Sexta-feira, 08 de Julho, 2011

 

Grupos Isomorfos

A que grupo de amigos você pertence? O grupo das "baladas", o grupo do futebol, o grupo de estudos ou o grupo dos investidores. E por que não a todos esses grupos mencionados ao mesmo tempo? Na verdade você não está em nenhum desses, então corra, abra uma conta no facebook, no twitter, no orkut e viva desses grupos. Não, isso é só uma provocação para você não fazer nada disso e viver a vida real intensamente. As redes sociais estão provocando uma síndrome e vícios entre os jovens, mas não somente a eles. Todos que abrem conta e não se policiam durante o dia, acabam por tornar a internet um vício do qual você vive prisioneiro. Bate aquele sentimento de "estou perdendo o mundo, qual será a notícia agora, o que as pessoas estão fazendo?". Sim o nome dessa síndrome é FOMO ou "Fear of Missing Out" (em português seria medo de perder).

Os quatro links a seguir dão a clareza de que esses grupos sociais mais do que beneficiar, estão prejudicando internautas ou mesmo apenas aqueles que adoram seus celulares: FOMO-1, FOMO-2, FOMO-3, FOMO-4. Quem já não frequentou uma reunião importante onde sempre tem alguém mexendo num celular, ou "twittando" escondido com as maõs debaixo da mesa, ou falando baixinho mesmo quando o palestrante fala ou existe discussões importantes. Isso não é rede social, é falta de educação.

Em bolsa de valores o sentido não é diferente. Com os terminais interligados e links de alta frequência para os robôs operadores de mercado, tudo perde o sentido. Uma notícia que seria apenas mais uma, se tranforma em exaltação ou pânico. O pobre matemático Galois ( ver "Se as borboletas falassem...") nem imaginaria que sua teoria de grupos estaria tão envolvida na modernidade para estudos de comportamento. O sentido de simetria criado e cunhado por Galois descreve comportamento de padrões de operações de eventos que parecem não ter relação nenhuma, mas tem.

Pegue uma calça jeans e você perceberá que existem quatro operações possíveis:

1-Virar a calça de trás para a frente.

2-Virar a calça pelo avesso.

3-Virar a calça de trás para a frente e pelo avesso.

4-E deixar a calça como está.

As quatro operações acima quando combinadas de diversas maneiras acabarão mostrando um padrão de operações que vão se repetir. Ou seja, é possível criar uma tabela pequena e finita de tudo que pode acontecer com essas operações fechando todas as possibilidades. Foi isso que Galois chamou de grupo. E quando você pega um tijolo sob o ponto de vista de rotações, você terá novamente quatro operações possíveis de rotação. E essa tabela das operações que você pode fazer com esse tijolo é idêntica ao que você pode fazer com sua calça jeans. Isso se chama Isomorfismo.

A matemática explica que um grupo é isomorfo a outro se as propriedades da formação dos grupos são as mesmas. Assim, operações que sempre se repetem em grupos que parecem não terem ligação alguma, podem criar padrões ou tabelas que ligam esses grupos por meio da simetria e do isomorfismo.

DAX - Alemanha - 8-Julho-2011

 

 

FTSE - Inglaterra - 8-Julho-2011

Vamos olhar para o que aconteceu hoje com o índice da bolsa de valores da Alemanha (DAX). Vinha oscilando positivamente e de repente uma enorme mudança abrupta ocorreu (e que mudança abrupta sem trocadilhos!). Foi exatamente o horário em que saiu o relatório de desempregos americanos, aumentando a taxa de 9,1% para 9,2%. Novidade para tanto pasmo? Não, nós mesmo já comentamos aqui, por exemplo em 28 de Fevereiro de 2010 que o desemprego não vai parar para os americanos ("Um olhar para o desemprego").

Em abril de 2010 mostramos que os bancos americanos vêm sendo fechados a uma taxa comparável apenas à crise de 1929 e ninguém comenta sobre isso. E ainda hoje continuam sendo fechados a toda semana ("Bancos não param de falir nos EUA").

Em agosto de 2010 escrevemos sobre a recessão que está chegando e é melhor acostumarmos com ela do que tentar evitar. Tentar evitar recessão é pior do que sobreviver a ela ("E a recessão está chegando"). Quem causa esse pânico são as falsas análises baseadas apenas em dados e nada em teoria. Elas apontam ao investidor desinformado cenários que mudam de hora para hora. É uma falsa análise e como já escrevemos tem outro nome: "fofoca". E com análises só baseadas em dados sempre erram, e por isso criam esse sentimento de pânico (veja "Estratégias de Ícaro").

É só lembrar da recomendação de compra das ações da Petrobras que foram veiculadas na mídia o tempo todo no ano passado. Diversos analistas apareceram dizendo ao pequeno investidor que seria um ótimo investimento a longo prazo. Esse termo "longo prazo" é que dá credibilidade ao analista, pois se passarem 20 anos para dar lucro ele terá acertado. Aliás, quem comprou as ações que na época valiam R$30,00 e hoje valem R$23,00 devem entender bem o que está sendo dito aqui. Só para lembrar, depois que a capitalização foi feita, todos os analistas mudaram de campo e começaram a dizer que o negócio não era tão bom assim, como comentamos em Outubro de 2010 (leia "Capitalização da Petro:Formigueiro sem rainha").

E mesmo assim, apesar da situação estar muito clara, o que aconteceu com as bolsas quando apenas um relatório de desemprego foi divulgado? Mudanças abruptas. Ao lado, tem o gráfico da bolsa da Inglaterra no mesmo momento. E no gráfico abaixo o que aconteceu na França com o índice CAC.

 

Efeito "manada"? Pode ser, mas o movimento está mais para a síndrome das redes sociais mencionadas acima "FOMO" e para seus efeitos de grupo. Não importa a característica do país, do investidor, da educação ou do conhecimento. Se uma notícia é liberada e um primeiro grande fundo com trilhão de dólares resolve que não é boa, todos repetem o mesmo padrão de operação. Se esquecem que trilhão de dólares não é todo o mercado. Com certeza o peso desse fundo é muito significativo, mas ele não é o mercado.

Por que então não analisar o que acontece para tomar decisão? Porque todos estão com a síndrome da alta conectividade FOMO.

CAC - França - 8-Julho-2011

Todos estão seguindo tendências e já mostramos em texto, um trabalho cientificamente publicado (veja " Não siga tendências") por Jean Philippe Bouchand com mais de 5 mil dias de observação, que seguir tendências causa prejuízos. Então, antes de você ouvir e agir, siga suas análises racionais e não o efeito FOMO, grupo ou manada. Esse desespero de informação on-line mais prejudica do que ajuda, pois na pressão das emoções muitas coisas erradas são feitas.

A situação está difícil e a crise não acabou como já salientamos aqui inúmeras vezes. Então não é porque um relatório vem abaixo que deve vender, ou se vem acima deve ir na onda da compra. Quem vive na onda é surfista, não investidor sério. A análise de longo período indica que devemos ter cautela e esperar para as quedas maiores que virão. E aí sim, entrar com consciência, comprando empresas sérias e não ligar para relatórios, tendências ou emoções "twittanas". O twitter é uma grande ferramenta, mas para quem deseja acompanhar notícias on-line como mais uma variável do seu modelo de pensamento. O twitter não deve ser usado para o contrário, ou seja, sua cabeça não é o twitter, ele é apenas mais um dado do grupo. Evitar ser isomorfo ao grupo dos catrastofistas é fazer parte do grupo isomorfo da felicidade.