Sexta-feira, 24 de Setembro, 2010

 

 

Um físico vai punir o mercado financeiro

Não se pode esquecer ou deixar de estudar os grandes economistas que revolucionaram a teoria econômica e tanto influenciaram a humanidade. Dentre alguns brilhantes está John Maynard Keynes que influenciou e influência todos os bancos centrais do mundo. Keynes defendia um Estado intervencionista para controlar recessão, depressão e bolhas através de medidas fiscais. E o que dizer de Harry Max Markowitz, criador da teoria sobre as carteiras de investimento e da fronteira ótima para minimizar riscos e maximizar lucros? Ou então William Sharpe criador do índice que leva seu nome relacionando volatilidade contra investimentos de risco zero? Não podemos esquecer de Black e Scholes que contruíram toda uma metodologia com fórmulas baseadas em equações diferenciais parciais como instrumento de análise dos mercados derivativos (opções, commodities, índices, etc).

Históricamente esses métodos foram desenvolvidos em épocas onde as transações eram realizadas por telefone e telégrafo, onde o glamour das bolsas era quase um romantismo. Sentar na frente de anuários estatísticos era a principal tarefa dos analistas de mercado. O próprio Buffet conta várias passagens em sua biografia " A bola de neve". Analisar balanços tomava meses à fim, com cada empresa meticulosamente avaliada em cada detalhe de compras, vendas, patrimônios entre tantas informações.

Mas desde 1985 os tempos mudaram e muito. Na verdade as mudanças começaram a acontecer no fim dos anos de 1970 quando a Apple começava a mostrar processadores incorporados a computadores pessoais. Depois da Apple, a Microsoft em parceria com a IBM nos fez chegar os PCs. Nos anos 1990 o google, o altavista e o yahoo tornaram a internet altamente atraente e com ferramentas que nos possibilitam adquirir informação ditas em "tempo real" (quando acontece imediatamente está no ar).

E como um celular novo ou video-game, o mercado financeiro gostou de usar novas ferramentas e testar os sinais em tempo real, também chamados de on-line. E os problemas começaram a aparecer. Em 1987, quando o uso dos primeiros algoritmos de stop-loss apareceram, uma linha errada de um código fez desabar as bolsas no mundo todo. Claro que também tiveram outros fatores como Japão super-aquecido, petróleo, ambiente da guerra fria próximo de seu fim, mas o estopim foi uma linha de um programa de computador errada. Numa grande ordem de venda o código não parou, as vendas foram abaixo do desejado e levou com ele outros programas de várias corretoras ao redor do mundo.

Parece muito distante, mas esse ano o mesmo fato já aconteceu no Dow Jones e foi ainda mais violento. Em 20 minutos o Dow Jones caiu mil pontos causando desespero e pânico ao redor do mundo. O fato recebeu o nome de "flash crash". A imagem abaixo correu o mundo numa brincadeira, dizendo que o gatinho apertou uma tecla que não devia e fez as vendas dispararem.

 

 

Mas há cerca de 20 anos, um novo profissional entrou no mercado de ações. O físico e sobretudo físicos que trabalham com partículas. Os "donos" das torres de marfim, como gosta de dizer Mandelbrolt, descobriram os introvertidos físicos e seus métodos ditos "extravagantes". Para um físico descobrir o caminho de feixes de partículas, equações e muita computação são necessários. Não basta ter um bom acelerador de partículas, um enorme banco de dados e no final ficar "clicando" em sua planilha Excel para arrastar dados e fazer estatísticas.

Desde o começo do século XX o método conhecido como Monte Carlo é usado pela física. O próprio Albert Einstein provou de seu veneno ao trabalhar com movimentos brownianos. Ao descrever o efeito foto-elétrico que lhe rendeu o prêmio nobel, Einstein tratou o movimento dos elétrons segundo às equações que representavam os pólens de girassóis quando são levados pelo vento. Ele não inventou essas equações, mas sim Robert Brown, um biólogo do século XIX. O prêmio foi dado a Einstein pela sua criatividade em tratar o movimento do elétron como um comportamento ora de onda, ora de partícula. E depois dele próprio abominar esse tipo de uso da estatística para as partículas, a técnica se espalhou de tal forma a criar uma grande batalha de idéias entre Einstein e Niels Bohr. Daí veio a frase de Einstein: " Deus não joga dados com o mundo", no que Bohr respondeu: "Além de Deus jogar dados com o mundo, ainda os esconde de nós".

Bohr (à esquerda) e Einstein(à direita) - foto de 1925 (wikipedia)

Baseado no idéia da roleta do cassino de Monte Carlo para escolher dados aleatórios, o método de Monte Carlo é amplamente utilizado em todas as áreas da ciência. Por exemplo, pode ser usado para encontrar área embaixo de curvas sem precisar de equação. Apenas jogando-se pontos aleatórios e contando quantos caem dentro da curva é possível descobrir sua área (veja a animação abaixo).

Eintein foi ao mesmo tempo criador e perseguidor das técnicas da Física de partículas. Pobre Einstein, não percebeu o quanto a sua criatura foi importante para o mundo. E então a criatura migrou para os mercados financeiros. E quando os físicos foram para o mercado financeiro, levaram consigo métodos matemáticos e algoritmos computacionais para tratamento de dados, que estão séculos à frente da Economia tradicional. E carregaram consigo os engenheiros, do MIT, de Stanford e de outros institutos de engenharia e computação. E não tem mais volta.

Só para mostrar a influência, a SEC, órgão americano que regula mercado de ações nos EUA, vem discutindo desde 7 de Setembro como controlar as operações de alta-frequências e possíveis flash crash. Cansados de trabalhar em vão e não conseguirem encontrar o que causou o flash crash de 6 de Maio de 2010, a SEC se redimiu e entregou a operação para um físico de partículas. Doutor há 20 anos por Princeton, Gregg E. Berman é um especialista em tratamento de dados de partículas subatômicas chamadas de neutrino pesado. Agora ele é o chefe da SEC e responsável por uma equipe de 20 investigadores na análise do caso do flash crash. Seu relatório será distribuído em duas semanas.

Como o próprio Berman afirma, em duas semanas ele não vai simplesmente reafirmar os comentários sobre o flash crash, ou seja, que a crise da Europa ou preocupações com a economia mundial foram os responsáveis. Também não vai reafirmar que ordens "erradas" foram dadas aos computadores. Ele vai mostrar a sequência correta dos eventos que precederam o crash de 6 de Maio. Segundo Berman ele vai mostrar que "os participantes do mercado estavam fazendo muitas coisas diferentes, por diferentes razões". Vai ser muito interessante a análise desse relatório e não será nada acadêmico.

Um dos membros da equipe de Berman disse que, assim como 20 anos atrás ele tinha encontrado uma relação estranha entre os neutrinos, foram observados os mesmos comportamentos no mercado financeiro antes do flash crash.

Físico Gregg Berman (à esquerda) - Chefe da SEC para investigação do flash crash

 

E no Brasil? Segundo a Bovespa, existe a preocupação com a seguranças das transações sim, mas ao contrário da SEC que colocou um time de acadêmicos e ex-acadêmicos para analisar e propor regras mais duras, foi criada uma modificação do sistema de break para ações transacionadas fora do padrão. Isso é pouco ou quase nada pois, ao se colocar servidores disponíveis para muitas pessoas ao mesmo tempo, ordens erradas podem desencadear pequenas vendas, com pequenos valores mas sempre para baixo e nunca vai atingir o circuit-break de grandes volatilidades. O processo somente será barrado quando atingir a baixa do circuit-break maior, ou seja, acima de 10% de queda no Ibovespa. A diferença é que pequenas quedas constantes serão mais violentas e rápidas nas transações de altas frequencias, assim como as colisões dos neutrinos do Dr. Berman. Em questão de minutos 10% de queda pode ser atingido sem evento nenhum na realidade.

Além disso, as corretoras brasileiras estão comprando aos montes os chamados "algoritmos robôs" para trades automáticos. Até aí, sem problema. O que acontece é algumas estão disponibilizando para qualquer investidor, e ainda com telas com comandos lógicos para serem manipulados pelo usuário. Como poderá uma pessoa que acredita que o Excel é sua melhor planilha e forma de informática, usar de forma correta comandos lógicos de compra e venda? Claro que as corretoras dizem ser 100% seguros, pois elas compraram de firmas que dizem ser 100% seguros. O problema é que esses algoritmos foram desenvolvidos por estudantes de computação de outros países, orientados por pessoas sem muita reputação de algoritmos computacionais nos meios acadêmicos e que foram muito pouco testados.

Os "entendidos" desses algoritmos robôs dizem que as empresas fizeram muitos bascktesting dos eventos. O que não entendem é que os dados gerados por simulação são criados baseando-se em regras de estatística que tem como princípio adotar a distribuição de probabilidade normal. E essa distribuição... não funciona para os casos reais como mostra por exemplo Mandelbrot em seu livro. E mesmo que funcionassem também não entendem que dados passados não são suficientes e confiáveis para previsões do futuro. Para testar o algoritmo de fato, o que se deve fazer é simulação NÃO DE DADOS PASSADOS, mas de falhas dentro do próprio algoritmo.

Por exemplo, o verdadeiro teste do algoritmo é trocar um comando "se" de lugar e testar com dados reais e simulados. Trocar loops de repetições de lugares, inserirem eventos de quebra de lógica, ou inserir de propósito comandos errados para ver que tipo de evento ele geraria. Se depois de tudo isso, as perdas por possíveis erros forem insignificantes, tudo bem. Mas o que as corretoras estão fazendo é testar com dados e com regras lógicas disponíveis pelos softwares, pois o código origem não vem na compra. O que se compra é o código executável (que vem com erros internos) que não disponibiliza a chance de ver como foi feito.

"Se" lógico de programas de computador

 

A solução: contratar equipes de profissionais das excelentes universidades brasileiras de computação (USP, UNESP, UNICAMP, UFRJ, COPPE, UFSCAR, UFSC, entre muitas e muitas outras) para desenvolverem códigos brasileiros.

Empecilho: preço sai mais caro e tempo longo, que as corretoras brasileiras não querem "perder". Mas podem perder mais quando algo der errado por alguma ordem lá de fora ou aqui de dentro.

Se o programa dos físicos também erram ao analisar trajetória dos neutrinos dentro de um ambiente fechado e controlado como um colisor, é muita arrogância do mercado financeiro mundial achar que os algoritmos robôs não darão erros.