Quarta-feira, 24 de Novembro, 2010

 

 

Guerra dos mundos

 

Desde o início dos tempos existe guerra entre os seres vivos. A diferença entre os animais em geral e o homem, é que o homem é o único que mata com o propósito de destruir e as vezes apenas por prazer sórdido. A história já nos mostrou ascensão e quedas de grandes impérios tais como gregos, troianos, romanos, portugueses, espanhóis, ingleses e estamos na era dos americanos. Claro que em nossa era moderna a Rússia (ex- URSS) dividiu esse trono, mas com as diversas crises especulativas e gastos além do seu poder, desceu do trono mas continua com um pé no estofado.

Muito se falou nesses dias sobre o conflito entre Coréia do Sul e Coréia do Norte depois dos incidentes na divisa marítima entre os dois países. Quem tem culpa ou deixa de ter culpa não vem muito ao caso, pois aquela é uma região de conflitos eternos. O que se sabe é que a Coréia do Sul resolveu "brincar" de tiro ao alvo na divisa entre os dois países. Será que por lá o oceano é tão pequeno? Por que não treinar na parte sul da ilha, longe do inimigo?

O fato é que, como estamos sempre mostrando no site, temos que olhar sempre para algo mais além dos fatos. O que se sabe é que os armamentos tem vida útil finita, com algo em torno de 10 anos. Além desse período o combustível começa a perder seu poder de destruição. Então, para justificar o investimento, a empresa que nesse caso é o próprio Estado, deve fazer suas aplicações e mostrar à população que o investimento foi útil. O retorno desse conflito da semana é que o governo da Coréia do Sul já vai importar mais baterias anti-aéreas dos EUA. E os EUA estão bem contentes pois com esse conflito, mais as notícias de socorro da Irlanda e Portugal, o dólar subiu nessas últimas semanas como pode ser visto no gráfico a seguir.

Essa recuperação do dólar deu um fôlego enorme ao presidente do FED e a Barack Obama que vinham recebendo todos os dias severas críticas contra a atitude de imprimir dólar sem lastro. Nas próximas entrevistas o presidente do banco central americano vai poder dizer que a economia do país está se recuperando e que o dólar está recuperando seu poder de compra. E vai poder afirmar (errôneamente) que o FED e os EUA estão no caminho certo.

O fato é que sempre ocorrerão conflitos entre as Coréias pois, países com histórico de batalhas ou espionagem, vivem num ponto matemático conhecido como "nó de instalbilidade". Modelos matemáticos para simular guerras, investimentos em armamentos e conflitos existem há muito tempo. Por exemplo, o mais básico de todos corresponde a duas equações conhecidas como equações diferenciais. As equações representam uma regra para a mudança da taxa de investimento bélico e são da seguinte forma:

Se adotarmos que x é os EUA e y é a Rússia, o que essa dupla de equações nos diz é como será o futuro de investimento bélico desses dois países. O lado esquedo diz que se deseja saber qual a taxa de investimento bélico amanhã nos EUA (x). O lado direito diz que esse investimento vai decrescer se houver paz (por isso sinal negativo em "a") e vai aumentar se a Rússia aumentar o investimento dela. Para a equação da Rússia (y) a equação nos conta que o investimento futuro da Rússia vai aumentar se os EUA aumentar seu poderio. E diz que a Rússia vai diminuir os investimentos dependendo de seu próprio capital "y" ou se houver paz. Existem outras configurações mais complexas e com mais equações, mas todas estão buscando estudar qual o ponto de estabilidade e qual a relação entre os países.

Na internet existe um site interessante que se chama SIPRI-Military Expenditure Database que armazena dados de todos os países do mundo na área militar. Respondendo algumas questões pessoais que eles fazem é possível baixar os dados em Excel de todos os países do mundo (quase todos pois a Coréia no Norte não libera). Estudamos então como seria o comportamento atual entre EUAxRússia e o resultado está na figura a seguir.

 

Dados reais e simulação dos investimentos em armamentos dos EUA e da Rússia

 

Com os dados reais é possível ajustar o modelo usando técnicas específicas de Estatística e conseguir simular o futuro dessa relação internacional. Apesar das oscilações nos valores dos dados reais, é possível notar que mesmo esse simples modelo consegue "imitar" um comportamento que se situa entre os dados, o que é interessante. Com os quatro parâmetros encontrados é possível estudar como está a relação entre EUAxRússia. Apesar dos EUA e Rússia diminuirem os investimentos bélicos em relação ao PIB, o modelo mostra que o ponto de total paz (que é a origem desse sistema (0,0) ) é instável. Isso significa dizer que basta um dos dois países entrar em posição que não agrade o outro para as relações entre eles piorarem.

O gráfico a seguir mostra o conhecido "plano de fase" que apresenta na abscissa os dados da simulação dos investimentos dos EUA e no eixo das ordenadas da Rússia. Essa curva mostra o interessante comportamento do desvio da paz entre 2006 e 2007 chegando a 2008 com aumento do poderio bélico americano e momentânea redução russa. É apenas momentânea, pois como dissemos ao perceber que está ficando desigual a relação, os russos vão voltar a investir. Então os dois países vão se distanciar do ponto (0,0) e se acusarem de alguma coisa no futuro. O ciclo de paz nas provocações entre os dois países está no fim (por esse modelo simples, que não representa a realidade).

 

Simulação dos investimentos em armamentos (Eixo das abcissas-EUA, Eixo das ordenadas Rússia)

 

Muitos vão dizer, "puxa ainda bem que somos um país de paz". Será? Segundo o site Global Fire Power que faz estatísticas de investimentos em todo o globo e cria um ranking, o Brasil é o oitavo país mais bélico em termos de investimentos em moeda corrente e PIB. Claro que nossos investimentos são pequenos perto de outros países como India e Rússia, além dos EUA. Mas deixamos muitos outros países para traz, tal como o Japão. A relação completa pode ser encontrada no site.

Ranking dos países que mais investem em poderio bélico (% do PIB)

O que se deve notar então é que a relação entre Coréia do Sul e do Norte vai continuar tensa para sempre, as relações entre EUAxRússia também. A paz só acontecerá se os dois países deixarem de serem "focos" de importância no mundo tais como os gregos, romanos, etc.

Então argumentar que as bolsas devem cair e muito por causa desse conflito, é desviar do verdadeiro fato. A crise econômica, e essa sim é a causa dos conflitos, é que está fazendo as bolsas caírem. Os mísseis disparados fazem parte da atualização dos dois países nos termos da nossa equação acima "a", "b", "c" e "d" que descrevem o "envelhecimento" do poderio militar. Eles tem que manter o "status" alto e isso nada deveria influenciar as bolsas de valores. Mas como existe uma coisa conhecida como "índice futuro", os grandes especuladores já estavam posicionados como "vendido". Assim, a bolsa precisava cair.

Repetindo a estória da "Guerra dos Mundos", esse negócio de conflito e bolsas de valores só vão terminar quando alienígenas descerem na Terra. Mas como os primeiros alienígenas a serem encontrados em Marte devem ser bactérias, teremos um longo tempo de discussão sobre essa relação.