
Sábado, 4 de Setembro, 2010
Esse é um país que vai pra frente
"Esse é um país que vai frente. De gente amiga e tão contente. Esse é um país que vai pra frente. De um povo unido, de grande valor. É um país que canta, trabalha e se agiganta. É o Brasil de nosso amor! " . Essa é a letra do grupo "Os Incríveis" na época do regime militar. Toda criança da época cantava essa música com alegria e bandeirinhas. Éramos obrigados a saber o nome do presidente da república, dos ministros, data da revolução, "sua importância" e era tudo cobrado em provas. O patriotismo foi colocado literalmente "goela abaixo". Aliás, desde nosso início de independência foi assim. Começamos com uma briga familiar, um bate-boca de pai e filho sobre voltar com o "papai" para ocupar o poder da corôa ou ficar com "escravos e indíos". Não conquistamos nada e também não ganhamos nada de presente. Ganhamos logo de cara uma dívida externa de 3,7 milhões de libras emprestados da Inglaterra para pagamento à Portugal pelos "investimentos" da corôa no Brasil. Já começamos amarrados a dois países: Portugal e Inglaterra. Não houve independência nem morte, nem uma gota de sangue, nem suor, nem mesmo política. Foi briga de pai e filho.
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Sabemos que Dom Pedro I não morria de amores pelo Brasil, mas de amores pelas "baladas" da época. Gostava de passear, namorar, viajar, do clima, mas esse negócio de "meu povo" não colava no imperador. Suas atividades foram tão pífias que ele não via a hora de passar o trono para alguém, mas ficar aqui de férias. Quando fez as pazes com seu pai, foi embora contrariado, é verdade, mas foi de volta para Portugal e nunca mais voltou. Seu filho, Dom Pedro II, esse sim um verdadeiro brasileiro. Tão brasileiro que construiu as bases da ciência e da educação no país. A sopa básica da vida num país é a educação e ele sabia muito disso. Trouxe telescópios, microscópios, fundou a primeira universidade do país (ainda não era universidade, mas foi o pilar de uma) transformou e higienizou as ruas da côrte Rio de Janeiro. Em viagens ao exterior foi um verdadeiro diplomata e reconhecido até hoje em qualquer museu da Europa. Mas de tão bom, tão ligado a fazer educação, ciência e criar um país, não estava preparado para os políticos. E tomou uma rasteira como sempre os políticos desonestos fazem. Tivemos a chance de concorrer com os EUA em ser a primeira potência da América e... perdemos. Que chance perdemos.
O país estagnou, a roubalheira tomou conta e depois de militares contra o império, veio a política conhecida como "café-com-leite". Era o revezamento grotesco e descarado de políticos paulistas do café e mineiros do leite. Foi quebrado por um gaúcho, Getúlio Vargas que começou mal, muito mal. Tão mal que teve que enfrentar uma revolução que aumentaria a dívida do país ainda mais no exterior. Empréstimos militares foram feitos para vencer São Paulo que era contra a quebra do revezamento do café-com-leite. Minas expertamente, quando viu que iria perder muito, se aliou a Getúlio abandonando seus antigos afetos paulistas. E São paulo isolado perdeu a batalha, perdeu a cidade e transformou durante anos os generais da época como heróis. Não houve heróis nessa revolução. O principal general deixou um canhão passar em cima de seu pé no primeiro dia de batalha e correu para o interior. Pedimos perdão ao leitor para escrevermos um pequeno trecho em primeira pessoa: (Sou paulista e sempre ouvi histórias sobre nossos heróis paulistas, sendo um deles até parente distante, o que me deixava muito orgulhoso. Qual não foi minha surpresa ao descobrir a covardia desses heróis relatada brilhantemente no livro "As noites das grandes fogueiras" de Domingos Meirelles. É sem dúvida o melhor relato sem partido sobre a revolução de 1932. A história é sobre a Coluna Prestes. Deveria ser leitura obrigatória em todas as disciplinas que envolvessem história). Mas um lampejo aconteceu em Getúlio e ele "comprou" diversas idéias que os paulistas tinham batalhado e brigado na revolução. Foi como se São Paulo tivesse ganho a revolução pois, uma nova constituição foi construída, não nos moldes que paulistas e mineiros desejavam, mas com alguns avanços. Mesmo sendo ditador, começou a remodelar a sociedade brasileira e principalmente tirando dos currais eleitorais o maior poder: o trabalhador. Ao proibir a ligação escrava entre patrão e empregado, a obrigação do empregado sempre ter que comprar na "vendinha" do patrão e principalmente ao criar a carteira assinada, derrubou os currais eleitorais. Com isso teve uma ditadura política e conseguiu, se forem feitos os devidos filtros, um ótimo governo. A criação da CSN (veja esse vídeo) foi um marco do desenvolvimento no país. Tínhamos nossa própria siderúrgica e não iríamos mais importar uma série de produtos para um país que estava crescendo em população e consumo. Foi uma grande jogada. |
Pintura da CSN na época de sua inauguração |
Mas como ele estava mexendo com uma porção de interesse em seu segundo mandato e não comandava tanto o exército assim como no primeiro, novamente os maus políticos aprontaram para o país. Não vamos entrar em detalhe da morte controvérsa de Getúlio, mas sim que novamente perdemos o trilho. Perdemos a chance de novamente não rivalizarmos com os EUA que já eram quase uma potência pós-guerra, mas pelo menos não ficarmos tão distante. E nisso, a dívida externa aumenta novamente, com gastos, politicagem, etc. Quando Juscelino assumiu a presidência, percebeu que precisava se desvencilhar e criar um fato novo para não ser engolido pelos políticos. E segundo conta a história, num discurso numa pequena cidade do nordeste, quando ele disse que cumpriria a constituição um morador perguntou:" Por que não constrói uma nova capital? Isso está na constituição.". Foi encontrado o ponto de luz que Juscelino queria. Era o fato que ele precisava para abafar os políticos e jogar a população ao seu lado. Vislumbrou que o número de empregos iria disparar, o país crescer, a visibilidade do país aumentaria e por fim, se distanciaria das intrigas da antiga capital.
Obras de Brasília A construção foi cumprida e a dívida externa... saiu de controle. Totalmente fora de controle. E com uma casa nova para os maus políticos, nada melhor que criar regras novas para se beneficiar. E então veio o período do "país que vai pra frente". Como em galinheiro sem galo, as galinhas bagunçam e roubalheira de ovos ocorre, apareceu um galo para tomar conta. Os militares resolveram em nome "do bem-estar e ordem social" tomar conta do país. E ao invés de leis, criaram um tal de "atos". O pior e mais temido o AI5 (ato institucional número 5) bania a total liberdade dos moradores. Foi nessa época que as portas das salas de aula receberam a tal "janelinha" para vigiar professor. As tais janelas nas portas da sala de aula nada tem a ver com estética, mas sim com controle do professor. Novamente para abafar os contras, mais empréstimos para o Brasil. Talvez nessa época o primeiro "marketeiro" profissional tenha surgido. Ao criar o "sugismundo" e musiquinhas que conquistavam crianças, a lavagem cerebral foi intensa. Que mal poderia haver num governo que tinha um desenho que ensinava as pessoas a tomarem banho? Isso é importante para o Brasil. Resolveram construir uma estrada na floresta amazônica e acabar com os índios pois essa é uma "cultura ultrapassada" (pobres índios, que época!). O programa "Amaral Neto, O repórter" enaltecia a conquista da Amazônia. Que tal a ponte Rio-Niterói? Muito importante para toda a nação. E então veio a mágica. O então ministro Delfim Neto(esse vídeo não parece atual?), economista muito inteligente até os dias de hoje, confiou demais em dados passados para sua política. Ensinou que poderíamos pegar empréstimos a juros muito baixos, emprestar a outros a juros mais altos, pagar nossos juros antigos e ainda lucrar. E deu certo! As músicas do "esse é um país que vai pra frente" proliferaram. Pobre ministro. Dados passados não garantem a continuidade do processo no futuro. E não é que os árabes resolveram novamente aprontar. E veio a crise do petróleo e a roda financeira do ministro quebrou. Os juros dispararam, ficaram impagáveis e de quebra, quem devia para o Brasil também não pagou. Um caso famoso foi das "polonetas" onde a Polônia para proteger sua moeda disse ao Brasil: não pago! E o Brasil disse: tudo bem, deixa pra lá!
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A pressão sobre os militares foi aumentando. Isso porque não era mais uma insurgência popular, era a economia parando. Os próprios militares perceberam que tinham que passar a bola, pois logo eles estariam sem salário também. Já que o povo queria o poder de volta, o melhor a fazer era devolver ao povo. Foi então que apareceu aquele discurso famoso: "A democracia vai voltar de forma lenta e segura..." e nós aceitamos isso. O panelaço das " diretas já" foi o maior sucesso popular de todos os tempos. Hoje pode-se perceber que os políticos que eram contra as diretas ainda estão por aí, dizendo que sempre foram a favor e só estavam com os militares porque ... essa era a regra do jogo! E os que eram a favor das eleições diretas agiram diversas vezes como se fossem do lado dos militares quando estiveram no poder. E as eleições diretas vieram, bagunçadas, do jeito brasileiro de ser, mas vieram. E o principal ator não apareceu. Tancredo Neves nem tomou posse, faleceu com uma palavra nova: diverticulite. E de novo o Brasil parou na bagunça.
Praça da Sé - Palco das diretas já, anos 1980. O governo de José Sarney inventou os planos e uma palvra nova: Hiperinflação. Nada demais, coisa de 80.000% ao ano. Chamou o povo para ser o "fiscal do Sarney" e teve gente que acreditou. Bom, teve até boi que foi preso! E depois o governo de Collor de Melo inventou a retenção da poupança e salários com a ministra Zélia Cardoso. Todo mundo estaria bem com 50 mil cruzeiros, não precisavam mais que isso. Um debate muito interessante foi travado entre a ministra e a repórter Lilian Wite Fibe, mostrando a total ignorância da ministra no plano que ela criou e não sabia como funcionava. O fim desse governo de Collor só podia dar no que deu, mas não graças aos políticos que no início ficaram do lado do presidente. Foram os garotos indo à rua, os conhecidos "cara pintadas" com slogam "fora collor" que mobilizou o país. E o impeachment veio, fazendo Collor de Melo sair com seu fiel amigo: um livro ("eles nunca o deixaram só").
Depois veio o plano real e com ele a década perdida. Perdemos mais de 10 anos na verdade, talvez até arrumando a casa que realmente estava uma lástima. Mas não crescemos nada e vimos o mundo ir em frente. O país que tinha até música no passado que iria para frente... parou. Pode-se até argumentar que o governo de Fernando Henrique deu "azar" e por isso o país estagnou. Mas azar não cria megadesvalorização da moeda de um dia para o outro. O arrocho foi gigante para todos os trabalhadores. As companhias nacionais eram obsoletas e precisavam ser vendidas. Precisávamos pagar os juros da dívida externa. Vendeu-se as melhores empresas e as piores ainda estão de posse do Estado. E a dívida? Continua. E nos últimos anos, no governo Lula, fomos chamados de "a bola da vez". O mundo nos olhou de forma diferente e os investimentos realmente começaram a chegar. Os políticos do lado do governo dizem que foi um governo de boa gerência, os opositores dizem que foi um governo de muita "sorte" pois não tivemos nenhuma crise financeira antes de 2008. O fato é que para o Brasil "ir a frente" não podemos depender de políticos. Eles tem a função muito clara e definida que é: falar. O país, como um todo, também tem sua posição muito clara e definida que é produzir: produzir cultura, produzir educação, produzir saúde, produzir ciência. E da produção da ciência tivemos a semente mais preciosa e de orgulho nacional. Esqueçam que futebol é nosso maior orgulho. O seqüênciamento genético da Xylella Fastidiosa, a bactéria da doença do amarelinho nos laranjais foi a maior conquista de todos os tempos para o Brasil. Deixamos de ser "copiadores" de ciência e produzimos nossa própria ciência. A mais importante revista de ciência colocou uma reportagem de capa sobre nosso seqüênciamento genético. A idéia nova criada pela agência de fomento do Estado de São Paulo, a Fapesp obteve 100% de sucesso.
A Fapesp criou laboratórios pelo Estado inteiro, nas principais universidades do Estado, reunindo pesquisadores de genética, computação, matemática entre diversas áreas para fazer um mapa da bactéria. Contratou o mais conhecido pesquisador da época para coordenar os trabalhos. Os laboratórios faziam seqüênciamento de diversas partes e enviavam os dados para uma central. Programas de computadores totalmente desenvolvidos por pesquisadores paulistas foram criados para "juntar" as diversas partes da bactéria e colocá-las no lugar correto, dispensando partes seqüênciadas repetidas. Os códigos de computadores foram inéditos, gerando reconhecimento internacional em bioinformática. A rapidez da mapeamento garantiu a todos os pesquisadores a aparição do nome do Brasil na capa da "Nature". Não foi um artigo, mas a capa da revista com maior dificuldade de publicação do mundo. Algo nunca antes visto. A publicação de um artigo é muito, mas muito difícil nessa revista. A publicação de uma capa então nem se fala. Foi a primeira vez que um artigo teve mais de ... pasmem... 100 autores. O próprio coordenador americano se surpreendeu com a qualidade e rapidez, dizendo que no início tinha desconfianças. O investimento da Fapesp: 12 milhões de dólares. Nada, quase zero perto do nosso superávit mensal. E o que os heróis ganharam? Além do prestígio internacional acadêmico, vindos dos políticos do Brasil, apenas o governo do Estado de São Paulo deu um prêmio para o artigo, na verdade uma medalha. O governo federal convidou para uma cerimônia e nada mais. Os jogadores da seleção de futebol de 1970 ganharam "fuscas". Os jogadores da copa de 2010 iriam ganhar pelo contrato, 1 milhão de reais se fossem campeões da copa do mundo. E os cientistas... uma medalha.
Precisamos crescer, vamos crescer. A Petrobrás está aí como prova, ao descobrir o gigante campo de petróleo em águas profundas. Agora os EUA também querem investir nessa tecnologia para achar mais petróleo por lá. Essa tecnologia não se obtém do dia para a noite. A Petrobrás vem insistindo há 50 anos nesse tipo de extração. E a Petrobrás sempre lutou contra o pessimismo proposital dos "consultores" que diziam que perfurações em águas profundas não iam dar em nada. Em ambos exemplos positivos do Brasil, por que tivemos sucesso? Educação e ciência. Sim, somos um país que poderemos ir a frente, mas precisamos de menos interferência política e mais interferência "educativa". E isso começa com salários. Investir em salários para professores do ensino básico é que forma um país, não em salário de políticos. Somos credores do FMI, e o governo se orgulha de dizer isso. Se emprestamos 10 bilhões de dólares ao FMI, por que não emprestamos 1 bilhão de dólares aos professores da rede primária? Com 1 bilhão de dólares dessa conta credora que temos, os 1 milhão e 800 mil professores da rede básica (um ao quarto ano primário) receberiam algo em torno de R$600,00 por mês durante um ano em TODOS os estados do Brasil. Tem professor no Brasil ganhando menos de R$340,00 por mês. Tem professor dando aula sem sala de aula no Norte e Nordeste do país. Tem professor que leva aluno pra casa para dar aulas. Os governos se orgulham em dizer que o salário do professor aumentou x em relação ao anterior. Mas o seu próprio salário aumenta 10x em relação ao anterior. Me desculpe o leitor, vou falar em primeira pessoa novamente: "Senhores políticos, peço desculpas, mas vocês não valem mais do que os professores primários". Confiamos que esse seja um país que "vai pra frente", mas somente se a educação for uma ferramenta que manobre giz, livros, computadores, laboratórios, e não que seja manobra de políticos. |