Sábado, 05 de Fevereiro, 2011

 

 

O dragão virou gato?

 

Um gato é colocado dentro de uma caixa totalmente lacrada com um dispositivo que faz uma arma acionar dentro da caixa, disparando um projétil. Uma pessoa poderá puxar o gatilho na hora que desejar e quantas vezes desejar (até acabar os projéteis da arma). Uma vez disparada a arma, o gato morreu? A resposta é: Sim e Não! Parece uma brincadeira, mas esse experimento mental é muito sério e seu autor bastante respeitado no mundo da Física. Seu nome é Schrödinger e o experimento ficou conhecido em 1935 como "o gato de Schrödinger".

Essa resposta tem como parâmetro a Mecância Quântica, teoria onde coisas que para nós são bizarras e motivo de risos, para os átomos acontecem e são reais. O experimento de Schrödinger foi resultado de uma troca de cartas entre esse físico e Einstein. A explicação é que o gato pode estar vivo e morto ao mesmo tempo, pois a caixa não foi aberta e as curvas de probabilidade de vida e morte são as mesmas. O evento "abrir a caixa" é que faz com que a curva de probabilidade de morte se torne maior que a probabilidade de vida. E então, quando se abre a caixa o gato tem mais chance de morrer, do que se a caixa não foi aberta. Não sabemos a situação do gato até olharmos para o pobre do gato. É que esse é um exemplo para o comportamento do átomo que às vezes é onda e outras escolhe ser partícula.

Parece muito distante da realidade, mas existe uma situação real em nosso dia-a-dia. O dragão da inflação morreu ou está vivo? A inflação está morta e viva como o gato de Schrödinger. Quando a inflação está em baixa, a mídia jornalística dá ênfase em sua queda e com isso estimula as pessoas a comprarem. A inflação então aumenta e estimula o governo a subir a taxa de juros SELIC, as pessoas sofrem, a imprensa critica o governo e a inflação cai. Por isso, assim como o gato, a inflação vive e morre ao mesmo tempo.

Assim como no mundo dos átomos, chamado de quântico, o ato de interferir na vida das pessoas faz com que as curvas de probabilidade se alterem. Por isso, se existe uma tendência de queda dos juros, e isso fica evidenciado no dia-a-dia, fatos farão a inflação subir elevando os juros novamente. Se não falasse nada sobre a inflação, sobre a situação do país, as pessoas continuariam sua vida e provavelmente o controle das variáveis econômicas seria mais fácil. Mas calma, nesse caso estaríamos voltando aos tempos de Roma. Estaríamos de volta num tempo onde mesmo com hiper-inflação, o Império Romano se sustentou por séculos. As pessoas não liam e nem sabiam de déficit e o próprio Caesar achava que o Ouro era para sempre.

No mundo contemporâneo, a liberdade de expressão e o conhecimento são as maiores riquezas econômicas que um cidadão pode ter. Ter acesso a informação é fundamental para nossas vidas, mas saber filtrar as informações pode nos garantir vida longa. Nos últimos meses a mídia e os jornalistas que se dizem "especializados", e mesmo muitos economistas, assustam a população sobre a volta da inflação (gráfico a seguir).

 

A curva em azul no gráfico acima nos mostra a inflação mensal (anualizada) desde 2001 e curva vermelha a taxa de juros mensal (anualizada). Aqui cabe uma cautela e explicação. A curva da inflação é obtida somando-se dados de 12 meses passados para cada novo mês, ou seja, em Janeiro somamos dados de um ano atrás até Janeiro, em Fevereiro dados de um ano atrás até Fevereiro e assim por diante. No caso da SELIC, como a taxa é anual, o governo tem uma taxa diferente a cada dia do ano, com essa taxa variando com base na taxa que o Banco Central escolhe a cada reunião. Então, no caso da curva vermelha acima, fizemos a média dos dias úteis dos meses para essa taxa diária. Esses dados podem ser adquiridos no site oficial do governo no Ipea Data (excelente por sinal).

O que se percebe é que sempre o governo corre atrás da inflação e tem conseguido controlá-la com as altas dos juros. Prever quando vai subir ou quanto o governo vai subir pode parecer nebuloso, pois depende de reuniões, dados, informações e "fofocas" conhecidas com a bonita palavra de EXPECTATIVA do mercado. Essa é uma consulta que o BC faz aos bancos, corretoras e especialistas pra perguntar: "E aí galera, o que vocês acham que vai acontecer com a inflação até o fim do ano". E o pessoal responde:"Vai subir". Então o governo decide se atende ao pedido da consulta de subir o juros para baixar a inflação ou baixar os juros para estimular o mercado.

Mostramos em nosso artigo mais técnico aqui no site, que na computação existe uma área conhecida como lógica nebulosa e apresentamos alguns exemplos de como descobrir o que o BC vai fazer ("A lógica nebulosa do Banco Central"). O caso é que não se deve acreditar logo de cara no que a imprensa divulga, que pode ser apenas uma visão pontual ou repetição do que se ouve entre analistas. O que a mídia em geral tem afirmado é que a inflação pode sair do controle, que está muito alta, que o governo vai deixar a inflação voltar, etc, etc, etc. A inflação é sazonal e até o presente momento não dá indícios (gráfico anterior) que está fora de controle só porque a meta não foi cumprida. Desde 1994 a meta não foi cumprida diversas vezes e o problema que tivemos com a desvalorização cambial em 1998 foi outro, relacionado a contas mal administradas que gerou déficit enorme (o mesmo dos dias atuais). Com as bolsas caindo forte na Ásia tivemos problemas, e claro, a inflação é a primeira a aparecer.

 

Do ponto de vista do otimismo, devemos perceber que a longa queda dos juros desde 2001 é um excelente sinal que o Brasil tem um futuro muito bom pela frente. Isso não quer dizer dois anos, quatro anos, mas um duro caminho por mais duas décadas no mínimo. Se o controle for mantido, teremos uma taxa que pode estar por volta de 5% em quatro anos, conforme gráfico acima. Mas isso é apenas uma projeção e não uma previsão. Essa projeção qualquer um pode fazer no Excel usando a chamada: "linha de tendência exponencial". Essa é uma curva bastante conhecida, principalmente na biologia, quando observada populações de animais em extinção. Quando uma curva dessas aparece sobre os dados, para revertê-la um esforço sobrenatural deve acontecer. Quando se diz que uma espécie está em extinção, é porque não tem mais volta, ela vai desaparecer a menos que se faça algo gigante (projeto TAMAR das tartarugas é um feliz exemplo).

Então, para as coisas voltarem ao cenário dos anos Sarney e Collor, onde o desastre foi total, temos que deixar o governo errar muito, e nós também. Praticamente temos que ter uma guerra, um desastre gigante no país para voltarmos com o dragão da inflação. Isso não quer dizer que seja impossível, mas temos baixa probabilidade de acontecer. Também não quer dizer que a taxa de juros não suba violentamente em alguns períodos, mas se vivermos e esperarmos duas décadas, a probabilidade é muito alta de termos inflação mais baixa e taxa de juros civilizada. Dá para acelerar o processo? :A resposta é não.

Por que não teremos comportamentos como nas curvas "desenhadas" na projeção acima? Claro que sim, é possível, mas a dinâmica da tendência dos juros é de uma queda lenta, mas contínua em termos de tendência. às vezes teremos taxas mais baixas, às vezes teremos taxas mais altas, mas se manter e melhorar as regras atuais não há risco de hirper-inflação.

Então ao ouvir noticiário de jornalistas que dizem que o "fantasma" da inflação está voltando, não é verdade. A projeção para a inflação é um processo estocástico, que jornalista não sabe fazer e nem sabe seu significado. Isso também não quer dizer que eles não devam criticar o governo e vigiar as ações. Vigiar as ações é uma garantia da tendência exponencial (curva em preto) continuar. Isso a imprensa sabe fazer de melhor, mas fazer previsões do futuro com alarmes superficiais...esqueçam. Esse papel está errado.

Se nem sabemos se o próprio gato de Schrödinger após levar um tiro morreu, que dirá dizer que teremos hiper-inflação no final do ano. Processo estocásticos tem previsão difícil, pois além da matemática nas fórmulas econômicas, temos a atuação humana que não é modelada.