntas que espera o pior, pois com isso ele cumpre sua meta com o cliente. Em linhas bastante simplificadas foi isso que o BC falou num parágrafo de seu relatório.

Ah sim, os analistas e assets vão reclamar que a coisa não funciona assim. Eles possuem "modelos". Seu corpo de analistas são os mais estudiosos do mercado e tem modelos que "não erram nunca". A avaliação do acerto é o dinheiro que eles conseguem fazer. Qualquer investidor sabe que isso não é verdade. Quando o mercado sobe todos ganham, quando o mercado cai, todos perdem. Uns ganham mais que os outros não por modelos, mas pelos riscos que correm a mais. Por que criticamos tão fortemente? Por que os modelos usados são ultrapassados, obsoletos e enfadonhos.

Por exemplo, num artigo (muito bem escrito, por sinal) do professor João Sicsú, o qual criou o índice de credibilidade, podemos ver o tipo de ajuste para as tais "expectativas inflacionárias". O leitor poderá observar que para analisar a dispersão da expectativa da inflação foi usado ajustes lineares. E na verdade para dois anos, dois ajustes lineares diferentes. O professor não está errado, a estatística diz que isso é possível se algumas hipóteses forem satisfeitas. Do ponto de vista acadêmico é interessante, é bonito, é simples e elucida discussões qualitativas interessantes. Mas o mercado usar isso para "prever" o futuro e ganhar dinheiro é abuso de ignorância. Com base nesse tipo de "curvas" o mercado responde a pesquisa do BC projetando confiança ou não para o fim de ano.

Quem disse que a inflação é uma reta? Alguém acredita que a expectativa de inflação segue reta de tendências? Sim, os assets acreditam e seu corpo de analistas também. E com isso fazem outros acreditarem "forçando" o BC a reajustar os juros. Sim, eles estão completamente errados e fora da realidade. Se qualquer agência espacial seguisse os modelos baseados em retas dos analistas do mercado estaríamos hoje ainda na idade média. Nunca teríamos satélites, telefones e televisões. Se os modelos lineares fossem usados pelos meteorologistas as previsões de tempo seriam "pós-visões" e não "previsões".

Exagero? O leitor poderá acessar um documento do BC de novembro de 2010 onde se discutiam as expectativas inflacionárias no Brasil. Nesse documento o leitor vai encontrar a Figura 5 que compara vários modelos com os dados reais da inflação. Reproduzimos a figura abaixo.

A curva em azul claro é o IPCA real e as outras dos modelos que os assets e analistas "gostam" de seguir. Mesmo para 2009 onde a inflação estava controlada todos os modelos erraram. E o erro chega às vezes a 100%. Sim, enquanto os modelos previam inflação de 3% e até 4% a inflação real foi de menos de 2%. E quando diziam que teríamos inflação de 2%, tivemos deflação. E fica por isso mesmo?

 

Mas por que eles erram tanto? Se observarmos o modelo mais usado (de Svensson) veremos que ele não se sustenta nem matematicamente nem estatísticamente.

A letra "pi" indica a inflação e o modelo diz que a inflação futura é a inflação passada mais algum valor multiplicado por y. Quem é y? O erro cometido entre a inflação passada e a inflação projetada. O "e" do final é apenas um número aleatório para imitar a realidade. Quem disse que a inflação futura depende apenas do erro de projeção? E mais, para piorar, o valor de y é tomado em logaritmo da diferença entre a projeção e os dados reais, o que deixa os resultados ainda mais lineares. Esse modelo é como um "cachorro correndo atrás do próprio rabo". Sempre atrasado e olhando para trás. Então os erros são:

(1) O modelo é linear (reta), mas a vida não.

(2) O modelo depende do passado para dizer o futuro.

(3) O modelo assume o logaritmo para simplificar as análises.

(4) O modelo assume que a perturbação na vida é uma distribuição de probabilidade normal. (Não é, mas sim uma distribuição com caudas longas).

(5) O modelo é discretizado, o que torna imprecisões e divergência de resultados com muitos passos à frente (um ano é muito, mas muito tempo para esse modelo). O modelo é apenas tendência.

Para ver como esse negócio de expectativas inflacionárias tem diversos erros é só ler esse documento da ANDIMA que previa inúmeros problemas da inflação em 2010, prevendo problemas sérios para todos. Não ocorreu.

Mas isso não quer dizer que o governo tem razão e que o BC esteja certo. O BC e principalmente o governo, estão ainda mais errados que os analistas. O foco da inflação não está em modelos. O foco da inflação está em "gastar mais do que possui". Isso os analistas e economistas estão cobertos de razão. Todos devemos concordar com eles que há muito tempo o governo acha que o mel é para sempre. Está se lambuzando, mas não está vendo que as abelhas estão indo embora.

Então o grande erro dos analistas e assets não é ficar melindrados pois suas "formulinhas" ou seus "modelos" não serão mais ouvidos pelo BC. O que eles devem fazer, até como um instrumento democrático pois estão na frente de batalha, é informar a todos sobre os gastos maiores que a receita que o governo está realizando. O estardalhaço deve ser feito em cima das economias reais, já e agora, e não no que os "modelos" sobre expectativa de inflação vão dizer.