Quinta-feira, 28 de Dezembro, 2017

 

O futuro de uma ilusão

 

Nunca vou esquecer do sorriso do meu pai em minha última visita da UTI antes de sua morte. Na verdade foram dois sorrisos, um quando cheguei e outro quando fui embora. Foram semblantes diferentes. O primeiro claramente de felicidade e o segundo tão claro como o primeiro, de despedida.

Naquele dia eu tinha uma ilusão, a ilusão de que ele sairia de lá, que passáriamos mais um natal e ano novo juntos, com nossas risadas, nossas conversas mais ríspidas sobre governo, política, economia, enfim, eu tinha essa ilusão. Mas o futuro foi bem diferente.

Aprendi que a ilusão nos mantém vivos, nos conforta a mente e o coração. A ilusão talvez é a adrenalina necessária para que nossa vida não caia numa rotina maçante. Mas além da ilusão, devemos ter o domínio da razão, para ver um pouco adiante o futuro que espera e não apenas olhar para a ilusão.

Toda festa de fim de ano é igual, com muitas ilusões colocadas nas redes sociais, nos programas de televisão, todo mundo dizendo que o ano que vem será melhor, que teremos situação melhor, que a economia vai melhorar, que os empregos vão dar uma guinada e dedicando aos amigos e parentes "muita paz e saúde". Isso é ilusão, isso mantém nossos laços de amizade, nossos amores, queremos sempre nos iludir, isso faz bem. E torcemos como nunca para que essa ilusão seja real, verdadeira e sincera.

Michel Temer tem a ilusão de ser um chefe de estado. Ele tem a ilusão de ser um grande governante, tem a ilusão de que tudo o que está fazendo com os cofres públicos continuará. E assim como ele, sua tropa de choque tem a ilusão de que vão ser perpétuos nesse falso poder, onde Marun fala o que quer, Padilha age como quer, Moreira planeja o quer e Temer executa.

Hitler também tinha a ilusão da raça perfeita, tinha a ilusão de que venceria a todos, invadindo com seus melhores soldados, os melhores soldados do mundo na visão dele. Quanto maior a ilusão, maior a desgraça num futuro que não se realiza.

E junto com Michel Temer e sua tropa está alinhada a Rede Globo de televisão. Depois do jantar com os Marinho, confirmado pela emissora onde se pronunciaram como sendo uma "conversa republicana", o que se vê todos os dias é a fábrica da ilusão do Plim-Plim. As frases deixaram a bancada sarcástica de William Bonner e se projetam em novelas, mini-séries, jornais locais, tudo em todos os instantes para se criar a ilusão que tudo está melhor, que a crise acabou.

E junto com esse time, claro, não poderia nunca faltar a turma dos "economistas da globo", que antes eram os pessimistas da Dilma e agora são os otimistas do Temer. Consegue se ver até um sorriso de vez em quando no mal-humorado Sandenberg, falando sempre que "a crise ficou para trás". Ilusão, pura ilusão que está na pauta e ele é obrigado a falar. Esse é o resultado da conversa "republicana" no fatídico e secreto jantar.

Para quem assumiu o governo dizendo que ia recuperar o país, sanar a dívida, com tom forte em seu discurso, dizendo que os ministros estavam "proibidos de gastar mais do que se arrecada", como explicar o futuro dessa ilusão?

Esses são dados oficiais liberados hoje, no último dia financeiro do país pelo Banco Central. Para quem desejar a série histórica do Banco Central está nesse link: BC-dívida.

O futuro da ilusão de quem apóia Temer é desastroso.

Se para o governo Dilma estávamos a beira do precipício com 65% do PIB em dívida, por que os economistas se calam para essa catastrófica situação? A dívida do governo central (leia-se Temer) está em 74,4% do PIB. Como pode ser visto no gráfico anterior, de 2006 a início de 2015 a média era de 55%.

A dívida de Michel Temer em novembro é de R$ 4,85 trilhões.

Nessa semana, o vocalista do grupo de Temer, Carlos Marun, agora na posição de ministro, usou de tom ameaçador aos governos que não apoiarem a reforma da previdência.

E por que ele pode falar isso?

Simplesmente porque os estados aumentaram suas dívidas em 40 bilhões de reais com Michel Temer.

Os mesmos dados oficiais da planilha do Banco Central demonstram em seu histórico que Temer não cumpriu o que prometeu em sua posse.

E muito pior, ao invés de estancar as dívidas dos estados como os governadores esperavam, Temer deixou a dívida aumentar, recolhendo inclusive o montante que era destinado para obras sociais, para as UBS, para os aposentados que pegavam dinheiro em fármacia e assim por diante.

Esse é o lado trágico dessa ilusão de que tudo está melhor.

Quanto ao desemprego, a conta de quem apoiou a destruição da CLT está aparecendo, e não é nem um pouco devagar, pelo contrário, é muito rápida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mês de novembro registrou 12 mil postos de trabalho com carteira assinada a menos. É interessante as respostas dos ilusionistas.

- "Economistas ficam surpresos"

- "Governo diz que novembro é mês que tradicionalmente tem mais resultados negativos"

- "Governo diz que dados da reforma trabalhista só serão sentidos no ano que vem".

E por aí vai a onda de ilusões. E para tentar consertar o futuro trágico das ilusões, os jornalistas apelam para a "velha soma".

Sim, aí se lembram de somar os resultados durante o ano todo, para rapidamente dizer que : "... mas o saldo do ano é positivo...".

Só para desfazer dessa falsa ilusão, ou mentira dita sobre os dados de novembro, vamos observar os dados entre admitidos e demitidos com carteira assinada.

Quem faz esse levantamento não é o IBGE, mas o CAGED, um cadastro do próprio ministério do trabalho. O site Análise Macro acompanha esses dados, cujo gráfico emprestamos ao lado.

E para desmentir o governo, dizendo que "historicamente" novembro é um mês de demissões, o leitor poderá observar os dados ao lado desde 1999.

Somente ocorreram demissões na crise de 2008 e agora mais recente, de 2015 até 2017. Desde 1999 "sempre" tivemos saldo positivo em novembro (com as exceções que já mencionamos).

Então, o grupo de Temer tenta salvar a ilusão, colocando a palavra "histórico" onde não existe. O problema é a política errada de destruição dos empregos e não dos dados.

Sim, as demissões foram consequências da reforma trabalhista que tanto a mídia e alguns economistas ligados a Temer apoiaram.

Baixamos a planilha oficial do CAGED, diretamente do ministério do trabalho. É muito interessante que para manter o futuro da ilusão, a mídia e o governo falam do saldo das carteiras em novembro, falam que no ano foram positivas, mas .... silenciam com dados de 12 meses.

Por que?

Ao lado está a imagem da planilha do ministério do trabalho. Quando se toma 12 meses somados, o saldo do governo Temer continua trágico. Existe ainda um saldo negativo em 12 meses de 178 mil pessoas demitidas.

Ou seja, quando convém a mídia do governo, ou como quiser ler, a bancada do JN da Rede Globo coloca a comparação no ano de 2017.

Mas não falam nada sobre os 12 meses corridos, de novembro/2016 a novembro/2017.

Claro!

Tem que manter a ilusão, viu?


Os dados sobre vendas em shoppings ficaram em evidência a semana toda.

Em visita a diversos shoppings de São Paulo (pelo menos 5) e outros 4 no interior reparamos em grande movimento de carros. No entanto nesses locais todos, quando olhamos para dentro dos estabelecimentos, o número de funcionários parados sem clientes era enorme.

Apenas três dias antes do natal, apenas estabelecimentos com pequenas lembranças, praça de alimentação e brinquedos estavam lotados. As lojas com mais tradição estavam vazias. Mas os dados da associação dos lojistas de shopping mostrou uma melhora de 5% nas vendas na comparação com o natal/2016. Investigando melhor a associação, essa é uma que participa e apóia a empreitada da reforma da previdência.

Então, algo de estranho nesses dados. E por que foram finalizados para o mês todo, sendo que ainda temos uma semana de negócios?

Assim como essa associação, outras estão tentando ao máximo mostrar a ilusão da melhora. Interessante observar que mesmo antes dos estabelecimentos abrirem, as 9:00 um jornal da Globo News tinha em tarja vermelha os dizeres " movimento é alto na troca de presentes indicando excelente vendas de natal".

Mas as imagens eram de arquivo!!!

Ilusão, ou má fé? Não, isso é apenas uma "ajuda da conversa republicana" que tiveram em segredo.

Quando minha mãe fala que os preços estão subindo e a inflação não está caindo, eu relevo. Uma pessoa de 80 anos que já passou por tudo, não tem como dizer que está errada. Quando minha esposa me diz que os preços no mercado estão mais caros do que no início do ano, uma luz amarela acende em minha mente.

Afinal, é mesmo difícil pessoas leigas entenderem o cálculo da inflação, ou por que uma variável tem mais peso do que outra, ou o que é uma média ponderada e assim por diante. Quando a mídia diz que o chuchu é responsável pelo aumento da inflação, as pessoas não entendem, mas é apenas uma pequena variação que na soma geral pode ter sido desse alimento a pequena variação final.

Mas quando um PhD, doutor na Inglaterra, engenheiro do ITA, médico e professor renomado nos diz que não vê baixa nos preços de supermercado desde o início do ano, uma luz vermelha se acende.

Como em três cidades diferentes, com três visões diferentes, com diversas visitas a dezenas de estabelecimentos nessas três cidades, as pessoas tão diferentes chegam na mesma conclusão?

Estaria os dados da inflação sendo manipulados pelo IBGE? Se lembrarmos, o presidente do instituto foi trocado por Michel Temer. Tudo é possível para se manter a ilusão. Os dados não mentem, mas podem iludir, isso é muito simples.

Já vimos isso na época militar, na época do regime do Sarney nos anos 80 e isso pode sim estar acontecendo. Ao mexer em dados tão sensíveis, muitas áreas são atingidas. Esperamos que isso seja somente uma ilusão de óptica de nossa parte, caso contrário, uma catástrofe poderá ser ainda pior em 2018.

O que nos resta nesse último dia financeiro do ano é ter esperança, mas não ilusão. A ilusão de paz, sucesso e ano melhor depende apenas de nós mesmos, e não do ano.

Eu quero ter a ilusão, caro leitor que me acompanhou nesse ano inteiro, que você seja muito feliz em 2018, que tenha muito sucesso, muita saúde. Mas quero ter a esperança que lute por isso, não fique apenas na ilusão, pois o futuro poderá destrui-la, assim como fará com os desmandos desse governo em 2018.

Feliz 2018 (sem ilusão, mas com esperança) !!