Segunda-feira, 8 de Janeiro, 2018

 

Governos sempre mentem

 

O grande cientista Carl Sagan foi conselheiro científico de diversos políticos nos EUA. Foi e ainda é uma referência como pessoa, como cientista, como crítico dos erros que são publicados como "verdades inquestionáveis". Suas palestras eram inesquecíveis, onde ele sempre abria para a platéia debates sobre temas complicados, como a não existência de Deus, a não existência de vida após a morte, a influência das religiões sobre a população, existência de vida extraterrestre e por aí afora.

Carl Sagan (1934 - 1996)

Numa de suas palestras, uma pessoa perguntou:

Professor, eu gostaria de um conselho. O senhor acha que uma pessoa pode fazer alguma coisa para mudar a situação do mundo, ou devemos apenas nos conformar e aceitá-la?

Carl Sagan respondeu:

Não, você não tem que se conformar. Acho que, se deixarmos por conta dos governos, continuaremos na mesma direção desorientada pela qual estamos seguindo há anos. Acho que o primordial, numa democracia, onde existe pelo menos certa pretensão de que o povo controle as políticas de governo, é que todos os processos democráticos sejam utilizados.

É preciso assegurar que as pessoas em quem se vota tenham ideias racionais sobre essas questões.(...) mais importante do que qualquer coisa, creio eu, é que cada um de nós se equipe com um "kit de detecção de balelas".

Ou seja, os governos gostam de dizer que tudo está ótimo, que eles têm tudo sob controle e que os deixemos em paz. (...) eu diria que a primeira coisa a fazer é se conscientizar de que os governos, todos os governos, pelo menos de vez em quando, mentem. E alguns deles mentem o tempo todo .... os governos distorcem os fatos com o objetivo de permanecer no poder...

Esse e outros maravilhosos debates estão no livro "Variedades da Experiência Científica - Uma visão pessoal da busca por Deus" da editora Companhia das Letras.

Por exemplo, na segunda guerra mundial, Franklin Roosevelt mentiu para os cidadãos americanos. Sabendo que os americanos estavam contra a ideia de entrar na guerra, Roosevelt foi tecendo o caminho através de diversos discursos falando sobre a "garantia da liberdade", "a garantia da verdade", etc. No seu segundo mandato, a pedido pessoal do primeiro ministro do Reino Unido Chuchill, Roosevelt passou uma lei despercebida sobre o envio da armas e munições livremente para "tropas em outras localidades".

Antes, claro, ele havia enviado alguns homens para ilhas próximas da Europa e alguns até mesmo no Reino Unido. Ao passar a lei, ele estava enviando armas e munições para o exército americano. Estava perfeitamente dentro da lei que ele próprio criara. Mas na realidade, enquanto o exército americano tinha algumas centenas de homens, as armas e municções eram para mais de um milhão de homens, obviamente, a força real britânica.

Teorias da conspiração até afirmam que, propositadamente, Roosevelt sabia do ataque japonês a Pearl Harbor e deixou acontecer, sem alertar a base. Isso facilitaria a entrada dos EUA na segunda guerra mundial, agraciando seu amigo Churchill com apoio militar tão desejado.

Mas óbvio que Roosevelt não fez isso por amizade, ou amor a democracia. Em troca, vendo o desespero do Reino Unido, Roosevelt pediu concessões de diversas ilhas do Caribe, Groelandia e outras no pacífico por mais de um século. Todas eram do Reino Unido, que imediatamente cedeu as concessões em troca do armamento e apoio militar.

E como nessas ilhas havia muito minério, muito material a ser extraído para os amigos empresários de Roosevelt, além de posição estratégica, os EUA tornaram-se a potência mundial de hoje.

O caso brasileiro é mais perverso. As mentiras, ou ainda melhor dizendo, a ""escolha da verdade a ser dita", prejudica a população do próprio país e não de outra nação, não de nações em guerra.

 

Um exemplo clássico atual é sobre a inflação. Todas as pessoas, de diversos níveis e camadas sociais, percebem que os preços não estão caindo.

No entanto, a inflação oficial é próxima de zero. Ao visitar o site do IBGE, percebemos que diversas medidas de parâmetros estão dando uma inflação muito maior do que se afirma.

O gráfico ao lado é produção do IBGE que está em seu site. Por exemplo, a inflação de novembro para a habitação foi de mais de 1,2%.

As despesas pessoais aumentaram 0,5%, os transportes também quase 0,6%.

De todos os ítens pesquisados pelo IBGE, apenas alimentação e artigos de residência tiveram deflação (inflação negativa), como pode ser visto no gráfico ao lado.

É por isso que todos estamos sentindo aumento de preços e não queda como os economistas que apóiam Temer dizem.

No mesmo site, quando se abrem as tabelas de todos os dados, é possível verificar que apenas 5 capitais tiveram quedas na inflação.

Em São Paulo a inflação em novembro foi de 0,58%. Em Goiania foi de quase 1%, em Porto Alegre de 0,55%.

O aumento que todos sentem é real e está na base de dados do governo. As tabelas refletem o que a população sente, mas o índice geral não.

Por que?

 

 

Fonte: IBGE

 

Fonte: IBGE

 

 

Fonte: IBGE

 

 

 

Quando se busca a metodologia do cálculo da inflação pelo IBGE, descobrimos que existe um fator super importante para o cálculo dos pesos nas variáveis.

O IBGE chama esse fator de POF. Essa sigla significa Pesquisa de Orçamento Familiar. Esse fator eleva ou diminui o peso da variável medida, conforme o consumo das famílias.

Isso faz sentido e está correto.

Mas a surpresa (não tão surpresa assim) é que esse fator é de ... 2008 ! Sim, o consumo familiar usado pelo IBGE ainda é da época onde o Brasil crescia muito, consumia muito, com PIB acima de 5%.

Por exemplo, no gráfico ao lado, o peso utilizado pelo IBGE para os alimentos, leva em conta que famílias com até 2 salários mínimos comem 18 kg de carne por mês!

Isso não acontece mais.

Ou será que alguém acredita que uma família com renda de R$ 1.800,00 tem condições de comprar por volta de 5 kg de carne todas as semanas?

No fator leguminosas o IBGE está levando em conta que uma família com renda até 2 salários mínimos consome 32 kg num mês?

É óbvio que isso é irreal.

Para quem desejar conferir, aqui está a explicação do POF indicando que estão usando dados de 2008-2009, no link POF-IBGE.


E por que isso faz diferença?

Porque se o leitor olhar com calma o primeiro gráfico do IBGE que apresentamos acima, o fator que mais caiu na coleta de dados foi o ítem "alimentação". Como esse ítem caiu forte pois as compras da população diminuíram, multiplicado por um consumo alto (fictício) faz o índice de inflação despencar.

Por exemplo, se a queda média dos preços foi de 0,5% e o consumo de um fator é 30 temos um peso nessa queda de 0,005 x 30 = 0,15. Mas se o consumo do fator é de 3 teremos 0,005 x 3 = 0,015. Ou seja, um dado errado em kg de consumo familar pode fazer a queda variar 1.000%. Ou seja, existe um grande dimensionamento de queda que não reflete a realidade porque o consumo não é o mesmo de 10 anos atrás.

Mas o IBGE não sabe disso?

Claro que sabe, os estatísticos do IBGE são muito bem gabaritados, muitos com doutoramento em estatística nas melhores universidades. Isso não é um erro, é uma mentira de governo. É uma diretriz traçada pelo governante, imposta pelo diretor do instituto que deve ser seguida pelos estatísticos.

Uma outra desculpa é a "falta de dinheiro" para se fazer uma nova pesquisa domiciliar. Alguns milhões seriam necessários, mas muito menos do que os 20 bilhões de reais usador por Temer e sua tropa. Ninguém do governo fala de falta de dinheiro para Michel Temer comprar votos contra a abertura de inquérito no STF. Pelo contrário, Marun afirma que usar dinheiro público para comprar governadores é "republicano".

Logo, como Carl Sagan diz, todos os governos mentem.

No Brasil, em particular, os governos mentem não apenas para se perpeturarem no poder, mas para perpetuar a propina, perpetuar a sacanagem, perpetuar o escracho na população. Como Carl Sagan também afirmou, não temos que ficar calados e aceitar isso.

Devemos ir à batalha!