Sábado, 7 de Março, 2015

 

Jogos Diferenciais no Congresso Nacional

A batalha vai começar.

Acostumados sempre a estarem acima da lei, os políticos brasileiros serão investigados em massa, e novamente, um ex-presidente que já sofreu impeachment está sendo indiciado. No passado era sempre um único político, apenas um senador, ou algum deputado e os demais membros em processos eram do governo. A diferença entre o processo do mensalão e esse do lava jato, é que no mensalão pessoas com cargos e empresas estavam envolvidas, mas poucos do congresso. Agora o congresso brasileiro está em peso sendo investigado.

É certo também que muitos já foram do governo, fizeram suas estripulias e voltaram para o congresso. Mas nada muda o conceito que todos nós brasileiros temos sobre eles. Eles foram pegos ainda em seus mandatos e exercendo cargos majoritários dentro do Congresso Nacional, tais como os presidentes da Câmara e do Senado. A filha de José Sarney também foi citada e terá que dar muitas explicações, mesmo deixando antes seu governo para evitar os holofotes.

Por que esses políticos dessa vez saíram perdendo? Perderam o "timing", perderam a hora exata de barrar qualquer coisa. Com os inquéritos correndo por fora, e deixando os holofotes apenas nas empresas envolvidas com a Petrobras, quando os políticos deram por si, perceberam que estavam muito longe de barrar ou desviar qualquer coisa a respeito deles.

A Polícia Federal e a Justiça Federal enganaram "suas excelências" usando a estratégia matemática de guerra conhecida como "Jogos Diferenciais". Essa é a base da Teoria do Controle Ótimo, onde dois ou mais jogadores buscam otimizar suas eficiências e derrubar as chances do inimigo fugir. Essa estratégia tem diversos nomes tais como "Perseguidor-Evasor", "Lider-Seguidor", 'Cão-Gato", "Choffer Assassino x Pedestre" entre muitas outras nomenclaturas.

Aperfeiçoada por Nash, que estudou o equilíbrio das forças, a teoria dos jogos diferenciais foi amplamente utilizadas na época da guerra fria, com EUA e URSS "brincando" de guerra em simulações, para ver quem destruiria o mundo primeiro. A dinâmica desse jogo depende do modelo onde o sistema é baseado em equações diferenciais (ver explicação aqui).

O fato é que sempre que uma informação vazava sobre algum processo envolvendo políticos, do deputado A ou do deputado B, suas excelências detonavam algum tipo de outra investigação ou viravam o holofote para outro alvo, e com isso, destruíam o processo contra eles. No caso de Collor de Melo, quando perceberam que as confusões nas ruas miravam o Congresso, os políticos sabiamente reverteram o cenário graças a habilidade de Ulisses Guimarães e o alvo foi o executivo.

A vantagem de épocas outrora era o "timing", que para eles foi sempre perfeito. O cenário era sempre como um perfeito problema de Perguidor x Evasor e eles, os políticos do congresso, sempre perseguiam o processo que nunca chegava com peso total ao STF. Esse gráfico é o típico jogo diferencial "perfeito" previsto na teoria. As máquinas de guerra como os interceptadores de mísseis agem dessa maneira. Nesse caso, o eixo vertical indica "esforço" e o eixo horizontal "notícias".

Uma outra forma que os políticos sempre usaram com as armas dos jogos diferenciais era a dissimulação. Fingiam que não estavam sabendo de nada, deixavam as notícias correrem, mas com seus informantes estavam aumentado a velocidade, sem ninguém perceber, para barrar o processo logo ali na frente, na virada da esquina, deixando cair no esquecimento. Essa também é uma típica solução de estratégia de guerra nos jogos diferenciais. O gráfico típico é o apresentado à seguir.

Ainda não podemos esquecer que, assim como as baterias anti-aéreas previstas pelos jogos diferenciais, os congressistas envolvidos em corrupção eram muito bem articulados. Sempre o presidente do Congresso aparecia na frente das câmeras dizendo abrir várias frentes para garantir lisura no processo.

Quem não se lembra de Antônio Carlos Magalhães, seu filho e José Sarney?

Não foi incomum no passado, a Câmara e o Senado abrirem duas frentes nos conselhos de ética para "punir" colegas. Poucos foram realmente punidos.

E como o gráfico de perseguição de um jogo diferencial mostra, isso dá garantia de que, se o processo "furar" uma frente, não passa pela outra.

Jogar ruído no sistema também faz parte dessa teoria dos jogos diferenciais. Serve para perturbar os sistemas e tornar os sensores completamente inúteis nas bases inimigas. Esse tipo de jogo se chama "jogo diferencial estocástico".

Quantas vezes não se vê bate-boca em comissões, bate-boca no plenário, bate-boca em debates de televisão, com acusações que nunca vão à frente. Tudo isso é para cansar o público, cansar a população até desistirem do assunto e o processo se perder em instâncias e mais instâncias.

Em jogos diferenciais, se um sistema é perturbado por ruído, a estratégia é adotar representações e soluções que levem em conta a natureza probabilística do evento. Se isso não for feito, o sistema se perde, diverge ou fica inutilizado.

É... até nisso nosso congresso já foi bom.

 

 

 

Existe também a categoria conhecida como jogo diferencial circular. É bastante utilizado para mísseis ou foguetes em viagens espaciais, nas missões interplanetárias.

Bem ao tipo de nosso congresso, nossos congressistas usam dessa tática com suas CPIs, que giram, giram e giram e nunca resultam em nada de substancial. Os relatórios finais são caixas cheias de papel onde possivelmente ninguém lê por completo, pois sabem que nada ali é verdadeiro.

É uma solução ótima, matemática para um congresso que nada sabe sobre matemática, mas usam com tanto adestramento que nos surpreende.

Mas então, o que ocorreu nesse processo lava jato? O juiz Sérgio Moro de Curitiba, conseguiu com o sigilo, convencer todo mundo que o problema era só da Petrobras. Ele deixou escapar para a imprensa informações e mais informações relacionando apenas pessoas ligadas à empresa.

Mesmo os relatos do doleiro Youssef que vazaram, davam notícias de diretores corruptos e suas ligações com fornecedores. O próprio funcionário da Galvão Engenharia relatou que no final de 2014 ele também não acreditava que a empresa seria processada. E continuou a pagar propinas para os funcionários de alto escalão da Petrobras.

Mas as coisas começaram a complicar, quando em Fevereiro, as tais delações premiadas revelaram o que nós, brasileiros "leigos" em política já sabíamos. Obviamente que tinha muito, mas muito político nisso. E o juiz Moro também sabia, e só deixou vazer isso, quando o processo estava quase encaixotado e pronto para chegar a Brasília.

 

O juiz e a polícia usaram também de uma estratégia de jogos diferenciais. Eles atrasaram o tempo de resposta do perseguidor, que quando se deu conta, não tinha tempo e velocidade suficiente para barrar o processo, como fizeram com tantos outros. As técnicas anteriores não puderam ajudar e, dessa vez, nem mesmo os presidentes do Senado e da Câmara conseguiram escapar.

Jogo diferencial padrão onde o perseguidor intercepta a presa

Jogo diferencial onde a presa percebe que está sendo perseguida e aumenta sua velocidade

O que aconteceu é uma das soluções clássicas de otimização de processo, onde a presa está pastando sossegada mas atenta ao bosque. O leopardo, muito experiente a espreita e começa a andar em sua direção abaixado e devagar. Mas ao estalar um galho, a presa percebe que está sendo observada, e começa a correr em disparada. O leopardo começa a perseguir mais rápido, mas a presa aumenta em duas vezes sua velocidade desviando do leopardo e conseguindo fugir. O dia está ganho para ela e perdido para o leopardo.

O dia de hoje foi um bom dia para todos os cidadãos de bem. Aqueles que apostam na verdade, na punição aos ladrões, hoje podem dormir mais tranquilos. Mas o pé atrás sempre fica, pois 10% do congresso apenas foi pego. A vantagem no entanto, é que esses 10% são de ouro, é como só encontrar o chamado "ouro de tolo" no rio, mas no meio, quando todos os garimpeiros desistiram você encontra um veio verdadeiro de ouro.

Muitos políticos estarão dando festas nesses dias por escaparem da "lista da lava jato". Mas muitos também vão procurar cardiologistas, pois assim como a mídia fritou a Petrobras, vai querer comer espinha de sardinha desse caso. E eles sabem disso. Pior que a enfrentar a justiça é enfrentar a imprensa carniceira. Alguns políticos não aprenderam a lição, e mesmo sendo processados e punidos, voltaram e continuaram a fazendo arruaças.

Qual o próximo cenário previsto na teoria dos jogos? Um cenário é de caos total, com instabilidade completa do sistema. Isso pode ocorrer, visto que os dois presidentes do Congresso já estão se armando. O outro cenário da teoria dos jogos é a estabilidade, da convergência e do lucro ótimo alcançado pelo processo. Antes porém, muita volatilidade vai acontecer, pois os sensores estarão corrompidos e o sistema estará às cegas.

Mas tudo isso vale à pena. A teoria dos jogos diferencias também nos mostra que algumas variáveis desaparecem do sistema, e podem ser descartadas para uma solução confiável e duradoura. Assim esperamos com essas peças descartáveis chamadas de "políticos".

 

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