
Quinta-feira, 30 de Junho, 2011
O perigo do monopólio irracional O rapaz era o boa vida, sempre nas "noitadas" inglesas do final do século XVII. Mantido por sua mãe escocesa, freqüêntava as tabernas com as mulheres e todas as cervejas disponíveis. Nunca deu nada na vida além, claro, de trazer problemas para sua família. Numa dessas encrencas da vida, duelou e matou um rapaz que o acusou de insinuar para cima de sua namorada. Foi preso e condenado à morte pelo rei inglês. Mas com a lábia que lhe era peculiar conseguiu fugir para a França. Sabe o que esse rapaz fez? Criou o atual sistema bancário mundial de negociação de títulos da dívida pública dos países. Não é a toa que a Grécia está em crise com seus títulos. O rapaz é idolatrado entre alguns economistas como o responsável por criar um sistema bancário mantido por regras para negociar dívidas e outros títulos, com troca direta de dinheiro em espécie em vez de usar ouro. Seu nome era John Law, o empresário e dono da Companhia do Mississipi (EUA na época era colônia da Inglaterra, mas com estreira relação com a França por causa do vizinho Canadá). A empresa dele possuia o monopólio do tabaco, conseguida com o nosso conhecido "jeitinho" ao ficar amigo do duque de Orleans da França em Setembro de 1718.
Artificialmente, como era o detentor dos valores do título, ele inflava e valorizava no mercado os títulos franceses para forçar as ações de sua empresa subir. Sua empresa tinha um valor de mercado em Outubro de 1719 de 5,4 bilhões de livres e Law estimava que os títulos franceses valiam 30 bilhões. A facilidade era tanta que em Julho de 1719, por exemplo, o banco (que era o próprio Law) autorizou a empresa negociar 159 milhões de livres em notas do tesouro com um valor de 240 milhões de livres (artificial). Em Janeiro de 1720 a bolha estava se tornando insustentável e os acionistas começaram a trocar as ações por ouro, ou seja, começaram a vender ações e comprar ouro. Os preços começaram a cair um pouco, mas serviram de alerta para Law. Ele então instituiu que ninguém poderia trocar ações por ouro acima de 100 livres. O rei não gostou pois tinha em sua fortuna pessoal 100 mil ações da empresa de Law. Então obrigou Law a revogar o ato e aceitar uma venda imediata em Fevereiro de 1720 das 100 mil ações ao preço de 9.000 livres por ação. O rei queria imediatamente 300 milhões de livres depositados em sua conta e o restante deveria ser pago em 10 anos. A companhia então parou de valorizar os títulos e de sustentar artificialmente os preços para atender o montante necessário para cobrir o caixa do rei. Law então foi retirado do seu cargo pelo rei pela insatisfação popular. Quando Law tentou transformar o valor recebido das ações em ouro, percebeu que não tinha ouro para tanto no país. Com a alta demanda, o preço do ouro disparou e todos que tinham ações da empresa de Law começaram a vender cada vez mais rápido suas ações para comprar ouro. O resultado (figura acima) foi que de Abril para Maio as ações da companhia de Law cairam de 9.000 livres para 5.000 livres. A cena final do pânico criado por Law foi ver o valor das ações de sua empresa cairem em Setembro de 1720 para 4.000 livres, em Dezembro para 1000 livres (o valor inicial das ações) e apenas 500 livres em Setembro de 1721. Com desconfiança e perseguições John Law fugiu para Veneza tentando repetir o esquema de empresa de títulos. Diante do pânico francês ninguém mais acreditava em Law e ele morreu em 1729 de pneumonia. Essa crise ou pânico, ficou historicamente como a "bolha do Mississipi" devido ao nome inicial da empresa de Law. Esse episódio não foi apenas catastrófico financeiramente. Ele foi o início da crise política que culminou com a revolução francesa e morte do Rei e toda Corte em 1789 por conta da fome, falta de dinheiro e empregos causadas por uma única pessoa. Na verdade a França caiu em desgraça por um escocês monopolista. Diante de fusões descontroladas no Brasil, percebe-se que o discurso de John Law está sempre presente, onde certos empresários em prol da detenção do monópolio afirmam que geram empregos com carteiras assinadas, estabilidade e competição levando produtos do Brasil para fora. Na verdade eles levam para fora o mesmo princípio de John Law, monopólio e dinheiro em contas de paraísos fiscais. |
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Observação: Mais detalhes dessa história podem ser encontrados no livro Famous First Bubbles (Famosas Primeiras Bolhas ) de Peter M. Graber |
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