Quinta-feira, 30 de Julho, 2015

 

A nova arma da China: leitura

"Se você falar com um homem na linguagem que ele compreende, isso entra da cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração". Essa frase é de Nelson Mandela e reflete sua compreensão para vencer o regime de racismo que existia na Africa do Sul. Da mesma maneira, outros líderes pregaram a vitória não com forças armadas, mas com palavras e atitudes que desconcertavam os poderosos. Por exemplo Mahatma Gandhi, com sua luta pacífica para destruir o domínio dos ingleses na India.

A disciplina chinesa imposta durante séculos de ditatura, desde os impérios até a modernidade, parece que também captou essa compreensão em disseminar suas ideias na linguagem do Ocidente. E se hoje recebem críticas por seu domínio no mercado financeiro mundial, podemos esperar ainda mais da China em todas as áreas. Na área espacial eles já demonstram desenvoltura, enviando uma cápsula espacial para a Lua e viagens de astronautas ao redor da Terra.

E o novo "ataque" chinês é na leitura. Ninguém no mundo está fazendo mais downloads de artigos científicos do que os chineses. Eles estão baixando artigos em velocidade alucinante e tentando replicar tudo o que é publicado pelo Ocidente. Muitas vezes replicam errado, e suas revistas ainda estão muito aquém de ter impacto na Ciência. Mas é só uma questão de tempo, de tentativas começarem a dar certo para eles ultrapassarem também em número de citações.

Todo pesquisador deseja que sua descoberta seja citada, seja referenciada por outros colegas de diversos países. Essa citação é um selo indireto de seriedade do trabalho e de que alguém desconhecido em outra parte do mundo conseguiu repetir sua ideia apenas lendo o que foi escrito.

Longe dos tempos em que todos eram obrigados a ler o "livrinho vermelho" de Mao Tsé-Tung, com os discursos do ditador da China, escrito em 1964, os chineses estão lendo e escrevendo em inglês. Talvez para atingir o coração do Ocidente, talvez para demonstrar que estão preparados para a guerra do conhecimento, mas sobretudo, para divulgar como eles pensam.

Um artigo interessante da Research Trends ("Article downloads: An alternative indicator of national research impact and cross-sector knowledge exchange") expõe de modo fácil e gráfico, como a pesquisa em diversos países se comporta do ponto de vista de downloads e citações até o ano de 2012. Por exemplo, para o Reino Unido (UK) e EUA (USA) os gráficos são os seguintes.

A compreensão desse gráfico é fácil. A linha azul escura mostra o percentual de citações dos artigos, a linha azul clara mostra o percentual de downloads dos artigos e a linha tracejada a média mundial para as duas taxas. Nesse caso, pode-se perceber que tanto Reino Unido quanto os EUA são mais citados do que fazem downloads. São pesquisas de ponta, que não precisam ler muito o que existe fora de seu nicho, mas produzem muito a ponto de serem reconhecidos por outros pesquisadores. A linha azul clara está interna à linha azul escura.

O caso Russia e Japão são diferentes. A Russia no gráfico à esqueda da figura abaixo, tem a linha azul escura interna à linha azul clara. Isso demonstra que até 2012, os russos faziam mais downloads do que eram citados, mas em quantidade próxima da média mundial. A linha azul clara da Russia está sempre próxima da linha tracejada que indica a média mundial. Pode-se observar algumas discrepâncias, por exemplo na área de humanidades e negócios. Os russos baixam muitos artigos sobre essas áreas, mas o resultado de sua pesquisa é baixo a ponto de ter citações muito abaixo da média mundial.

No caso do Japão pode-se reparar o equilíbrio, com taxas iguais e em todas as áreas. Os japoneses baixam dentro da média mundial e são citados de maneira homogênea por outros pesquisadores. A França foi potência no século XIX e início do século XX. Mas deixou de ser grande potência em ideias cientificas, com algumas áreas possuindo citações muito abaixo da média. No entano, é possível ver no gráfico à seguir que ainda são muito citados e importantes em Engenharia, Física e Biologia.

Já a Alemanha é citada bem acima da média em todas as áreas de conhecimento científico. Os downloads dos pesquisadores alemães estão dentro da média mundial.

E então chegamos a China e Brasil. No gráfico ao lado podemos ver que somente uma área de conhecimento tem citações acima da média para a pesquisa brasileira. A Matemática. Não é por acaso que agora temos um brasileiro (Artur Avila, 35) que ganhou o prêmio máximo da Matemática, a Medalha Fields.

Temos uma qualidade reconhecida internacionalmente sobre nossos artigos em Matemática. Mas não temos quantidade, não temos mão de obra ativa e a distribuição desse conhecimento é desigual.

Nossas crianças estão entre as piores do mundo em termos de conhecimento matemático. Mas temos alguns redutos que conseguem ganhar prêmios, como os garotos que ganharam a Olimpíada de Matemática Mundial nesse ano.

Culpa de quem esse erro na distribuição do conhecimento matemático? Políticos!

Mas no gráfico ao lado, chegamos ao ponto central desse texto. Observando o gráfico da China, é possível perceber a descomunal taxa de downloads dos chineses nas áreas de Ciências Clínicas, Humanidades, Negócios, Ciência Social e Engenharia.

Ao contrário dos países do Ocidente, eles estão usando a internet para se aprimorar e não apenas importando professores para reter conhecimento.

Também não estão apenas enviando alunos para estudar nas grandes universidades, estão buscando todo qualquer tipo de informação, obviamente alertadas pelos "espiões" alunos.

Claro que "espiões", nesse caso, é no bom sentido, uma vez que esses estudantes são em sua grande maioria pobres, morando de maneira miserável onde estudam, com o objetivo de se formar rápido e levar informação para seu país.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um fato que nos deixou bastante curioso sobre esse avanço na leitura dos pesquisadores chineses, foi o cálculo nos enviado pela Elsevier sobre um artigo que publicamos no ano passado.

Publicado em 18 de Outubro de 2014, nosso artigo "An autocatalytic network model for stock markets", onde mostramos uma nova metodologia para observar variações dos mercados financeiros através de redes autocatalíticas, teve até o presente momento 306 downloads (figura ao lado).

Essa taxa de download é bem interessante e demonstra que o artigo tem algum apelo de novidade para a comunidade internacional. Mas quando observamos a estatística de downloads, observamos que o assunto foi de interesse de 43% de chineses dentro todos que acessaram a revista.

O segundo país com mais visualização foi os EUA, com apenas 8%. Pesquisadores brasileiros foram apenas 6%. Dos 306 acessos, 132 interessados eram chineses!

Isso é apenas uma amostra, de um pequeno trabalho brasileiro, mas que demonstra bem a realidade encontrada pelo artigo da Research Trends. Os pesquisadores chineses estão "atacando" o mundo todo em busca de informação e tentam replicar o que leêm.

Essa taxa de downloads deve ser ainda maior para artigos de revistas mais impactantes como Nature ou Science. Os chineses estão com apetite extremo para aprender, ler e publicar.

É comum na comunidade cientifica, todo mundo relatar os incansáveis e-mails de pesquisadores chineses, convidando professores para enviar artigos para suas novas revistas.

Congressos de pesquisa na China existem praticamente um novo a cada dia em diversas áreas de conhecimento. Com o remodelamento das cidades e universidades, convites aparecem todas as semanas para apresentação de trabalhos. Os pesquisadores chineses estão interessados numa interação massiva com o Ocidente.

O que não sabemos é qual o verdadeiro interesse para o assédio. Se for para conhecimento, isso é saudável e motivante para a comunidade científica. Mas será que não existe alguma pressão do governo chinês para isso ocorrer? Será que os professores do Oriente tem apenas a Ciência como objetivo, ou o governo "Vermelho" os pressiona para avançar a qualquer custo pelo Ocidente?

O fato é que, por iniciativa própria ou obrigatória, os resultados estão aparencendo em todas as áreas. Quem não se lembra da Olimpíada chinesa, com seus parques esportivos e o glorioso estádio "Ninho do Passsáro"? E não é só em Engenharia que os resultados aparecem.

Na Astronomia Chinesa, essa semana foi divulgada a notícia da construção do maior radiotelescópio do mundo. Vai deixar o radiotelescópio americano de Arecibo (Porto Rico) bem pequeno. Esse novo radiotelescópio terá a extensão de 500 campos de futebol.

A China tem muitas armas, inclusive a atômica. Mas a maior arma do momento é a leitura de tudo que se faz no mundo. Em breve, e muito em breve, o Ocidente vai acabar se curvando aos pesquisadores chineses, caso essa velocidade não seja acompanhada pelo resto do mundo.

Se no Brasil, a chamada "pátria educadora", os políticos não reverterem essa situação de caos no ensino, em breve vamos todos ter que aprender Mandarin, e nosso coração será atingido e esfacelado pela falta de nosso conhecimento.

 

 

 

Gostou do texto?

FAÇA UM DONATIVO PARA O SITE

(R$ 2,00 ; R$ 5,00 ; R$ 10,00 )