Terça-feira, 18 de Maio, 2010

 

França jogará a toalha?

Um certo dia, um menino pobre americano, fascinado por boxe, encontrou seu maior ídolo e pediu um autógrafo. O boxeador campeão mundial foi arrogante ao extremo e disse para o garoto procurar se enxergar e que ele não perdia tempo com meninos. Então o menino disse as palavras mais prognósticas do boxe: "Um dia você vai me ver de baixo para cima". O menino se tornou um dos maiores boxeadores de todos os tempos e em luta pelo cinturão mundial fez o então campeão "beijar a lona" várias vezes. Parece lenda mas o menino existiu e foi filmado em diversas lutas deixando seus adversários completamente humilhados. O nome do menino: Mike Tyson.

Em muitas lutas percebe-se o claro desespero do treinador adversário jogando a toalha e entrando no ringue para proteger o boxeador deitado na lona. A expressão jogar a toalha vem desse momento em que o boxeador não tem como decidir permancer ou não na luta e o treinador é o responsável pela sua vida.

O Euro foi projetado e criado para ser uma moeda forte e se impor ao dólar e libra. Os europeus se reuniram e criaram a expressão "bloco" para se constituirem como um único mercado, capaz de se auto-sustentarem e com um sonho de serem os poderosos do mundo. Criaram uma constituição própria, uma moeda própria e obrigaram países próximos fisicamente mas desconexos culturalmente a se ligarem pelo dinheiro e não por afinidade. Pensaram que essa moeda era mais que suficiente para dar liga entre eles e literalmente bloquearam toda e qualquer tentativa de outros países em vender seus produtos. Com isso, países fora da Europa foram obrigados a criarem seus próprios blocos, tais como o bloco americano-canadense-mexicano, o bloco da oceania e o bloco dos países latinos tais como o mercosul.

O mundo tomou a mesma atitude que a própria Europa criou na idade média. Com a invasão dos turcos Otomanos os reis se contraíram em seus castelos e protegiam a população ao redor do castelo para manter sua sustentação com alimentos e armas. Os senhores feudais achavam que com isso estavam seguros dos ataques e da dominação dos invasores. Só depois de muito sofrerem perceberam que seus blocos eram frágeis e que a melhor estratégia era se unir para expulsar o inimigo invasor.

Depois da queda do comunismo, da queda do muro de Berlin e da extinsão da URSS, os europeus acharam que a melhor estratégia contra o poderio do dólar era se fechar entre si como um castelo e ignorar o resto do mundo. Quantas regras sanitárias, financeiras, culturais e sociológicas não foram criadas contra os países fora do Euro?

Nessa semana, o muro do castelo começou a ruir conforme em nosso post "Europa monta trincheiras, mas o inimigo vencerá". O Euro está ruindo ainda com poucos tijolos ou pedras, mas o inimigo de tanto tentar está conseguindo o que parecia impossível. O gráfico a seguir mostra o que acontece com o Euro desde 2009.

 

 

E nessa semana um dos senhores feudais mais fortes dá contas de sua insatisfação com a tarefa de casa não realizada pela Grécia. Diante do pacote trilionário da região do Euro, o presidente da França deixou escapar que está tentando ressuscitar o velho e surrado Franco, conforme o jornal inglês Telegraph (" President Nicolas Sarkozy threatened to pull France out of euro" ). E então, mesmo com o pacote trilionário o Euro não resistiu chegando ao seu valor mais baixo em quatro anos. E continua caindo, às vezes subindo de leve e depois continuando a cair. Quanto tempo a França aguentará sustentar o Euro junto com a Alemanha?

Se pelo menos quatro países tivessem a situação financeira que a Alemanha possui, o Euro não estaria passando por essas sérias dificuldades. O problema é que a Europa fez exatamente o contrário do que sempre induziu aos países mais pobres a fazer. Ou seja, não reduziu seu déficit, não criou novas oportunidades de emprego, não parou de emitir moeda sem lastro real, não controlou os gastos públicos e usou sem controle verbas de custeio fora dos orçamentos anuais. E para piorar não teve força para controlar países menos tradicionais sem controle de gastos em segurar inflação e desemprego. A região do Euro vem sendo conivente com gastos sem lastro há dez anos, emprestando a todos os países pertencentes ao seu feudo.

Mas o dinheiro é finito e a paciência também. Sem um crescimento sólido e sustentável a população francesa se cansou do "marasmo" que vivem há alguns anos criando inclusive revolta da população imigrante mais pobre em bairros afastados de Paris.

E como também foi comentado em post anterior, os "inimigos" financeiros assim como iena se aproveitam do animal moribundo para levá-lo mais rápido à morte. Diante do fato iminente o mega-investidor George Soros, conhecido por bater na libra no fim dos anos de 1980 e início de 1990 declarou à CNBC: " ... primeiro a morte do dólar era em espiral, agora é em círculos...".

A França não deve sair agora ou ressuscitar o Franco tão cedo, até porque sairia mais prejudicada do que já se encontra. Mas a jogada é dar um recado que quando a situação melhorar e o Euro se estabilizar, o bloco deverá ter um país a menos. Diferente da honra de um lutador de boxe que luta até morrer e deixa para o treinador a decisão de jogar a toalha, o fato é que nesse caso foi o boxeador que está saindo do ringue deixando o treinador sem o que fazer.