
Terça-feira, 10 de Maio, 2011
O fantástico legado das teorias
A cafeteria estava lotada, com uma garoa fina e constante na Cambridge de 1684. Era uma boa cafeteria onde no final da tarde os amigos se encontravam para discutir política, governo, dinheiro e ciência. Em Cambridge ciência era uma das preocupações e discussões de cafeteria no século XVII. Fazia tempo que Halley não conversava com seu amigo Isaac Newton e tinha marcado com ele tomar um bom café e um chá para uma conversa descontraída. Halley era astrônomo prático, do dia-a-dia de observações em telescópio, preocupado em apontar e achar planetas e cometas. Newton já era conhecido pelo seu potencial matemático e considerado um teórico. Diferente dos tempos atuais, um teórico era bastante respeitado e levado a sério. Depois de falarem sobre os assuntos corriqueiros, de colocar as pautas de amigos em dia, Halley e o arquiteto Christopher Wren (1632-1723) que estava junto na cafeteria, comentaram que tinham deduzido a lei de Kepler sobre o inverso do quadrado da gravidade, mas ambos estavam desapontados pois, além de incompleta estava imprecisa. Planetas não eram perfeitamente encontrados nas posições calculadas. Eles estavam bastante envolvidos nesses cálculos praticamente todos os dias durante alguns anos, cada hora do dia dividida entre cálculos e telescópios.
Essa e outras histórias entre previsão com dados e teoria podem ser lidas no excelente livro de Mario Livio " Deus é Matemático? ". O livro é um passeio leve pelas origens das diversas áreas da matemática sob o aspecto não contado pela história dos livros tradicionais. Vai desde o pensamento matemático antigo promovido pelos filósofos até o pensamento matemático do século XX passando pela criação da Estatística. Nessa linha cabe-se discutir por que as análises erram tanto? A figura a seguir é uma comparação entre as diversas projeções feitas pelo mercado de eletricidade americana e o que realmente aconteceu. As projeções deram todas erradas visto que não usaram teorias corretas, mas apenas tendências. Nos dias de hoje isso é tão simples que basta apertar o botão direito do mouse no Excel e escolher para adicionar tendências. Parece moderno, mas tem 300 anos! Se tivessem usado tempo para pensar e pesquisado entre os teóricos os melhores modelos, gastos desnecessários de previsão seriam evitados. |
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Você faz MBA? Não faz mas quer fazer? Ainda está pensando e já ouviu falar? Fora do Brasil, os alunos reverenciam os professores de MBA, os chamam de mestres e ouvem com avidez as palavras de alguém que é teórico. É só assistir as aulas no youtube. No Brasil, alguns alunos que fazem esse tipo de especialização acham que MBA é apenas para eles mostrarem o que sabem e não para ouvirem. Certos alunos mostram arrogância e desprezo mesmo quando são expostos ao ridículo. Alguns alunos brasileiros que são do mercado acham que já sabem tudo, visto que possuem dados e os professores são somente teóricos que não estão acostumados ao mercado. Santa ignorância. Para se dar aulas no MBA um professor deve ter doutoramento e se ele tem, um aluno deve saber que isso significa anos luz de distância sobre qualquer banco de dados que ele venha a possuir. Certo, alguns vão dizer que é exagero uma vez que usam ferramentas bem avançadas. Por exemplo, certa vez uma pessoa do mercado se transbordou de orgulho por dizer que sua firma usava filtro de kalman para estimação on line dos preços e volume do mercado (veja o que é filtro de kalman). E que acertavam mais do que qualquer cálculo aprendido na academia pois, trabalhavam com altas frequências, batendo o mercado o tempo todo. Quando foi perguntado qual tipo de filtro de Kalman tinha usado a pessoa ficou em silêncio. Isso porque dependendo da técnica, se você usar um modelo errado com ruído alto, você apenas gera e enxerga ruído e não estima nada. Como gráfico e dados de ruído lembram muito dados de ações e opções com alta frequência, as pessoas que ficam na frente da tela estão olhando para "chiado" e não para previsão. Infelizmente os retornos positivos foram pura sorte pois, quando o mercado virou em 2008, sua firma faliu. Mas a "Sua entidade O Mercado" nunca reconhece que está errado e sempre diz que errado são os teóricos. Uma frase dita nessa semana por um professor de MBA nos tocou muito. Ele reclamava da falta de respeito pelos alunos dos MBAs, pelo deprezo, pela teimosia em achar que sabiam mais que ele (Mestre, Doutor, trabalhou no mercado por 20 anos). Então ele disparou: "Aluno brasileiro de MBA só terá respeito quando seu chefe de trabalho for o professor". Muito profunda e triste a afirmação do renomado professor. Talvez fossse um exagero, talvez não, o fato é que não é porque você está enrolado no meio de dados e consegue resolver alguns problemas que lhe parecem complicado, que você sabe mais do quem faz como instrumento de seu trabalho o pensamento. Isso não é uma deficiência da pessoa que está no mercado, é apenas o tempo que lhe falta. Logo, nada mais justo em avaliar com seriedade, o que estão enxergando aqueles que estão de longe, olhando o todo e não apenas as partes. Reclamar de alunos não é novidade, visto que o próprio Aristóteles reclamava de seus pupilos, da falta de interesse pelo estudo, da falta de vontade em buscar soluções e assim por diante. Mas o mundo evoluiu graças ao pensamento e não graças aos dados. Os dados obviamente que ajudam e complementam o pensamento, mas o raciocínio lógico é nossa melhor tecnologia, ainda imbatível por qualquer computador. Pensar antes de falar é interessante, e respeito às teorias pode ser a diferença entre perder e ganhar no mercado financeiro. |
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