Sábado, 29 de Setembro, 2018

 

Juros Perigosos

"O presidente Trump está sendo o melhor presidente para os EUA".

Foi assim que um analista de um grande banco de investimentos americano começou sua entrevista junto ao canal Bloomberg Internacional. Como sempre a unanimidade e conceito de "bom" ou "ruim" é muito relativo. Para essas pessoas que trabalham apenas com dinheiro, apenas com a relação entre telas de computadores, gráficos e tabelas, realmente Donald Trump pode estar parecendo ser um sucesso.

Mas eles se esquecem que tudo isso foi resultado do governo Obama, que reorganizou nos seus dois mandatos toda a economia americana, mas não conseguiu colher os frutos a tempo. Sobrou para o bonachão do Trump, um presidente que demite seus próprios assessores em média a cada duas semanas.

Como ele não interfere em nada na rotina dos bancos, para eles está tudo muito maravilhoso. Enquanto Trump se preocupa em bater boca no twitter, ameaçar países, investir em brigas e escândalos que só prejudicam a sociedade dos EUA, para os bancos está ótimo.

Uma frase importante que circulou em todos os lugares foi quando um dos banqueiros disse ao presidente do FED em 2008: "O parque de diversões estava ótimo, mas vocês nos deixaram brincar demais".

É isso, quando se está num brinquedo com toda a adrenalina disparada nas veias, é impossível ver o perigo do cinto que não está bem amarrado, do parafuso do brinquedo estar solto, da cadeira estar girando mais rápido do que deveria e assim por diante. Quem está no meio do perigo, não enxerga o perigo.

E para quem não descansa em olhar qualquer mudança e chance de lucro, taxa de juros e cotação de moedas são atrativos imbatíveis. Bastou o banco central dos EUA, o Federal Reserve (FED), iniciar seus aumentos na taxa de juros para o mundo começar a balançar. Taxa de juros maior nos EUA, mesmo que ao redor de 2,5% é muito melhor do que ações do terceiro mundo ao redor de 20%. No terceiro mundo, o qual nos incluímos, o risco de calote é maior do que os lucros.

O Brasil já deu calote internacional com José Sarney, que fez isso para ganhar confiança da população sobre seu Plano Cruzado. Foi um erro doloroso e tudo deu errado. A Argentina fez o mesmo no fim de 1998 e depois novamente nos anos 2000. Está patinando há quase 20 anos e não consegue se reerguer.

A relação entre taxa de juros dos EUA e resto do mundo é interessante. Se a taxa cresce, as pessoas começam a comprar mais títulos americanos e começam a sair das bolsas. Se a taxa diminui, em busca de lucros maiores, as pessoas correm para as bolsas. Elaboramos o seguinte gráfico para retratar a comparação entre taxa de juros do FED (a esquerda no gráfico) e a bolsa medida pelo S&P500 desde 1987 (a direita no gráfico).

O que podemos observar é que a queda na taxa de juros impulsiona o S&P500 (apenas um exemplo, pois isso acontece com todas as bolsas) que volta a cair quando a taxa de juros volta ao processo de queda.

Claro que a relação não é direta ou imediata, pois no mundo real outros fatores influenciam o comportamento dessas variáveis. Em 1997 o presidente do FED Alan Greenspan criou a frase "o pouso suave da água", para denominar que a taxa de juros subiria lentamente para forçar a parada das bolsas.

Na visão de Greenspan, o mercado americano estava "insano" e precisava parar. Ele gostava de frases de efeito e criou outra para o mercado financeiro: "Exuberância irracional", segundo ele.

Como pode ser visto acima, o FED subiu lentamente a taxa de juros, mas o índice S&P500 não respondeu de imediato e continuou subindo. Esperava-se que ele parasse com as iniciativas de alta na taxa de juros. Mas isso não aconteceu entre 1997 e 1998.

Foi só quando a taxa chegou a 6% ao ano que o S&P500 sentiu o impacto e começou a cair. E para piorar, aconteceu o que ninguém previa: o atentado de 2001 em Nova Iorque no World Trade Center.

Todas as bolsas ao redor do mundo caíram e demoraram a se recuperar. Quando o FED acordou para diminuir a taxa de juros, o estrago estava feito. E com velocidade impressionante o FED derubou forte a taxa de juros e valorizou bancos que criaram os tais papéis atrelados a hipotecas, ou os chamados títulos podres da "casa própria". Foram facilitados os créditos e empréstimos para a realização do "sonho americano" da casa própria.

E mesmo estando com taxa de juros baixa, o S&P500 e todas as bolsas não resisitiram ao impacto de 2008 e desabaram. Isso mostra o quanto o mercado financeiro é sensível com altas ou baixas das taxas de juros.

Só para verificar o quanto é sensível, criamos os retornos brutos da taxa de juros americana. Ou seja, fizemos a diferença diária dessa taxa para compararmos com o S&P.

Como pode ser visto no gráfico azul, quando as oscilações tanto para baixo quanto para cima, são mais frequentes na taxa de juros, isso acelera a velocidade da bolsa de valores.

Em tendência de alta, essa alta se reforça com as manipulações da taxa de juros. Quanto mais "nervosa" essa manipulação, mais a bolsa dispara.

No entanto, se a bolsa estiver caindo, a manipulação da taxa também faz a bolsa aumentar a velocidade de queda. Isso pode ser visto ao lado em duas ocasioões.

Na queda de 2000 a 2001 vemos a aceleração da queda do S&P e depois em 2008 quando houve a tentativa de zerar rápido a taxa de juros por causa da crise, mas isso ao invés de melhorar, apenas piorou a queda da bolsa.

Agora estamos vendo o S&P em seu recorde e o começo das manipulações mais frequentes do FED, aqueles "pontinhos" mais "rabiscados" à direita do gráfico em azul.

Se olharmos para o passado, isso não é bom. Como está em seu máximo valor, talvez mais alguns aumentos, vão criar a percepção de lucros mais seguros com os títulos fazendo investidores pesados diminuírem suas posições no S&P.

 

Retorno dos Juros x S&P500

 

 

 

Comparação entre retornos do S&P e taxa de juros

Comparação entre retornos do Ibovespa e taxa de juros

 

Só para deixar mais clara a visualização, usamos ao lado a comparação entre os dois retornos. Deixamos um pouco mais transparente a curva de retorno para o S&P500.

Na parte de trás do gráfico, deixamos o retorno anterior da taxa de juros. É possível agora ver como o mercado é sensível a qualquer ajuste dos juros.

Um momento bem claro que podemos ver ao lado foi em 2008. A taxa de juros oscilou rapidamente o que fez o S&P variar de -100 pontos a 100 pontos em poucos dias.

Agora, mais para a parte direita do gráfico, vemos uma nova e constante oscilação do S&P. E podemos ver na parte de trás, exatamente as alterações mais frenéticas na taxa de juros dos EUA.

A taxa de juros não é fixa, ela está em banda de oscilação desde a crise de 2008. Hoje está variando entre 2% a 2,25%. Na última cotação do banco de dados ao lado estava em 2,18%.

E essa frequência rápida de oscilação pode levar, imperceptivelmente a maiores oscilações no S&P.

E nós, o que temos com isso?

Muito, muito mesmo. Quando a taxa de juros sobe nos EUA, o investidor externo que está na Bovespa começa a vender suas ações, Opções ou títulos e corre para comprar posições mais seguras nos EUA.

Ou mesmo dentro das bolsas americanas, já sabendo que também elas podem responder com altas, quando se percebe que a alta é uma técnica boa para combate de inflação.

Outro cenário pode ser o investidor sair da Bovespa , para comprar índices no mercado futuro, ou ainda, moedas lá nos EUA.

E quando isso ocorre, nos dias atuais em questões de segundos graças as conexões ultra-rápidas, todas as bolsas sentem rapidamente.

Nos tempos atuais não é como antigamente que a decisão do FED demorava um mês para nos atingir.

Isso já afeta de imediato as posições de todas as ações no mercado do Brasil. Então, decisões lá, mexem com nossa economia aqui. E às vezes ainda mais forte do que as decisões do Banco Central do Brasil.

 

Os mercados do mundo inteiro estão em seus recordes históricos. No passado, nunca o mundo se saiu bem quando as máximas históricas foram renovadas. Na crista de um monte de areia, qualquer grão, por menor do que seja, causa uma avalanche. Com exceção dos EUA que tem uma taxa de desemprego realmente em declínio, no resto do mundo as bolsas em alta não refletem uma boa economia.

A boa economia deve impulsionar as bolsas de valores, com retornos reais, com circulação forte de dinheiro, com produção e consumo compativeis com a renda do país. Isso não acontece há muito tempo no Brasil, mas o Ibovespa já passou de seu recorde histórico como se o país tivesse saído da crise, o que não aconteceu.

E como já anunciou o FED, ainda teremos outros aumentos de juros nos EUA nesse ano de 2018. Vamos apertar os cintos, os balanços vão ficar mais fortes daqui para frente.