Sexta-feira, 1 de Maio, 2015

 

Os políticos e O Fim do Futuro

O ano é 802.701 e George desce de sua máquina do tempo, construída em seu laboratório no fundo da casa em 1899, em Londres. George observa a nova terra, parece um novo futuro, com paisagens verdes, rios limpos, um ar livre de poluição. Mas George se depara com uma terra sem futuro.

Os humanos que sobreviveram a todas as guerras estavam refugiados nos subterrâneos, produzindo e mantendo as máquinas em funcionamento. Com as mutações esses humanos se tornaram monstros, os Morlocks. A segunda categoria de humanos eram os Elois que ficaram na superfície e eram ingênuos, osciosos e totalmente descrentes da vida. Ficavam o tempo todo dependentes dos alimentos fornecidos pelos Morlocks. À noite os Morlocks saíam dos subterrâneos e capturavam os Elois para devorá-los.

Esse é o cenário do filme A Máquina do Tempo (The Time Machine), filme de ficção cientifica de 1960 baseado no livro de mesmo nome de H.G.Wells. O livro de 1960 retrata a crítica sob a visão do mundo entre a classe operária e a elite da sociedade. A classe operária trabalha em prol da elite, mas com o tempo, a classe operária se vê inferiorizada demais e se revolta, devorando a sociedade elitista distante da dura realidade da vida.

Nesse ano de 802.701, não existe futuro, não existe conversa racional, todos vivem apenas para aquele dia, não discutem, não aprendem, não questionam, apenas gostam do prazer de curtir a natureza sem se importar como ela funciona.


Vivemos uma época de superficialidades, onde poucos se aventuram a enfrentar a ignorância humana causada pelos políticos Morlocks. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia e cunhou termos interessantes para a atual sociedade mundial. Segundo ele, vivemos uma época em que temos uma "liquidez de relações". As relações se escorregam pelos dedos, nada é duradouro, tudo é para a moda do imediatismo. Com mais de 90 anos, esse professor já vendeu mais de 350 mil cópias de seus livros e pensamentos sociológicos.

Em entrevista à revista …poca no ano passado (2014) ele declara de maneira enfática: " Vivemos o fim do futuro". Segundo ele, as instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um "deficit perpétuo de poder". Os antigos olhavam para os desafios futuros, viviam em busca de atingir melhorias com olhos voltados para o avanço da sociedade. Isso se exauriu graças a globalização e as redes online, que estão destruindo as relações físicas, chamadas por Bauman de "relações off-line".

A saída de tudo isso?

Os jovens mudarem , sairem às ruas e colocarem energias para tirar os políticos e as instituições de seu conforto político superficial. Apesar de indagado pelo repórter sobre seu pessimismo, mesmo com 90 anos Bauman se mostra otimista. Sua definição de otimistas e pessimistas é muito interessante. Diz Bauman: "... Otimistas acreditam que este mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os otimistas podem estar certos...". Mas ele garante que ainda existe uma outra categoria de pessoas: aquelas com esperança.

Em outra entrevista, Zygmunt Bauman no entanto dispara uma dúvida:"... embora saibamos como criar uma sociedade mais humana, a pergunta para a qual não tenho resposta é quem vai transformá-la em realidade?...".

Os governos, segundo o sociólogo, vivem presos entre duas pressões impossíveis de reconciliar: a do eleitorado e a dos mercados.

No Brasil, nossos políticos já escolheram o lado. Estão sempre do lado do mercado, e se possível, da propina que emana do mercado. A propina está tão enraizada, que mesmo uma criança em início escolar tenta comprar professora com balas e bombons para se obter confiança e notas melhores.

Afinal, quem não gosta de um agrado?

E a complexidade é tão forte, que mesmo muitos estando a favor dos protestos contra os governantes, cometem os mesmos deslizes todos os dias ao tentar subornar o policial para não multar, o guardador de carros, o garçom, o funcionário de um mercado e assim por diante.

Até onde vai o limite entre o agrado e a corrupção "inocente"? E esse problema só aumentou com a globalização, onde os políticos e seus "seguidores" dos facebook e twitter se acham maiores do que a realidade.

Só que esquecem que a rede virutal tem crash, e ele é rápido. Basta uma frase no facebook ou twitter para disparar a desconexão da rede.

Amigos de internet não são amigos, são apenas letras na tela. Amigos de verdade são pessoas físicas, estão em atos sólidos, em troca de cartas constantes (e-mails nos dias atuais), em busca de melhorar a relação dia após dia.

E é por isso, que ao perdermos referências entre o que é real e virtual, fornecemos poderes a quem não merecia, ou nunca deveria ter. Tais como os atuais políticos, e que aqui de forma apartidária, e quase sem excessão, todos estão no mar da corrupção.

Claro que existem alguns mais ponderados e outros mais ignorantes, que impedem o avanço de uma sociedade ideal como propõe Bauman. Entre esses poderíamos citar muitos, mas os mais enfáticos na atual semana merecem destaque.

Os governadores de São Paulo e Paraná estão iniciando O Fim do Futuro. Em São Paulo, o atual governador não está inciando muito, pois ele próprio e os outros governadores anteriores já iniciaram esse processo 30 anos atrás.

Lembram da frase "... professor é igual barata, quanto mais pisa mais aparece..." ? Foi dita há muitos anos atrás pelo então governador Paulo Maluf.

O atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin afirma que em São Paulo não tem greve de professores. Apesar disso as crianças estão mais de 40 dias sem aulas!

O mesmo governador dispara que em São Paulo não tem epidemia de Dengue, contrariando dados da própria ONU. E ainda afirma que em São Paulo não tem problema com falta d'água.

Como se confiar em político virtual como esse?

Ou seja, no estado de São Paulo o Fim do Futuro já começou há muito tempo, agora estamos apenas no meio do fim.

Mas e no Paraná?

Sociólogo Zygmunt Bauman

 

 

 

 

Cantareira sem água, apesa de Alckmin dizer que não existe

problema de água em São Paulo

 

 

 

 

 

Ponte sobre rio sem água no sistema Cantareira em B.J Perdões - SP

Professora correndo do batalhão de choque

 

Professores recebendo bombas de gás

do batalhão de choque

Foto postada de policial "ferido" era fraude!

O estado do Paraná sempre foi um estado visto com otimismo por seu bom sistema de educação, cultura e desenvolvimento que parecia sólido. Curitiba era a atração principal, com baixos indices de criminalidade, cidade com ideias revolucionárias e progressistas.

Desde que o atual governador Beto Richa assumiu, o estado vai de mal a pior. Salários baixos e atrasados em sua rede de ensino, contas do governo não aprovadas (vide texto " ParanŠ, cadÍ o dinheiro?"), dívida galopante do estado e corrupção aumentando em grau e quantidade.

A situação chegou ao ápice após o governo não pagar o décimo terceiro salário por falta de dinheiro em Dezembro do ano passado. Além disso o atraso nos salários só fez aumentar a revolta. E para culminar, com chave de ouro, o governador de ideias facistas retira o direito adquirido na previdência dos funcionários públicos.

Seu secretário de segurança ainda estava enfurecido com as cenas vergonhosas de sua prisão dentro do próprio camburão da polícia pelos manifestantes de dois meses atrás. E teve a chance nessa semana de soltar toda sua fúria e raiva hitlerista em cima de pessoas que usam giz para se defender. Bombas foram lançadas de helicópteros, como podem ser vistas em cenas de celulares postadas na internet.

E para se defender, os covardes e fascínoras ainda tentam plantar fotos de coquetel molotov encontrados com manifestantes. A mesma polícia que diz que manifestantes estavam armados, mente quando posta uma foto de policial ferido. O pilantra (não existe outro termo) estava era com tinta colorida vermelha no corpo (ver a reportagem aqui).

Ainda mais espantoso é ver o vídeo (supostamente do gabinete do governador) de comemoração do palácio do Iguaçu em Curitiba, sede do governo ao ver as bombas lançadas sobre os mesmos professores, os quais Beto Richa foi pedir votos menos de 8 meses atrás.

Como isso não pode ser o início do Fim do Futuro? Judiciário, executivo e até polícia militar juntos para exterminar manifestantes! Um juiz de curitiba soltou e colocou em liberdade um primo do governador Beto Richa com acusação séria de desvio de dinheiro público, e ainda teve a coragem de enfrentar o governo federal com ofensas ao jornalista Juca Kfouri.

Um internauta se manisfestar contra o governo, pessoas irem às ruas manifestar, tudo, tudo isso é legal e perfeitamente democrático.

Mas um juiz? Um juiz xingar o órgão máximo do poder executivo de um país? Só no Brasil para se ver essa cena grotesca. Nos países desenvolvidos, um juiz como esse já estaria exonerado pelo supremo tribunal e preso por desacato à autoridade. Mas não em Curitiba.

Políticos perderam a noção e o entendimento da gravidade do ataque à quem ensina. Em defesa do amigo, o senador por São Paulo Aloísio Nunes Ferreira disse que os manifestantes não estavam lá "...carregando flores..." e por isso sofreram as agressões da polícia.

Vamos lhes contar quem é Aloísio Nunes. Esse senador apoiou a greve de professores, alunos e funcionários da UNESP e a invasão da diretoria da unidade da UNESP em S.J. Rio Preto-SP em 1984.

Quem era ele na época? Um simples e desconhecido deputado estadual da cidade, mas que esteve dentro da unidade invadida, apoiando e dando força para que os estudantes continuassem a greve e a invasão em prol da liberdade de expressão, como ele disse na época.

Como os tempos mudaram para ele! Não é mesmo, caro senador?

De onde vem essa história? Quem vos escreve era um dentre as centenas de alunos da faculdade invadida em São José do Rio Preto-SP. A invasão foi um ato extremo e democrático, contra a ditadura de um militar que no cargo de Reitor cometera atrocidades adminstrativas e educacionais contra professores e alunos, não permitindo outra solução senão a invasão.

E .... Aloísio Nunes estava do nosso lado. E também não tinhamos flores nas mãos, e muito menos ele! Ele que foi do partido comunista (PC) e atuava na clandestinidade (pois o partido comunista era proíbido de atuar), com certeza, sem flores nas mãos! Sim, ele era "vermelhinho" como assim denominam os professores do Paraná.

As pessoas mudam, crescem, se informam e podem sim, mudar de opinião. Mas contra fatos e atrocidades como as cometida no Paraná, era de se esperar que um senador se esquecesse de partido, de politica e lembrasse de suas raízes, do que fez na vida, da luta que teve e que apoiou antes de criticar quem usa giz para apoiar bandidos só por uma causa partidária.

O início do Fim do Futuro com certeza começou no mundo, mas ainda mais acelerado no Brasil. A liquidez das relações são mais líquidas aqui, onde os poderes sumiram em prol da safadeza, em prol da causa própria, do olhar para seu próprio umbigo, favorecendo mais o narcisimo dos selfies do que as relações humanas físicas.

O que vimos nessa semana, deixaria até mesmo os Morlocks assustados a ponto de não saírem mais dos subterrâneos do ano 802.701, pois nem mesmo eles tratariam mal os professores que seus antepassados tiveram. Os Morlocks destruiam os Elois por serem ignorantes, mas certamente não destruíriam pessoas mais instruídas, como o estúpido do governador do Paraná mandou sua tropa agir.

Adeus nosso Futuro!

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