Quarta-feira, 31 de Agosto, 2011

 

Juros da discórdia

E a taxa de juros caiu! Relembrando um certo presidente que não deixou saudades, o BC deixou a esquerda perplexa e a direita estonteante no dia de hoje. Pela primeira vez foi contra a tal "expectativa inflacionária" do mercado. Já discutimos sobre as tais pesquisas junto aos formadores de opinião que o BC faz, em "Melindrosos da inflação". Usar as tais expectativas não ajuda a traçar cenário para o desenvolvimento do país. Conforme já comentamos os tais modelos adotam como hipótese absurda a tendência linear dos movimentos do mercado financeiro, da inflação, do PIB, enfim de tudo. Artigos e mais artigos podem ser encontrados na internet, e checado com os resultados pós-previsão, para se verificar que por diversas vezes a realidade dá uma rasteira nas simulações realizadas e nos estudos publicados.

Para não ficar apenas na crítica, nosso trabalho publicado na revista de Administração e Economia do Insper e reproduzido neste site ("A lógica nebulosa do Banco Central") é apenas uma das novas vertentes mundiais que podem ser usadas para tentar entender qualquer tipo de decisão nebulosa. A técnica advém da área de inteligência artificial, cujas ligações entre as variáveis, parâmetros e programações estão muito facilitadas nos dias de hoje. Por exemplo o toolbox fuzzy do Matlab possibilita ajustes bem fáceis entre diversos tipos de modelos nebulosos, sem se preocupar com retas de tendências tradicionais.

Agora que a taxa de juros começou sua queda, os analistas realmente mostram que não queriam que ela caísse, mas sim que só desse uma pausa para depois crescer ainda mais. Taxa de juros alta favorece discussões acaloradas contra esse governo, contra aquele governo, contra gastos, contra inflação e contra tudo. E geram renda alta para analistas que traçam cenários para empresários. Imaginem agora o enorme trabalho que essas empresas vão ter para refazer todos os cenários que tinham traçado com juros em ascensão. Quando a taxa cai em desacordo, as discussões são levadas a crer que a decisão foi arriscada, pois não está na cartilha de bancos centrais, que os juros devem cair quando as tais "expectativas inflacionárias" estão apontando alta. As expectativas não podem errar? Claro que sim, sempre erram. As tais pesquisas de opinião não podem errar? Claro que sim, opinião de analista de agências e fundos não dizem o que realmente fazem.

 

Mas por trás da decisão do BC, devemos relembrar e olhar para alguns indícios não revelados. Primeiro o lado positivo é que com essa queda, o verdadeiro crédito, o crédito real, começa a ser aplicado no mercado. Ao contrário do crédito subsidiado perigoso, como o dinheiro fácil que está sendo liberado para moradias, construções e para pequenos empresários, esse é um crédito bom. Claro que ainda é muito cedo, pois 6% de juros real (descontando a inflação) é algo ainda anormal. Mas se realmente a queda se acelera, juros de cartão de crédito, juros de cheque especial, juros para compra à prazo serão menores de verdade. Isso pode ser ruim para a inflação? Com certeza, pois nosso povo não tem a educação de ficar com dinheiro, esperar para comprar barato ou investir em algo sólido. Essa bolha de compras já está presente entre nós.

Então qual é o lado bom da história? É que realmente há uma crise séria e muito séria ainda não revelada que fará a inflação baixar. O ministro da Economia que sempre foi um otimista de carteirinha, de repente mudou o discurso após reunião com outros banqueiros internacionais. A presidente Dilma disse que o Brasil não escapará da nova crise. E na nota que o BC divulgou, menciona que como a crise lá fora vai piorar, as importações de produtos brasileiros vão diminuir, fazendo os preços internos caírem. Então, se a crise é tão séria a ponto de reduzir os preços por si só, e se realmente o BC se antecipou para não deixar o mercado brasileiro sentir, isso é muito bom. Quando a crise acontecer (se acontecer), e se o BC baixar os juros mais rápido podemos sofrer pouco.

Taxa de juros Selic (gráfico UOL, fonte BC)

Inflação no Brasil (gráfico UOL, fonte IBGE)

Qual é o lado ruim? Tem uma crise e tanto se desenrolando e secretamente lá fora. E o problema é quando esses tipos de crise estouram, mesmo que o BC queira acelerar a queda de juros, a resposta é lenta até chegar no consumidor.

E por que o BC acha que a crise vai piorar? Os dois maiores bancos da Grécia se uniram e o mercado aprovou. Na verdade eles se uniram, pois com certeza um deles não estava aguentando mais. Já vimos isso aqui no Brasil.

O Bank of America agora está sendo processado a devolver US$1,75 bilhões por grupos que trabalham com hipotecas. O mesmo banco hoje divulgou que quer se desfazer de uma unidade de negócios com hipotecas numa tentatitva de evitar mais perdas. No segundo trimestre as perdas foram de 14,5 bilhões de dólares. Se o maior emprestador dos EUA não está aguentando as perdas, quem suportará? Existe uma pressão ainda não explicitada sobre o Bank of America e não tão bem explicada. Eles estão sendo cobrados de vários lados e vender é a solução que encontraram para reforçar o caixa.

 

Os analistas de mercado esperavam mais de 100 mil novos empregos no setor privado hoje, mas os dados desanimaram com 91 mil novas contratações. Na verdade, 100 mil ou 90 mil não resolvem a situação de desemprego grave que vive os EUA e por isso o presidente Obama fará um discurso na semana que vem para apresentar seu novo plano gerador de empregos (pelo menos é o que se espera).

No Brasil a projeção de PIB está caindo a cada nova estimativa, a indústria está fabricando com velocidade menor e do ponto de vista da agricultura os grãos serão afetados pela forte estiagem do Mato Grosso e enchentes no Sul. Mais empréstimos serão necessários para os agricultores honrarem seus contratos. O lado bom é que o desemprego no país é o mais baixo da história, mais baixo do que os países desenvolvidos.

Portugal hoje anunciou que poderá não cumprir algumas metas estabelecidas quando recebeu o empréstimo da União Européia. Segundo a Bloomberg nossa Eletrobras poderá comprar parte da distribuição de energia de Portugal. Os serviços de trem serão privatizados e mais serviços estão a procura de compradores ou tercerizações como os correios portugueses. E com todo esse cenário, a Alemanha começa a ser vencida e poderá se entregar aos gostos de seus vizinhos. Estão pressionando a Alemanha para aderir à idéia da criação de bonus das dívidas dos países em Euros, uma idéia que Angela Merkel sempre foi contra.

Esse é o cenário que o BC desenhou para baixar juros? Talvez sim, mas nunca se tem certeza. Especulações agora falam que acabou a independência do BC. Quem diz isso são os mesmos que um dia atrás diziam que o Brasil deveria baixar os juros o mais rápido possível. Outros falam em aposta do BC na austeridade federal e legislativa, ou ainda em "voto de confiança" no governo.

O fato é que enquanto Japão tem juros zero, EUA tem juros entre 0% e 0,25% até 2013, nossos 12% de juros precisam de queda vertiginosa para a economia real se manter em caso de crise. Engano achar que apenas juros alto controla inflação. Nossa educação em não comprar produtos com preço exorbitante é que faz a inflação cair. Quando não houver demanda para produto caro, o vendedor tem que baixar o preço. Temos que desacostumar a solução mais fácil que é deixar na mão de terceiros (no caso o BC) a solução para problemas econômicos. Qualquer que fosse a decisão do BC haveria discórdia e então optaram pela discórdia de Forecasting (previsão). Se eles vão acertar ou errar, Setembro dirá.