Sábado, 21 de Janeiro, 2012

 

A lei dos políticos

Vamos por partes. Entenda-se aqui que político não são apenas aqueles ligados à partidos, deputados, senadores ou governadores. Político é todo aquele que faz política, seja ela de boa vizinhança, seja de bom comportamento, seja para se tornar chefe, conselheiro, enfim, o político usa de seu relacionamento para conseguir algo almejado. Infelizmente a classe política de governantes deturpou toda a ciência da política e tornaram o que eles fazem "politicagem" da pior espécie. Isso não é de agora e vem desde os senadores romanos, corruptos e desonestos que nós, como descendentes políticos acabamos herdando, e claro, aperfeiçoando.

Na semana em que se inicia a reforma ministerial, muitas pessoas criticam as trocas de nomes no ministério da presidente Dilma. Alguns nomes escolhidos sem expressão, outros desconhecidos e a pergunta que apareceu em diversos sites de jornalismo era: por que alguns nomes estão lá? A desculpa para alguns nomes é que são "técnicos" ou "tecnocrata". Isso é uma ofensa para os técnicos verdadeiros, que trabalham em sua profissão diária.

A pessoa que ocupa um cargo político não é porque ela foi um técnico exemplar, ou um professor exemplar, ou um engenheiro exemplar. Esses cargos são ocupados por quem não gosta de trabalhar naquilo que se formou. É bastante conhecido de todos, não apenas em órgãos públicos, que as chefias e diretorias são ocupadas por pessoas que abandonaram a verdadeira arte em que foi treinado e resolveu se associar a idéias e pregar ideais em "prol do bem dos companheiros".

Existem excessões, é claro, mas na grande maioria esses técnicos que assumem cargos políticos em empresas e órgãos públicos são ou foram bastante limitados naquilo que faziam. Então, para sanar sua incompetência no trabalho e continuar justificando o salário, encontrou na política seu porto seguro. Uma das excessões foram alguns médicos que ocuparam o ministério da saúde, com excelência em ensino e pesquisa. Ou então engenheiros que ocuparam ministério das Minas e Energia, ou mesmo alguns economistas em décadas passadas que ajudaram ou ocuparam o minstério da Fazenda. Tivemos exemplos desse tipo de profissional, que no entanto, acabou não fazendo um bom trabalho na frente política, pois não entendeu o funcionamento burocrático. Os bons profissionais que desempenharam papel quase insignificante à frente de algum órgão do governo ou mesmo de empresas não entenderam que a lei que rege esse meio é a Lei da Potência. Já escrevemos aqui sobre a melhor lei contra fraude (vide "A melhor lei contra a fraude"). Também já apareceu em nossos textos a Lei da distribuição de probabilidades que rege boa parte de nossos atos, menos a bolsa de valores (vide "Por que o mercado financeiro não é normal?").

 

A Lei da Potência é um avanço no entendimento do padrão de comportamento humano e pode ser representada pelo gráfico ao lado. A curva começa no alto do eixo vertical e vai caindo ao longo do eixo horizontal. A interpretação é que "muitas pessoas (eixo vertical) tem poucos conhecidos (eixo horizontal)". E a medida que você vai descendo a curva, pode-se perceber a diminuição do número de pessoas no eixo vertical. Então surge a outra interpretação: "poucas pessoas tem muitos conhecidos".

Essa é a lei dos políticos, ou seja, o político de sucesso (não significa o honesto) é aquele que conhece muita gente em quem se "pendurar". E esse tipo de gente são ínfimos perto da grandeza da nação. Num país de 180 milhões de habitantes, não deve passar de 200 mil políticos ligados ou não a partidos que sempre estão no poder. Mas o que mantém essas pessoas, além claro, de sua eloqüência, de falsos sorrisos, seus tapinhas e piadas?

 

 

Redes livre de escala de Barabási

 

 

Seis graus de separação - Duncan J Watts

 

O que mantém essas pessoas são as redes de conexões, hoje com nome "moderno" de redes sociais. Os políticos que nunca saem do poder são nós de redes, com ligações em diversos ramos intrínsicos do governo, ou mesmo dentro de empresas. O diretor de uma empresa muitas vezes chega ao topo máximo não por sua excelência no trabalho, mas sua excelência em atender pedidos do dono, de sempre estar concordando com o patrão e sempre disposto a "ajudar" sob qualquer condição.

Estudar padrão de comportamentos e eventos é matéria antiga na humanidade (vide "Se as borboletas falassem..." e "Observando o Todo"). Mas estudar o comportamento de um político sob o ponto de vista da teoria de redes é muito interessante e prático. Essa pessoa é um nó de conexão na rede, e o número de pessoas que a conhecem lhe fornecem o "grau" de conexão. Um bom político é aquele que possui o maior grau dentro da rede. Quanto mais ligações com pessoas e informações de todos os tipos, mais ele crescerá na carreira.

A figura ao lado mostra um exemplo de rede com três nodos mais ligados do que os demais. Ao contrário do que se espera e muito se comenta das chamadas redes sociais, elas não são aleatórias. As redes sociais respeitam a Lei da Potência, onde poucas pessoas tem muita conexão e muitas pessoas tem poucas conexões.

Essa descoberta foi feita por dois pesquisadores em 1999, os pesquisadores matemático-físico Barabási e Albert. O modelo dessas redes é amplamente divulgado nos meios de pesquisa de redes como "modelo de Barabási". Parece uma simples constatação, mas isso mudou a teoria de estudo de redes.

Uma discussão bem "leve" do assunto pode ser encontrada no livro de Duncan Watts "Seis graus de separação".

 

Até a descoberta de Barabási, a teoria de redes era toda desenvolvida em cima de nós fixos, com estatísticas das ligações para estimar tamanho da rede e sua segurança. Barabási ao contrário, percebeu muito antes do facebook, que as redes reais vão crescendo e diminuindo ao longo do tempo. Os nós aparecem e vão embora conforme o modismo. Por exemplo há muito tempo atrás o memetismo ou bordão de internet era uma frase da apresentadora Xuxa, que tinha mandado uma menina sentar e sair da frente das câmeras: "Senta lá cláudia"(youtube). Todo mundo (com menos de 30 anos) repetia esse bordão.

Depois veio o bordão do "poney maldito"(youtube) graças a uma propaganda de automóvel. O bordão mais recente é a música do sertanejo Michel Teló e "Luiza está no Canadá" em referência de uma frase postada no facebook. Assim como nasce, esse nó acaba desaparecendo, pois está regido pela Lei das Potências. Traduzindo, poucas manias realmente duram muito e muitas manias duram pouco. Ambos vão cair no esquecimento dentro de mais um ou dois mês, até aparecer a próxima mania.

O fato é que a rede descoberta por Barabási é conhecida como Rede de Escala Livre, e isso sim é um avanço extraordinário na compreensão de nossos padrões de comportamento. Como os nós aparecem e desaparecem, com ligações sendo feitas e desfeitas, as aplicações não param de se mostrar. Um exemplo está no estudo de doenças, como a gripe aviária ou a gripe suína, onde os nós são pessoas infectadas que se relacionam e passam a gripe para outros "links" da rede. Ou ainda aplicação para a rede da Aids, ou ainda para a rede terrorista que atacou os EUA no 11 de Setembro.

Como sempre dizemos, a ciência está anos-luz na frente de facebook, orkut e telefone celular. O estudo desse tipo de rede mostra que elas são excelentes para barrar invasões em muitos nós, pois esses nós, pela Lei da Potência tem poucas ligações importantes. Mas, e tudo tem um "mas", são frágeis. Daí o termo "rede robusta, mas frágil". Também graças a Lei da Potência, se o nó com muitas ligações é atingido, toda rede se desfaz. O governo americano agora está de olho nos poucos nós muito conectados na internet, como facebook, google, yahoo entre outros. Estão querendo passar duas leis contra a pirataria, e o FBI e CIA já detectaram os pontos chaves para aplicar a lei de pirataria.

E graças a Lei das Potências, os EUA praticamente desintegraram a rede terrorista, pois quando o líder foi pego, todas as conexões foram desfeitas. Enquanto terroristas dos nós externos eram presos, a rede continuava a se desenvolver, pois o grande link estava oculto. Outro exemplo é de Kadafi, super protegido, que era um nó com muitas ligações. Quando ele caiu a rede se desfez na Líbia. Bastou capturar e matar Kadafi que a rede terrorista ligada a Libia se perdeu completamente sem referência.

Sabendo da lei, o FBI cansou de tentar aprisionar servidores e fechar localidades nos EUA, acusados de pirataria e de invadirem bancos e órgãos do governo. Aprisionou o dono do maior site de downloads piratas e toda rede que parecia grande e dispersa, também se desfez. Os nós da rede, em todos os países do mundo se romperam e praticamente os downloads de filmes estagnaram. Mas não para sempre.

A mesma arma está com os hackers, que vão agir em grupos desordenados mas amplamente ligados por alguns nós importantes. O problema é que esses nós importantes (que são poucos) são ainda desconhecidos. Já derrubaram sites de diversos órgãos do governo dos EUA, do Brasil e do resto do mundo, inclusive da grande rede Citigroup (vide "Hackers invadiram Citigroup"). Por que isso é perigoso? Porque o controle de todas as armas nucleares do mundo são feitos por computador, e invadir um computador é muito fácil hoje em dia. Então, a guerra e contra-guerra da pirataria nem começou ainda. Ou ainda, o controle de nossos cartões de crédito, ou ainda do mercado de ações. Acha impossível invadir a Nasdaq ou Ibovespa? A Nasdaq já foi invadida no ano passado, com danos pequenos corrigidos a tempo.

 

Quanto aos políticos, os nós são muito bem coordenados e um governo que tente governar sem eles não dura, pois esses nós se comportam como grupos isomorfos (já comentado no texto "Grupos Isomorfos"). Quando surgir algum governante querendo desfazer desses nós sob a Lei da Potência, será acusado de ditador. Governar sem esses nós é impossível em qualquer país do mundo. Para resolver o problema da má governabilidade, o governante inteligente deveria escolher "todos" os nós importantes com pessoas realmente sérias. Não basta colocar apenas um ou dois nomes importantes e sério dentro do governo. Como serão nós com muitas ligações, quando eles caem o governo cai junto, graças a Lei da Potência.

Mas a palavra inteligente também obedece a Lei da Potência, e essa palavra não se aplica à classe política, principalmente no Brasil. Logo, todos vamos continuar vivendo sob a rede de escala livre, com os nós políticos de grandes ligações criando leis que servem apenas aos seus própios propósitos, em detrimento da grande maiora da população. Esse é o lado negro da Lei da Potência para os simples cidadãos.