Terça-feira, 7 de Julho, 2015

 

Grécia não deixará Eurozona

Foi um "Não" histórico e que vai entrar para a história, como o dia em que um país enfrentou os credores. Assim como a queda do muro de Berlin, o plebiscito grego sobre, aceitar ou não os termos impostos pelos credores, ficará marcado nos livros de história. As pessoas ainda não perceberam isso, as mudanças e percepções são lentas e passam como um filme em camêra lenta. No dia da queda do muro de Berlin, todo mundo sabia que era histórico, mas o dia estava em câmera lenta, ninguém acreditando nas cenas mostradas na televisão.

No resumo de fim de ano, as famosas retrospectivas, deixaram todos muito ligados e situados em relação ao muro de Berlin: o dia da queda foi um dia para se contar aos netos. Olhando as cenas hoje parecem tão longe, com imagens ainda com ruidos dos tempos do VHS, que mesmo em livros soa quase como pré-histórico. Mas quem vivenciou esse fato, percebe que fez parte da história.

A filosofia grega voltou aos tempos de Socrátes, Aristóteles e Platão e começou a questionar os atos vulgares dos credores europeus. A filosofia grega começou a se deparar e questionar por que deveriam seguir uma cartilha de terror imposta pelos bancos e governos da Europa? Claro que aqueles fãs dos credores e das frases "quem deve tem que pagar", se esquecem que a agiotagem é crime em todo lugar do mundo. Não é porque os agiotas agora são mais sofisticados, com paletós de marca, com limousines em desfile de pompa junto com governantes sanguessugas, que as regras são mais "bonitas" e "respeitosas".

Quando a Grécia caiu em 2008, o mundo europeu todo resolveu "resgatar" os bancos gregos. Todo mundo resolveu ajudar os gregos, uma forma de "amizade" entre os países da Europa. Mas que amigo é esse, que sistema é esse que 7 anos depois do empréstimo, faz com que a dívida grega cresça a mais de 70%? Um país com apenas 11 milhões de habitantes tem gordura para queimar e pagar tanto juros?

O gráfico acima mostra como a dívida da Grécia estava estacionada até 2008 e depois, com a ajuda da União Européia, quase dobrou. Esses dados são oficiais, do FMI. O país mergulhou num caos econômico ainda pior do que a crise financeira de 2008. Os mesmos que criaram a crise, tais como Goldman Sachs, J.P. Morgan, Merril Lycnh, Credit Suisse, entre tantos outros já conhecidos de todos, tomaram o dinheiro dos tesouros de seus países e não investiram em crédito para gerar emprego como foi prometido. Eles compraram e especularam com os títulos das dívidas de todos os países do mundo, inclusive do Brasil. E ainda o fazem.

Especularam e fizeram os juros dispararem, brincando com metodologia juvenil sem regras para, no caso grego, forçar cada vez mais a dívida aumentar para gerar mais dinheiro em cima dos títulos. O mercado dos títulos das dívidas dos países foi bastante promissor e ajudou muito aos abutres de 2008, que ainda estão soltos pelo mundo vestindo terno e gravata.

O que os credores conseguiram? O gráfico ao lado mostra o nível de emprego entre os gregos.

Até 2010 quando os juros ainda não estavam sendo pagos, o nível de emprego se sustentou entre os gregos.

Mas com os pagamentos, o nível de emprego despencou, causando um caos e revolta social que culminou nessa semana no plebiscito.

Em 2012 já era visível que o país estava em queda, e não teria como cumprir com os pagamentos impostos pelos credores "amigos".

E mesmo assim, a União Européia não mudou uma vírgula dos acordos anteriores. Mas, e as reuniões? Deve o leitor estar pensando.

O antigo primeiro ministro grego era muito fraco, e apesar de dizer que os acordos estavam em andamento para salvar a Grécia, na realidade os acordos estavam salvando os bancos europeus.

Taxa de inflação? Não, a crise na Grécia está tão alastrada que dia após dia as pessoas vendem seus produtos com preço mais baixo, na tentativa de vender e ter dinheiro em caixa.

O gráfico ao lado mostra a deflação vivida pela população grega. Hoje a deflação esta por volta de 3% na Grécia, ocasionando uma paralisia total do comércio.

As pessoas apenas estão gastando para se alimentar, mas negócios mais rentáveis como o turismo, praticamente estão estagnados.

Para quem ainda duvida sobre o que fizeram os bancos da União Européia, o gráfico à seguir mostra bem a atitude dos "amigos".

 

Pessoas empregadas na Grécia

 

 

taxa de inflação na Grécia

 

Juros dos títulos de 10 anos da Grécia

Depois da crise finaneira de 2008, a Grécia teve uma carência de dois anos para começar a pagar seus empréstimos. E quando começou a pagar, os investimentos no país, por parte do governo, terminaram e mais nada foi construído ou ampliado tanto no setor de serviços como industrial. Os salários dos servidores públicos sempre foram um problema na Grécia, assim como no Brasil.

O mesmo acontece com a rede de saúde e de aposentadoria, com muitos aposentados e pouco dinheiro para dividir. Onde está o dinheiro desse contribuinte? Assim como no Brasil, governos anteriores roubaram, desviaram em obras fantasmas e o pior, a Olimpíada.

Sim, a Olimpíada da Grécia deu um prejízo enorme, assim como a Copa do Mundo da FIFA no Brasil, e assim como a Olímpiada do Rio de Janeiro vai dar. Teremos anos amargos pagando essa conta de querer aparecer sem esporte e educação decente para o resto do mundo.

É uma vergonha um país como o nosso, e mesmo como a Grécia, com alguns destaques, sediar uma competição tão cara e com retorno tão pequeno para o povo.

E o gráfico ao lado resume que, quando começou a pagar, o governo grego percebeu que não teria caixa para isso em 2012. Então o mercado de títulos disparou, cobrando juros cada vez mais altos para a dívida grega.

Mas espera aí! Isso não estava no contrato do empréstimo. É que os títulos oficiais tinham taxa fixa, mas eles são renegociáveis no mercado financeiro, passando de mão em mão, até chegar aos fundos aburtres que detonam com qualquer país.

Então, em 2012, depois dos tumultos nas ruas de Atenas, a União Européia voltou e emprestou mais dinheiro à Grécia. Isso acalmou os abutres e a taxa de juros voltou ao normal até no fim do ano passado.

Pode-se perceber no gráfico anterior, que a partir de 2014 tudo voltou a estaca zero, com os burburinhos sobre a Grécia novamente. Como mudou de governo, o novo primeiro ministro assumiu com uma proposta totalmente diferente e radical. Não pagar mais juros altos e não expor mais a população a sofrimentos que só beneficiam os credores.

Mas se isso acontece, por que então a Grécia não vai sair da zona do Euro? Medo!

Sim, medo, mas não dos gregos e sim dos europeus, tais como França e Alemanha. Vamos imaginar que a Grécia saia da zona do Euro, emita sua própria moeda novamente com lastro que talvez não valha nada, mas a moeda existirá. E se, por obra dos deuses, o plano grego dá certo? Se os gregos não pagarem mais vencimento nenhum, tal como fizeram com o FMI na semana passada, sobrará dinheiro em caixa. Pouco, é verdade, mas sobrará para tocar o país.

Se deu certo isso com Cuba, por que não daria com Grécia? Cuba era fechada, Cuba não tinha turismo, Cuba era proibida de comprar e vender qualquer coisa no mundo. E resistiu por quase 70 anos ao bloqueio dos EUA. A Grécia pode muito bem a ser uma "Cuba moderna" dentro do coração da Europa.

Podemos pensar, e daí? Um país pequeno que dá certo, o que a Europa tem a perder.

Os donos da zona do Euro tem medo da "contaminação". Portugal está com problemas como a Grécia. Espanha tem problemas ainda piores do que a Grécia. E Italia, bom, Itália é Brasil. A Itália tem problema financeiro, tem problema de corrupção, tem problema de inflação, tem problema com desemprego. O que aconteceria ao Euro, se Portugal, Espanha e Itália seguissem as ideias revolucionários do "Não " grego?

A moeda se desmorona e França e Alemanha acabam se desmantelando numa crise sem precedentes. É por essas e outras que a "turma do deixa pra lá", voltou a cena. E mesmo a Grécia não aceitando os termos dos credores, a Itália já ofereceu dinheiro. A Russia também ofereceu dinheiro à Grécia.

Agora até mesmo as irredutíveis França e Alemanha já falam que a Europa sem a Grécia não é Europa. Já começaram a colocar panos quentes e dizer que vão esperar uma contra proposta grega. Mas na sexta-feira passada, quando o "Sim" parecia ganhar, o discurso era outro, ameaçando o primeiro ministro grego.

Excelente essa fase em que vivemos. A história é sempre recontada, e os personagens parecem que são os mesmos. Os heróis das batalhas gregas parece que voltaram, não com espadas, mas com palavras de ordem e voto. Sim, um voto "Não" derrubou França e Alemanha, donos de si, e agora donos de ninguém. Teremos dias interessantes, por que agora, quem está com as cartas é a filosofia grega, apoiada pelos deuses do Olimpo.

 

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