Sexta-feira, 27 de Agosto, 2010

 

 

FED: sua arma é o discurso

(ATUALIZAÇÃO:30/08)

Errata: O leitor do site, Marcelo Lobo Fonseca, nos alertou corretamente de um erro nesse post. A remuneração do título é inversamente proporcional aos preços. Logo, se os preços dos títulos sobem, a remuneração cai, e os EUA terão que pagar taxas menores ao mercado e não taxas maiores ,como dito logo abaixo. Por ser um "porto seguro", numa eventual crise, mais e mais investidores vão procurar comprar os títulos americanos. A lógica da "demonstração por absurdo" que escrevemos abaixo se mantém, no sentido de que os EUA num futuro não teriam como honrar com o pagamento de tamanho montante.

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(ATUALIZAÇÃO:27/08)

Hoje Ben Bernanke fez um breve discurso sobre a situação financeira americana ("Bernanke:FED will take action if economy falters"). Conforme dissemos no texto abaixo, escrito antes do discurso, ele usou de palavras vazias. Seu discurso veio depois da revisão do PIB americando para o segundo trimestre. Foi de 1,6% ante aos 2,4% previstos pelo governo dos EUA. Também como dissemos abaixo, dizendo qualquer coisa, as bolsas reagiram e subiam ao redor do mundo às 12:00. Traduzindo o que o presidente do FED disse: "a economia está incerta e permanece vulnerável para desenvolvimentos inesperados". Ou seja, se vier algum fato sério de descrétido à bancos ou financeiras, a economia não resiste.

Quanto às opções, ele disse o que também descrevemos anteriormente no texto abaixo: Com juros em zero, ele disse que não vai medir esforços para evitar a deflação e recessão. Quais esforços? Qual estratégia? Não disse. Não tem.

Continue lendo o artigo abaixo escrito anteriormente ao discurso de Ben Bernanke.

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(ESCRITO HORAS ANTES)

O que sobrou ao presidente do FED (Banco Central Americano)? Somente discurso e promessas de incrementar a atividade econômica nos EUA. O que mudou de 11 de Fevereiro para cá? Nada. Em nosso texto desse dia ("Rojões sem pólvora") já alertávamos do perigo pela confiança mundial num único homem. Ben Bernanke não é o salvador do mundo, ninguém é. Quando o governo americano decidiu jogar a taxa de juros a zero, acabou matando a única arma que FED poderia ter para alimentar esperanças de longo prazo no mercado. Se agora o FED aumenta a taxa de juros, aumenta o desemprego. Isso porque as vendas vão cair, os créditos vão diminuir, as pessoas vão parar de contruir casas, vão parar de comprar casas, etc. E se o Fed diminui...esse é o ponto, não tem como diminuir pois está em zero.

Logo, qual cenário sobrou ao mundo? Estagnação. Em 25 de Maio desse ano (2010) escrevemos sobre a letra da crise que adotamos como "n". A cauda do "n" é a recessão ou estagnação, e alertamos que sempre depois de um estouro de bolha vem a estagnação. Nessa semana, vários textos apareceram na internet, ainda meio tímidos mas usando pela primeira vez a palavra "estagnação". Segundo o economista chefe da Standard & Poors, David Wyss, "a estagnação dos EUA é uma possibilidade realística", conforme aponta o texto da bloomberg.

Em matemática, existem três formas diferentes de se tentar provar um teorema. O primeiro é por construção, elegante e bonito, e também indiscutível. A segunda forma é por indução finita. Adota-se que o fato é verdadeiro para o primeiro caso, supõe que é válido para n-casos e prova-se para n+1-caso. A última forma é conhecida como demonstração por absurdo. Você supõe que a hipótese original é falsa e se chegar a um absurdo, então o fato é verdadeiro.

 

Os EUA vão ter estagnação. Para provar isso, vamos negar essa hipótese, ou seja, os EUA irão crescer muito. Se os EUA crescerem vai aparecer inflação. Ao aparecer a inflação o FED deverá aumentar a taxa de juros. Com taxa de juros em alta e inflação em alta as pessoas vão parar de ir às bolsas e vão procurar ainda mais os títulos americanos. Ao comprarem mais títulos, esses vão faltar e seus valores vão subir. Subindo o valor dos títulos, os EUA terão que pagar taxas maiores ao mercado, logo seu déficit que já é colossal torna-se extratosférico. Isso causará uma bolha nos títulos. As pessoas vão correr para vender e fazer dinheiro. E sem ter como parar a corrida, os EUA vão dar calote, logo tem-se um absurdo! Portanto, nossa hipótese está correta, haverá estagnação. Certo?

Errado. Talvez haja estagnação e calote. A hipótese anterior foi apenas uma digressão sem sentido matemático de verdade. A notícia preocupante dessa semana veio da projeção do Morgan Stanley veiculada pela bloomberg. Eles dizem que os calotes dos governos serão inevitáveis. Não que isso seja verdade, mas a hipótese levantada é interessante. O calote não seria do tipo plano cruzado brasileiro da década de 1980:"Não vamos pagar, pois já pagamos muito". O que poderá acontecer são renegociações dos vencimentos entre os grandes países, ou mesmo lançamentos de novos títulos para cobrir os mais antigos. Seria uma espécie de "calote amigável". Se isso ocorrer o mercado financeiro perceberá e uma crise sem precedentes e muito mais perigosa poderá despontar. Vamos olhar o gráfico a seguir retirado do "Economist".

 

Reino Unido e EUA são os piores países em termos de déficit em conta corrente. E o mundo está atolado com títulos "sem risco" desses dois países. O que fazer se eles resolver darem um "calote branco"? Nouriel Roubini, que não gosta de ser chamado de Dr. Doom, veio novamente a imprensa nessa semana dizer que o crescimento dos EUA no terceiro semestre será anêmico, algo em torno de 1%. Segundo ele, se realmente o PIB vier por volta de 1% o mercado de ações colapsa e a aversão ao risco dispara. Isso formaria o dupolo fundo.

Então, para onde fugir? Se os títulos podem dar calotes, as ações podem colapsar, os fundos podem falir, os bancos podem ser fechados, onde aportar? Entra em cena a estrela de Peter Schiff, que afirma que o mundo deve voltar ao padrão ouro. Outra idéia absurda? Pode ser, mas pelo sim, pelo não, o ouro não cai desde 2008 e está acima de 1.200 dólares há muito tempo. Vamos comprar ouro então.

Não vamos comprar ouro, pois todas essas hipóteses podem ser realmente absurdas, assim como a demonstração matemática do absurdo. Mas essas são notícias interessantes para olharmos para o futuro, não com um olhar vislumbrado de otimismo, mas de realismo. Como já dissemos aqui, devemos olhar para frente escolhendo realmente as notícias que interessam e que geralmente não estão em destaque, e ainda ligando-as para formarem uma explicação para viradas improváveis. A teoria do cisne negro, que já explicamos aqui, pode-se tornar improvável se o rumo financeiro não for pelo casuísmo financeiro, mas pela adoção de estratégias pensadas antes. Avisar do caos do tempo no meio da tempestade não ajuda quem está sem guarda-chuva.

Então qual o segredo do FED, e o que o Ben Bernanke poderá fazer nas próximas aparições? Nada. O governo de Obama pode jogar mais dinheiro para aumentar o emprego? Sim, mas já fez isso e não deu resultado. Talvez o presidente do FED use uma estratégia bem conhecida do Brasil, às frentes de trabalho. Não dão certo, mas vão fazer as bolsas subirem. Talvez ele possa nos copiar também criando algumas bolsas para trabalho. Não garante nada, mas pode fazer as bolsas subirem. Na verdade, Ben Bernanke pode até não fazer nada e as bolsas vão subir, pois o mercado quer que as bolsas subam. Mas como também já alertamos, subidas artificiais fazem as quedas naturais serem absurdamente grandes.

De novo, a pergunta: Qual o segredo do FED? Só sobrou o discurso.