Sábado, 24 de Março, 2018

 

Guerra tarifária entre EUA e China

-Tudo isso ocorre por causa dos imperialistas americanos. Eles nos dominam e destroem o mundo, corrompem as pessoas, todos deveriam acordar e ficar contra eles!

Era engraçado esse colega do ensino secundário (hoje ensino médio). O nome dele era Willian, por sinal, um nome americano (?!?). Sempre com barba rala por fazer, cabelo que parecia não ver shampoo e usando camisetas com temas ecológicos ou do Che Guevara. Naqueles dias, não era como hoje. Levámos isso na esportiva, brincávamos com ele, ouvíamos com respeito seus argumentos, mas batíamos nas costas dele e dizíamos para jogar bola.

O mais interessante é que apesar de ser contra os "imperialistas" ou contra o capitalismo, esse meu colega trabalhava como estagiário do Banco do Brasil, usando um uniforme azul que mais parecia de guarda penitenciário. Mas o salário era muito bom, ótimo para quem tinha 15 anos de idade. Ou seja, ele tinha um emprego bem capitalista.

O coitado nunca foi levado a sério, mas não tínhamos esse radicalismo imbecil de um chamar o outro de "esquerdopata" ou de "facistinha", ou de "mortadela", ou ainda de "coxinha". Como os tempos mudaram... pra pior!

Olhando para trás, nunca mais vi esse colega. Mas se um dia eu o encontrasse, iria pedir desculpas pelas nossas brincadeiras. Parece que extraindo seus exageros, realmente ele tinha razão. A natureza está toda sendo destruída em função do petróleo, seja no oceano, seja na Amazônia. Já falam até em vender o sagrado Aquífero Guarani para exploração de grupos estrangeiros!

Como explorar algo que não conhecemos. Os cientistas ainda não sabem como se formou o aquívero, como a água alimenta esse imenso oceano submerso do Brasil. Seria água da chuva? Existe uma produção própria subterrânea? De onde brota tanta água a ponto de ficar submersa com excelente qualidade?

Por que será que Michel Temer participou do fórum mundial da água nessa semana? Só por que tem "apreço" e "estima" pelo tema? Claro que não, grandes empresas se reuniram com ele e novas privatizações do setor público virão a galope. De novo, muitos vão dizer que privatizar tudo é a solução, pois as empresas gerenciam melhor do que o setor público.

Então o que dizer da mineradora que destruiu água, comida, plantações no Pará? Ela é da Noruega, país considerado o número um em ecologia. E o que dizer da Samarco, que é da Vale do Rio Doce e até hoje não reconstruíram o vilarejo em Mariana- MG.? Ou ainda da empresa do PPP de São Paulo para monitorar e investir na iluminação pública da cidade, que nessa semana foi acusada de propina para uma diretora indicada pelo prefeito João Dória?

São algumas questões que vem ao caso, mas que não vale à pena se estender, pois são centenas de exemplos que privatizar não pode ser símbolo para se livrar.

E quando se fala sobre armações entre governos e empresas privadas, sempre ocorre a famosa descaracterização do tema, onde tudo é colocado no balaio de "teoria da conspiração". Na realidade, nos dias atuais, estão aparecendo fatos comprovando que aquele meu colega de 15 anos não era apenas um teórico das conspirações, mas um ótimo observador dos fatos.

Sabe-se hoje com certeza absoluta que existiu uma operação chamada de "Condor" para destruir democracias na América do Sul. E foi sim criada e financiada pelos EUA. Sabe-se comprovadamente que o golpe militar de 64 foi promovido pelos americanos, com ínumeros telegramas sobre a conversa entre o embaixador americano no Rio e o presidente dos EUA. Para eles, os militares seriam melhores para os negócios das empresas.

Essa foto à seguir é de John Perkins, que se intitula Economic Hitman, ou em português, Assassino Econômico.

John Perkins - Economic Hitman

Não vamos descrever aqui o que ele fala sobre o mundo entre os anos de 1950 e 2000. O leitor que desejar checar essa informação, vai se surpreender com a história, os detalhes e os números que ele apresenta. Esse vídeo do youtube é parte de um programa maior, mas só esse trecho já é estarrecedor. Seu primeiro livro ganhou diversos prêmios e o segundo lançado quatro anos atrás novamente ficou na lista dos mais vendidos no mundo.

Tudo o que tínhamos de ideia sobre teoria da conspiração pronunciada por malucos, vai por terra com as confissões de John Perkins. Sua fala nos faz meditar sobre os atuais desgastes sofridos pelo Brasil e ao redor do mundo. Não é a CIA, não é um presidente quem manda, não são os políticos, segundo Perkins, é um pool de empresas bem conhecidas por nós, aqui no Brasil e no mundo.

Por que ele teria mudado de lado e virado crítico?

Segundo ele, descobriu fatos no atentado das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, os quais ele próprio e seus amigos faziam da mesma forma em outros países. Foi um basta na vida de Perkins, onde em sua mente o que ele fazia era correto para lucrar com a desgraça dos outros. Mas não é correto com a desgraça de seu próprio povo.

Aproveitando a fala de Perkins, podemos pensar e raciocinar, por que os EUA começou um guerra tarifária contra a China?

Ainda dois meses atrás o presidente dos EUA ligava diretamente para o presidente da China, trocaram afagos, cooperaram para resolver o problema da Coréia do Norte.

Ou então, por que Donald Trump deseja agora punir a Europa, a mesma em que ele chamava de eternos parceiros contra a Russia? O que levou os EUA a, de uma hora para outra, sobretaxar 50 produtos dos chineses? E obviamente, no dia seguinte, a China anunciou que vai sobretaxar US$ 3 bilhões de produtos dos EUA.

Quando o muro de Berlim caiu, ficamos atônitos em frente a televisão. Todos dizíamos na época que estávamos vivendo um momento histórico, um dia que quando aparecesse nos livros, poderíamos orgulhosamente dizer: "eu assisti ao vivo a tudo isso e nossa geração salvou o mundo do comunismo".

Mas não foi nada disso. As pessoas só subiram no muro e o derrubaram, porque o acordo para isso já tinha sido plantado alguns anos antes, próximo ao colapso da URSS. E por trás de tudo, estava a mesma coisa que está hoje: o petróleo.

O gráfico anterior mostra o comportamento do preço do petróleo nos anos 80. O ponto marcado em vermelho foi o término da guerra entre Irã-Iraque. Quando chegou o fim da guerra, a produção de petróleo no mundo voltaria ao normal, com uma expansão sem precedentes da mercadoria. Os EUA eram os maiores produtores e a Arábia Saudita resolveu aumentar a produção para assumir o posto de maior produtor.

Com o fim da guerra Irã-Iraque esses dois países voltariam a produzir e vender mais e mais pretróleo fazendo o preço do produto despencar, como exatamente ocorreu.

Conclusão: o preço despencou (ponto vermelho).

A URSS entrou em colapso, pois era e ainda é dependente total da venda de petróleo. Como os países baixaram o preço do óleo, a URSS teve que baixar muito o seu preço, até mesmo abaixo do preço dos outros. Ela chegou a vender barril a US$ 12 para não perder clientes. E com isso, ela estagnou. E acabou, entregando para Gorbachev e sua turma, um poder até então indisponível.

Mas Gorbachev não tinha solução, apenas tinha discurso democrático condizente com o que todos queríamos na época: liberdade e democracia. Ganhou o carinho do mundo todo, mas não ganhou dinheiro com isso.

Pois bem, o ponto preto no gráfico anterior marca um dia histórico. Foi a reunião mais esperada do mundo, entre Ronald Reagan (presidente dos EUA) e Gorbachev (presidente da URSS). Ali um traçado do mundo já tinha sido criado. Para recuperar o preço do petróleo e salvar a URSS, Gorbachev deveria "devolver" a Alemanha Oriental.

Ao abrir essa porta, um novo mercado se abriria para os soviéticos, pois o mundo todo compraria petróleo deles e não apenas os países comunistas. E com o mundo todo comprando seu petróleo, com novos investimentos na Alemanha Oriental por empresas americanas, a recuperação econômica seria certa.

E como podemos ver no gráfico, o preço do petróleo retomou o ritmo de crescimento. Quando as pessoas subiram no muro, o presidente da Alemanha Oriental ligou para o Kremilin (isso está documentado em diversos vídeos históricos) para pedir ajuda. Diz os documentários que Gorbachev apenas disse: "Os tempos mudaram. Não faça nada."

Então, não foi o povo que derrubou o muro, não foi a democracia, não foi o capitalismo. Tudo foi devidamente arranjado para isso parecer natural, mas o petróleo levou a essa mudança histórica. O pico maior no lado direito do gráfico acima, foi responsabilidade de Bush pai, presidente dos EUA e dono de petroleira. Não estavam contentes com a lenta recuperação dos preços do petróleo.

E como agora EUA e Russia estavam do mesmo lado, Sadam Hussein foi abandonado pela Russia ao seu bel prazer, para fazer o que queria sem permissão da Russia como no passado e sofrendo as consequências sozinho. E então Bush pai resolveu criar a guerra do Golfo para realocar empresas americanas na região do farto petróleo.

E elas voltaram para lá, no Iraque. As petrolíferas dos EUA estão no Iraque novamente, as mesmas que também já estão dentro da Petrobras no Brasil.

E o preço? Subiu, disparou com a guerra, claro.

Mas e agora? Ao lado colocamos o gráfico dos preços do petróleo mais atualizado.

O ponto vermelho mostra o ponto a partir da eleição de Donald Trump.

Percebe-se claramente que o preço saiu de sua estagnação, onde Obama não morria de amores pela indústria do petróleo e pregava energia sustentável, para uma alta consistente nos últimos dois anos.

Mas a indústria que elegeu Donald Trump quer mais. O preço do petróleo não consegue sair dos US$ 60 o barril.

Seria apenas coincidência os EUA deixar o acordo contra a emissão de CO2 na atmosfera? Ou seria conicidência Bush pai e Bush filho apoiarem Donald Trump?

Mas e a China, o que tem a ver com tudo isso?

Acontece que a esperança de Trump era pressionar a Coréia do Norte, não apenas para cessar os testes com mísseis, mas para abrir seu mercado.

O exército norte-coreano precisa de combustível para seus mais de 1 milhão de soldados. Eles tem 10 vezes mais tanques e caças do que o Brasil.

Quando ficou sabendo que o ditador coreano aceitava conversar com os EUA, de imediato Trump aceitou.

 

 

 

 

Dow Jones - Fevereiro/Março

Nikkei - Fevereiro/Março

Mas depois mudou de ideia, no dia seguinte. Disse que apenas conversaria após mudanças concretas no país, e tudo por escrito.

Ora, mas inicialmente a conversa era sobre os testes e não sobre o regime. É aí que entrou a China. Por que os chineses vão deixar os EUA fazer um plano de paz entre as coréias para depois instalar suas indústrias?

A Coréia do Norte e do Sul sempre foram pontos estratégicos na Ásia, por isso entraram em guerra com apoio dos EUA, da China e da URSS.

Claro que a China não ia deixar isso ocorrer. E então forçou uma conversa entre as duas coréias para que a execução do plano de paz ficasse ali mesmo, perto de todos eles, sem a participação dos EUA.

E então as indústrias americanas que apoiaram Trump perceberam que tinham perdido terreno. Trump resolveu retaliar, mas para disfarçar colocou uma sobretaxa para todos os países do mundo. E depois vai tirar um a um em conversas paralelas, menos a China.

O problema é que o tiro saiu errado. Enquano a bolsa da China e Hong Kong caíram apenas 2%, Tókio caiu 5% na semana e Dow Jones por volta de 2% todos os dias nessa semana passada.

Trump subestimou a retaliação tributária chinesa. As bolsas americanas e asiáticas perderam mais de 3 mil pontos do fim de janeiro até essa semana, sendo a maior queda após esse início de guerra entre China e EUA.

E onde vai dar isso tudo?

Pode ser que a turma do "deixa pra lá" entre em cena, mas com a vitória recente do presidente chinês e a renovação da presidência de Putin, com ares renovados os embates sejam mais duros.

Que tal uma nova crise financeira mundial? Por que não?

Apesar da China ser uma potência e a Russia ter petróleo, as empresas mandantes no mundo finaneiro são americanas. Grandes bancos, grandes fundos, grandes corporações com poder de manipular a mídia estão nos EUA. Colocar um medo financeiro para forçar uma reconfiguração das forças pode parecer uma teoria da conspiração, mas não é tão ridícula assim.

O problema é que quando isso é plantado, com o mundo conectado como estamos vendo, nem mesmo quem plantou se salva. Vide a crise da Grécia, que foi forçada a acabar com a previdência e quase destruíram o país para obrigá-la a se adequar as regras da zona do Euro. Mas as consequências foram quase drásticas, ainda mais depois do flash crash das bolsas em 2010.

Guerras com armas e tanques são terríveis, mas guerras silenciosas como as que estamos vendo são muito ruins também. Pessoas perdem emprego, perdem a dignidade, perdem o sentido de cidadão, de se sentir parte do todo. A guerra tributária destrói boas empresas e permite que sobrevivam apenas os parceiros, ou os "players" como a turma do "senhor mercado" gosta de dizer.

E para ser "player" deve ser aquele que faz lobby, que trabalha em favor de seu grupo de corporações e não em prol de apenas boas vendas com bons lucros. Sempre existe aí uma componente política e suja que nunca é vista pelo cidadão comum.

O petróleo vai ditar essa nova regra. Para saber o resultado dessa guerra mundial, precisamos observar o que vai acontecer com esse óleo, que sempre trouxe e sempre vai trazer golpes, guerras e mortes. E de quebra, claro, faz nascer boas e más teorias da conspiração.