Terça-feira, 13 de Janeiro, 2015

 

A expressão "Liberdade de Expressão"

Entre 1969 e 1991 o semanário brasileiro O Pasquim caracterizou-se por um lugar de críticas ácidas importantes frente à ditatuda militar. Seus cartunistas e fundadores foram perseguidos, mas mesmo assim o semanário resistiu saindo de uma tiragem semanal de 20 mil exemplares para 200 mil exemplares. Os cartunistas brasileiros gostavam de cutucar generais, políticos e igreja.

Na época mais dura da ditadura militar, bancas que vendiam O Pasquim começaram a sofrer incêndios e os desenhistas foram sendo um a um presos ou obrigados a se esconder da repressão. Nascido de uma ideia entre o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, o grupo ainda contava com colaboradores como Henfil, Paulo Francis, Glauber Rocha entre tantos outros.

Todas as semanas os fãs ficavam esperando qual seria a acidez semanal e quem seria o atacado nas piadas da esquina. Por exemplo, o semanário criticou a censura da igreja para o uso de anticoncepcional, lançando a capa semanal à seguir.

Ou ainda, o que dizer da crítica ao debate sobre a anistia, que colocava regras para a volta dos exilados políticos ao país através da caricatura da capa seguinte. A palavra "anistia" não completa na charge, provocava os militares que emperravam a anistia geral e irrestrita, um símbolo da discussão nos anos 1980.

Ou ainda, que tal os fantásticos desenhos de Henfil, que estava com seu irmão Betinho expulso do país, considerado exilado político. Seus desenhos eram sempre reconhecidos onde quer que fossem divulgados, como na figura à seguir, também criticando a falta de liberdade no Brasil.

Também O Pasquim não poupou gays, religiões, jogadores de futebol, artistas e todos os temas que estavam em pauta nos jornais "mais sérios" e controlados pelo governo. Os membros sofreram repressão e lhes foram tiradas diversas vezes a liberdade de expressão através da censura governamental ou econômica.

Nessa semana a onda de passeatas ao redor do mundo transformou os terroristas em terroristas da informação, terroristas que agrediram a liberdade de expressão. Os terroristas são loucos, doentes, "miolos moles", e mataram pessoas que julgavam ser contra "seu" deus, mas não declararam guerra a todos os jornais que escrevem o que desejam. Os jornalistas conseguiram direcionar bem esse repugnante e covarde episódio em favor de toda uma classe, para buscar reprimir algumas ideias de controle das críticas jornalísticas que estavam começando a ocorrer em diversos países, inclusive no Brasil.

Os políticos europeus compraram então rapidamente essa ideia para trazer o povo para seu lado e amenizar as críticas dos pífios resultados econômicos que vem sendo contabilizados na Europa. Estar com 4 milhões de pessoas ao seu lado, dá uma tranquilidade para dissiminar o esquecimento de que 30% dos franceses estão sem emprego, que 50% dos espanhóis estão sem emprego, que a Itália está a beira de precisar de ajuda financeira para pagar seus títulos e que a Grécia será expulsa da zona do Euro.

Fazer passeata canalizando para o tema liberdade de expressão ao invés de canalizar para guerra contra o terror e incompetência das agências de inteligência foi um movimento rápido de bem pensado. De uma tiragem de 60 mil exemplares, agora o Charlie Hebdo terá 3 milhões. E todo povo francês vai comprar essa edição para transformá-la em histórica, salvando financeiramente o jornal Libération, que acolheu os cartunistas sobreviventes em seu prédio. Essa também foi uma jogada rápida e bem pensada para salvar as finanças do jornal.

Será que liberdade de expressão é expressar qualquer tipo de crítica à qualquer grupo ou pessoa sem distinção? Onde termina a liberdade de expressão e começa a liberdade de reclamação.

Os cartunistas do Charlie Hebdo disseram que vão continuar zombando de todas as religiões (ver aqui). Por que? Qual a causa? Um fato é você criticar a entidade, seus administradores sobre a lavagem cerebral do radicalismo, e outra é você atingir os dogmas que pessoas inocentes acreditam.

O que senhoras idosas católicas, mulçumanas ou judias, ou de qualquer outra religião, que tem sua crença desde criança, tem de mal para verem sátiras maldosas sobre suas crenças?

Por que atingir os dogmas dessas pessoas crentes, ao invés de atingir as pessoas más, aquelas que usam da religião para matar inocentes com armas?

Por exemplo, qual é a utilidade de atingir a Santíssima Trindade da Igreja Católica, colocando sexo explícito entra Pai, Filho e Espírito Santo? Seriam eles responsáveis por incentivar os jovens a pegar em armas e ir para guerras, ou para seguir a linha do terrorismo?

Ou ainda, qual a utilidade em xingar o Al Corão, ou ainda a Torá, ou mesmo a Bíblia? Fazer charges denunciando abusos, lavagem cerebrais, roubos, desvios, podemos entender e isso serve de alerta para toda uma nação. Mas o que leva a charge ao lado?

Eles estão criticando não a religião ou a forma como a Igreja manipulou e manipula a população, mas os dogmas que os crentes inocentes oram e acreditam. De quem é a liberdade de expressão? Dos jornalistas cartunistas, ou das pessoas inocentes que creêm em alguma entidade?

Charge do Charlie Hebdo sobre a Santíssima Trindade

 

 

Charge de "apoio" à Ministra da Cultura

 

Charge sobre o poder de fogo de Israel

O que dizer da charge ao lado? A caricatura é da Ministra da Cultura da França. Os defensores do Charlie Hebdo saíram em defesa, explicando que as cores nas bandeiras em baixo à esquerda representam o partido de ultra-direita francês Le Pen. (ver a explicação da defesa aqui).

O partido é racista e contra a imigração africana na França e o Charlie Hebdo teria feito esse desenho para dizer que é assim que o partido Le Pen via a ministra. Também disseram que ela até agradeceu por essa charge.

Pode ser, mas mesmo assim imagine você, caro leitor, sendo visto por todos, em todas as bancas de jornais de seu país, adicionado à imagem de algum bicho com sentido pejorativo. Será que alguém lá no fundo realmente apóia e gosta dessa ideia?

Segundo os defensores, o fundador morto pelos terroristas disse que nunca brinca com racismo, pois racismo não é charge, é seriedade. Ótimo, mas o que ficou foi a imagem da ministra para sempre associada à macaca, e daqui 200 anos, ainda assim terá que se ter uma explicação sobre essa charge pois ela não é auto-explicativa.

Tudo isso é diferente da charge ao lado, contra a construção do muro de Jerusalém e sobre a diferença do poder de fogo entre Israel e Palestina. Os desenhistas usaram da liberdade de expressão, para expressar sem palavras as diferenças do poderio militar.

Não somos aqui a favor da ideia na corrente que surgiu nessa semana, dizendo que os cartunistas apertaram o dedo que estava no gatilho da arma. Muito menos impensável seria apoiar a ideia que a culpa de suas mortes foi deles próprios.

Mas a discussão é até onde as críticas são livres, ou ainda, se essas críticas indiscriminadas devem permanecer inatingíveis por qualquer restrição.

A expressão da liberdade através do desenho é talvez a mais antiga forma humana de descrever fatos e exemplos, desde os homens das cavernas, quando retratavam as cenas do dia-a-dia, como as caçadas contra os animais.

As críticas chocantes realmente servem para modificar o mundo, para redirecionar as ideias, transformando as pessoas e as comunidades para a evolução das ideias.

Foi assim com o "faça amor não faça a guerra", ou ainda com "paz e amor", ou ainda com a "liberação do sutiã", onde as mulheres queriam provar que os seios sem sutiã era um direito delas. Certo, mas resolveu esse protesto? Pelo contrário. Nos dias atuais as mulheres desejam cada vez mais se afirmar como femininas usando sutiã, considerando-o como uma peça atraente para seu bem amado.

As revoluções e grandes passeatas fazem parte da rebeldia dos jovens e são marcos importantes para a história. Mas comparar essa marcha de Paris a favor da liberdade de expressão (devido ao terrorismo) com marchas realmente históricas como a queda da bastilha, é forçar a barra demais. Mesmo nossa marcha tupiniquim aqui no Brasil sobre para as "Diretas Já" foi muito mais espontânea e com resultados práticos. Ou ainda a marcha dos cara-pintadas que terminou com impeachment de Collor de Melo no início dos anos 1990.

Marchas contra o terrorismo não funcionam, atos e atividades coordenadas sim. Quantas marchas pela paz no Rio de Janeiro foram feitas? Resolveram? Quantas mortes por assaltos à mão armada ocorreram só nessa semana? Ou então, o que adiantou a marcha na Espanha contra os terroristas Bascos? Alguns anos depois explodiram um trem com civis inocentes e outra marcha foi feita.

O governo francês encontrou o ponto ótimo que desejava e desviou a atenção da mídia para não mostrar sua incompetência e falta de dinheiro. Por exemplo, se eles tinham os terroristas na base de dados, não monitoraram porque não tinham dinheiro. Não trocaram informação com a CIA dos EUA, porque não tinham dinheiro. Não conversaram com os ingleses, porque não tinham dinheiro.

Todo esse terrorismo covarde nada tem com La République, mas sim com mentes doentes que sofreram lavagem cerebral para matar pessoas em favor de uma crença maior. O que se deve combater é a república de loucos que está aumentando no mundo, com o nome de Estado Islâmico. Agora vão culpar a internet como meio disseminador de ideias para nos vigiar, vigiar nossos telefones, vigiar nossos e-mails entre tantas outras formas de vigias.

Já fazem isso e mesmo assim foram incompetentes para prevenir esses crimes bárbaros como na semana que passou. Logo, antes de sofrerem pesadas críticas, os líderes compraram a ideia de marchar para garantir a república. Ora, e não é que o povo aceitou essa teoria?

Enquanto a definição clara sobre o que é liberdade de expressão e a declaração de seus limites como fator preponderante da paz mundial não forem definidos, novos e mais aterrorizantes crimes acontencerão. E o pior que agora, quem sofrerão as consequências serão os já marginalizados africanos e árabes que imigraram e moram nas periferias das cidades francesas.

Mesmo os franceses esqueceram seus ideiais de liberdade, igualdade e fraternidade e acham que o tripé da sua democracia só vale para eles, os franceses, e não para a população africana e árabe que colocou a mão na massa para construir aquele país, mas são esquecidas nas periferias sob o olhar racista e discriminatório.

 

 

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