O caloroso NÃO na gélida Islândia
A bela economia da Islândia vinha crescendo à taxas maiores que as do Brasil e também era a menina dos olhos europeus. E quando a crise dos "subprimes" apareceu, ela foi vítima implacável dos ataques especulativos dos bancos de investimentos internacionais. Levou a culpa e o governo de joelhos teve que pedir ajuda à Europa. A Inglaterra e Holanda ajudaram a Islândia com um montante expressivo para evitar a quebra dos bancos locais. Mas a ajuda não foi um ato humanitário e sim para se salvar da quebradeira dos bancos ingleses e holandeses que estavam literalmente entupidos de títulos da Islândia. Sem essa ajuda (talvez melhor colocar aspas no termo "ajuda") a Inglaterra estaria pior do que já está.
E então, agora que os bancos já recuperaram suas perdas, está na hora de atacar os mortos como corvos em busca de putrefação para saciar suas vontades. Ocorre que a Islândia não existe por acaso. Viver e construir um país no gelo não é algo fácil e tarefa para qualquer ser humano. E nesse ambiente ríspido de clima gélido, a nação Islândia prosperou e se educou possuindo um altíssimo grau de instrução. Com uma população de apenas 340 mil habitantes o país é bastante instruído para perceber que a situação não é bem assim, como o reino da rainha resolveu vender.
A dívida da Islândia é de 5,3 bilhões de euros à Inglaterra e Holanda, o que corresponde a 45% do PIB e terá que pagar com juros altos com vencimento em 2024. Se pensarmos que essa taxa de dívida é alta, basta olhar para as estimativas da dívida externa. Segundo as estimativas essa dívida externa pode chegar a 310% do PIB e quem vai pagar é a população local. No ano de 2009 20% das maiores empresas vieram à falência fazendo a taxa de desemprego aumentar absurdos 60%. A taxa de desemprego antes da crise era de 1% e no findar do ano de 2009 chegou a 1,6%. O PIB da Islândia tinha um crescimento vigoroso, chegando em 2008 a atingir o patamar de 3,8%. Em 2009 despencou para 0,3% (praticamente zero).
Mas num país com o grau de instrução alto, o governo não paga dívida ou juros a outros países sem a permissão da sociedade. E o referendo dessa semana foi exatamente um contrato que as pessoas tinham que assinar para avalizar o pagamento da dívida. E o povo da Islândia percebendo que ia levar toda a culpa pela crise disse não. As estimativas chegam a 95% de não contra 3% de sim e 2% de abstenção. Nenhum político resiste a tamanha rejeição e o governo da Islândia está em maus lençóis e terá que se explicar com a Inglaterra e a Holanda.
Como a Islândia chegou nessa situação, já foi amplamente divulgado pela mídia mundial em 2008. Política de juros altos e retornos altamente expressivos e abertos aos especuladores europeus é a receita para tal crise. O interessante é que os mesmos bancos que levaram a Islândia à crise, se dizem seu salvador e agora, depois de recuperarem seus prejuízos e reportarem lucros enormes em menos de um ano, querem cobrar do povo pelo erro que são deles.
A Islândia é um excelente laboratório do mundo financeiro, pois com uma população pequena e isolada fisicamente se comporta como todo planeta. Tem de vencer os problemas com eletricidade, água e clima para sua sobrevivência. E assim como o mundo globalizado existem erros políticos e políticas financeiras que são a miniatura do que acontece nas grandes bolsas mundiais. Ela é um laboratório interessante, pois o resultado final não será o previsível índice de recessão e altos impostos que vão levar o povo à miséria. É como se o mundo todo fosse culto e inteligente. O que aconteceria com as grandes instituições financeiras mundiais, se todos os países tivessem população culta e inteligente? Será que os bancos de investimentos cresceriam com taxas absurdas e juros exorbitantes? Pode ser que sim, mas vale a pena observar o laboratório da Islândia. Se isso fosse uma aposta, dá para apostar que o governo não ficará muito tempo como governo. Interessante será ver qual a solução a ser adotada, visto que o dinheiro que está lá agora é inglês e holandês.

Domingo, 7 de Março, 2010