Quinta-feira, 08 de Setembro, 2016

 

Governo camufla dados

Entramos na "era Temer". Entramos também, novamente, na mania perigosa de camuflar dados que desfavoreçam um governo, o que é mau para a confiabilidade. Outros esconderam? Sim e também constituiram em atos deploráveis e repugnantes. Nos recentes 100 dias, a imprensa tem insistentemente divulgado dados positivos sobre tudo.... mas tudo significa apenas sobre mercado financeiro e sempre declarações de integrantes ou simpatizantes do novo governo.

Os dados a seguir foram retirados do site oficial do governo federal, com fechamento e balanço terminados, dados estes que podem ser conferidos no IPEADATA (link: http://www.ipeadata.gov.br). A imprensa tem divulgado dados sobre o otimismo de mercado em relação à Bovespa, ao câmbio, aos juros e a "expectativa do mercado", que absolutamente não significam nada se a economia real não andar junto.

Já escrevemos em nossa análise semanal que, se expectativa de futuro melhor fosse algo real, o gado não iria chorar na hora de seguir em fila de abate para a entrada do frigorífico. Mesmo estando todos juntos, alinhados no mesmo caminho, o gado sabe que seu futuro terminou.

Novamente, expectativa do "mercado" nada diz sobre a realidade do bolso.

O COPOM em sua última ata afirma: "... O Comitê concluiu que, para dadas condições monetárias, condicionar a evolução futura da política monetária a fatores relevantes para a inflação transmite melhora na racionalidade econômica que guia as decisões do Comitê...". Que racionalidade econômica? Quem diz que a economia de mercado é racional?

Tanto assim que uma consultoria de um grande banco absurdamente escreve: "... A ata não mudou nossa percepção de que um corte na Selic em outubro é cada vez mais improvável.... Se, por um lado, a inflação dos alimentos deu sinais de moderação recentemente, por outro lado, outras categorias importantes (como a de serviços) ainda precisam mostrar progresso...".

Mostrar progresso? Mostrar progresso para essas consultorias é mais desemprego, mais salário baixo, menos garantias de emprego, pois eles só valorizam o dinheiro e não a vida real. Para confrontar a posição do governo, da imprensa de modo geral e dessas consultorias vamos ver alguns dados oficiais sobre nossa vida real.

As admissões de funcionários em geral, continuam aprofundando sua queda, caindo mesmo após a posse de Michel Temer. Apesar disso vemos todos os dias o noticiário de que a "indústria está mais otimista". Por que? O gráfico a seguir demonstra que a tendência ainda é de cada vez menos contratações.

Admissões gerais no Brasil - Ipeadata

Com menos admissões, vemos então que o nível geral de emprego cai como um todo no país. O gráfico a seguir é medido em índice geral no nível de emprego, um índice que toma uma data base como sendo (=100) e vai calculando novos valores com base nos antigos valores dessa data. Por isso se chama "número índice".

Nível de emprego - Ipeadata

E por que a indústria está contratando menos?

Por que os gráficos anteriores mostravam queda nesses últimos meses desde o primeiro semestre?

Porque o faturamento está despencando, segundo o IPEADATA. O faturamento da indústria brasileira mostrou uma reação em junho, mas despencou novamente em julho. E com isso, as contratações não avançaram, provocando aumento no desemprego.

Faturamento - Ipeadata

Com a queda no faturamento, o consumo de energia elétrica cai por dois motivos. Primeiro que as pessoas desempregadas vão economizar luz, diminuir sua atividade cultural, desligar equipamentos elétricos desnecessários para baixar a conta mensal. E por outro lado, a própria indústria diminui seu consumo.

Pois com menos dinheiro circulando com as pessoas desempregadas, menos se consome da própria indústria que demitiu e não consegue vender seu produto. Com excesso de produto em estoque, a indústria para de consumir energia, diminuindo o serviço com o aumento de férias coletivas forçadas. O gráfico a seguir demonstra a queda no consumo de energia elétrica.

Consumo de Energia Elétrica - Ipeadata

O estado de São Paulo tem o maior parque industrial do Brasil. É o carro chefe da indústria nacional, sendo o termômetro para algum tipo de reação. E como se pode ver no gráfico a seguir, também em São Paulo o nível de emprego continua em queda, apesar da tal "expectativa otimista do mercado".

Nível de emprego - Ipeadata

Mas interessante, é que mesmo com essa política de juros altos, a inflação não dá sinais de queda. E mesmo assim, essas consultorias de bancos desejam maior aumento da Selic.

Como pode ser visto ao lado, o gráfico do IPCA que mede a inflação, mostra que desde março desse ano a inflação está oscilando dentro de uma banda que varia entre 0,4% e 0,8%.

No entanto, o que se viu nos jornais quando o índice foi divulgado, é que a queda de 0,8% para 0,4% foi comemorada como um sucesso, mas ninguém comenta quando o mesmo índice subiu de 0,4% para quase 0,6%.

Isso mostra que não tem sentido ficar observando número de inflação de curto período. E o comportamento deve ser observado de forma longa, ao longo dos meses.

E quando se faz isso, percebe-se que a inflação está estacionada num patamar alto e mesmo com os maiores juros do planeta, a política está falhando.

Novamente, sendo São Paulo o termômetro da economia nacional, vemos que o preço da Cesta Básica está num rally (figura ao lado). De R$ 450,00 em janeiro, a Cesta Básica está nos absurdos quase R$ 480,00.

Isso compromete muito o salário mínimo, quase 50% do salário das pessoas mais carentes. Como isso pode refletir otimismo para o mundo real?

Claro que não.

E de maneira maldosa, já se comenta que o governo estuda maneiras de retirar da Cesta Básica alguns produtos. Esta é uma maneira rasteira para tentar camuflar dados e mentir para a população.

IPCA - inflação - Ipeadata

Cesta Básica em SP - Ipeadata

Salário real na indústria - Ipeadata

 

Massa Salarial em SP - Ipeadata

 

E para piorar, a indústria ameaça os trabalhadores com planos absurdos de redução de salários. No desespero, claro, quem não aceita? É só olhar a figura ao lado.

A indústria tem seus claros motivos, e também suas razões para tentar manter o quadro de funcionários com salários mais baixos. Isso é compreensível.

O que não é compreensível é que, quando a situação melhorar, dificilmente esses mesmos empresários vão chamar os funcionários para aumentar os salários de maneira real.

É só observar a greve dos bancários dessa semana.

Quem mais teve lucro no país esse ano? Quem mais puxou o Ibovespa pra cima em termos de dividendos? Quem mais faz propagandas em horário comercial e nunca tem crise?

Bancos.

E mesmo assim, os bancos propõem o ridículo aumento de 5% nos salários quando os bancários querem 14,5%. Por que os bancos não seguem o que as suas próprias consultorias dizem?

Se realmente tudo está melhorando, nada mais honesto de pelo menos propor um aumento de 0,5% acima da inflação de 12 meses. Ou seja, por que não oferecer 10% ou 10,5%?

Oferecer 5% é pedir briga e guerra desnecessária.

E novamente ao lado, só em SP podemos observar no gráfico a queda da massa salarial no estado. Vem caindo substancialmente desde o início do ano e continua assim no período de Michel Temer.

Ah sim, mas a bolsa de valores está com seu índice batendo recordes, isso é que importa.

Se as ações sobem, o mercado se recupera?

Depende. Se as ações sobem e as vendas aumentam, os lucros aumentam, o nível de emprego aumenta e os salários se recuperam, a resposta é sim.

Mas se as ações sobem e a vida real não acompanha, pode esquecer, novo crash financeiro aparecerá.

O IMA-Crash diário está aumentando de valor semanalmente de maneira consistente. Ele reflete o quanto as frequências de oscilações dos preços estão ficando mais "nervosas", e como já publicamos em diversos veículos, isso faz o mercado cair. Como o índice está por volta de 0,4 o perigo é de apenas correção. Uma correção forte, mas não assustadora sobre os fechamentos diários.

Mas se o IMA-crahs diário passar de 0,8 nas próximas semanas, estaremos voltando ao mesmo cenário de 2007. Naquela época nossos analistas e economistas pintavam um céu de brigadeiro para o Brasil. Assim como nos dias atuais, onde as consultorias estão prevendo recuperação em 2017, com PIB aumentando e tudo voltando ao normal. Mas com IMA acima de 0,8 isso não acontecerá.

Devemos investir de maneira segura e não entrar no "oba-oba" das consultorias. A visão de todas é olhar para seu próprio produto, ou seja, seu retorno das ações que escolheu aplicar muito dinheiro. Então, se uma consultoria tem dinheiro nas ações X, Y e Z, para elas o cenários de X, Y e Z serão melhores.

Quando essa consultoria vende e sai dessas ações, com certeza vai recomendar venda sob diversas desculpas. Algumas até reais e verdadeiras, mas quase sempre outras sem sentido, apenas para justificar seu movimento.

Quem não cansou de ler na internet diveros sites pregando a falência da Petrobras! Mas agora, os mesmos sites recomendam comprar. Claro, eles compraram essas ações e precisam de você, leitor, para fazê-las subir e cumprir sua profecia.

Então, não compre otimismo, mas venda sua honestidade. Ela é seu maior lucro e seu maior retorno positivo para a vida!

 

 

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