Terça-feira, 8 de Junho, 2010

 

Ameaça à Inglaterra

Às vezes, com receio de "machucar" algum amigo ou perder amizade, as pessoas dizem verdades em entrelinhas. Outras vezes os recados são meio tortuosos, mas para um bom e esperto reconhecedor de estratégias é o suficiente para agilizar algum plano. Foi o que fez a agência de ratings Fitch hoje ao enviar um alerta para o Reino Unido: "Reino Unido deverá ter desafio fiscal formidável".

Segundo o texto da bloomberg,a Fitch disse em relatório que a estratégia de ajuste fiscal deverá incluir de maneira mais rápida a redução do déficit de orçamento, ainda mais forte do que o realizado em Abril de 2010. O pagamento de juros da dívida do Reino Unido poderá atingir cerca de 70 bilhões de libras ( ou 101 bilhões de dólares) em cinco anos. No ano passado eles eram de 31 bilhões de libras.

Isso será acompanhado de perto pela agência que já rebaixou as notas da dívida de Portugal, Espanha e Grécia . A nota da dívida do Reino Unido é AAA o mais alto grau de investimento da escala da Fitch. Isso significa dizer que o Reino Unido é um país confiável e seguro e garante aos grandes fundos de investimento o pagamento dos bonus sem preocupação de calote ("default"). Será?

O caso Lehmann manchou todas as agências de ratings que sempre colocaram o Brasil atrás de países muito menos expressivos em termos de pagamento da dívida mas tinham com o Lehmann uma relação de "carinho" eterno. O banco de investimentos tinha também o triplo A, ou AAA e no entanto levou todo mundo quando caiu. E como funciona um rating?

 

 

 

A fórmula anterior é de outra agência que mede riscos de calotes de países e firmas pelo mundo todo. A agência idealizadora dessa fórmula é Moody's. Essa é a fórmula do terror dos países, que torna muito difícil de leigos entenderem seu funcionamento. A grosso modo seria uma espécie de ponderação entre a proababilidade de um país não pagar o bônus da dívida (termo em cima da barra de divisão) pela soma de todas as probabilidades de outros países de honrarem seus compromissos (parte de baixo da divisão). Quanto menor essa relação, menor a posição num ranking composto sempre de três letras. Para cada índice obtido dessa fórmula ADS, procura-se em uma tabela a posição do país. Uma vez encontrada, o conjunto de símbolos ao lado é o rating do país ( ou firma). Mas não é somente quantitativo assim.

Uma vez que a fórmula gerou um valor, as probabilidades "p" da fórmula vão se alterando para vários tipos de valores o que vai gerando diversos valores de "ADS". Essa metodologia é bastante conhecida da área de engenharia, física, matemática e computação e recebe o nome de Método de Monte Carlo.

O Método de Monte Carlo é o procedimento pelo qual se simula diversas vezes uma situação, onde alguns parâmentros trocam de valor de forma aleatória. Simula-se 100, 1000, um milhão de vezes se for necessário e então extrai-se a média e desvio padrão.

 

De posse de mais alguns índices originados da fórmula inicial, cria-se por exemplo uma tabela como a anterior onde para cada faixa de valor de variação obtida, a nota ao lado corresponde ao risco do país. E então terminou?

Não, em seguida vem uma reunião "política" entre todos os consultores de diversos países para decidirem em conselho se a nota deve mudar ou não com base no cálculo. Ou ainda se o risco vai aumentar (no caso de viés) ou se deve esperar o mês seguinte para decidir em cima de dados mais claros.

Criar índices não é uma tarefa fácil, mas se mostrou bastante lucrativa para essas agências. Uma vez divulgada a nota, pode mudar o rumo de investimentos entre os países. Muitas vezes o Brasil se viu em má situação por rebaixamento da nota em algumas agências. E já demos calote?

Sim, infelizmente no governo José Sarney um dos tópicos do plano cruzado foi o não pagamento da dívida. Isso fez com que o Brasil ficasse muitos anos mal visto por investidores e bastante atraente para especuladores oportunistas. Foi só uma amostra do que o populismo pode gerar de atrasos. E depois disso, diversos governantes conversavam com essas agências na tentativa de mudar a imagem ( e a nota, claro).

Por isso o Reino Unido percebeu o recado e em entrevista o próprio primeiro ministro David Cameron disse ontem que tem um ponto de vista negativo com relação ao déficit. E então as bolsas da Europa ontem e hoje caíram. O FTSE da Inglaterra fechou em -0,81% e DAX da Alemanha em -0,62%. O patamar de 6.000 pontos para a Inglaterra está muito distante e talvez mais próximo o rebaixamento das notas da dívida do Reino Unido.