Quinta-feira, 15 de Setembro, 2016

 

A Lógica Infantil do MPF

 

A lógica de Deltan Dallagnol e seus colegas procuradores do MPF de Curitiba para apresentar peça acusatória no complicado caso Lula-Lavajato-Mensalão está repercutindo em toda a mídia e internet. A lógica apresentada foi: "Nós não temos provas, mas temos convicção". Assinaram o atestado de alunos reprovados e precisam urgentemente voltar para a reciclagem acadêmica. Mas agora, se voltarem a sentar na cadeira de estudantes, pelo menos que o façam direito.

Estamos o tempo todo questionando todos os governos sobre a educação, sobre o ensino correto da Ciência Nacional, pela busca de mais verbas, e então esse grupo de jovens apresenta para o mundo o que deveria ser o desfecho mais considerável do Brasil como.... convicção?

Vamos ter que acreditar que a Terra é quadrada também? Que satélites não existem? Que o homem não foi a Lua? Que as doenças não são causadas por bactérias ou virus, mas sim obra de Deus e do Diabo? Que Deus criou a Terra e não o bigbang?

A humanidade trabalhou duro, venceu esses conceitos nefastos e virulentos desde a idade média, para que gente bem paga no Brasil, apresentem peça acusatória com base na ... convicção? Esses garotos do MPF de Curitiba nasceram em época errada. O lugar deles seria mais adequado no ano de 1620, eles se dariam melhores por lá, e poderiam até se tornarem juízes conceituados da idade média.

Mas mesmo lá na idade média eles teriam problemas se vivessem na Europa. Existiu um sujeito em 1620 chamado Francis Bacon que revolucionou o método científico de pensar, de construir uma prova de maneira lógica, usando o poder do raciocínio de forma brilhante. Ele só foi um dos maiores pensadores de todos os tempos, só isso. Escreveu Francis Bacon:

"... A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas de "ciências conforme a nossa vontade". Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade..."

E Bacon continua:

"...Assim, ele rejeita coisas difícieis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo..."

Será que precisamos fazer um gráfico nos moldes apresentados pela garotada de Curitiba para que se entenda que em tudo na vida se precisa de PROVA! Será que o MPF vai processar Francis Bacon por chamar o que eles apresentaram de vulgaridade?

A apresentação em si não vem ao caso, poderíamos ver Power Point até piores, mas desde que contivessem provas, documentos, chancelas das denúncias, o material poderia ser até em papel. Será que com aqueles ridículos slides eles realmente acharam que estavam convencendo alguém?

Sim, achavam e ainda acham. A resposta do porque disso está nas frases de Bacon, nas linhas anteriores: "...um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade...".

O MPF de Curitiba tem "convicção", ou seja, como Bacon disse em 1620, eles acreditam mais facilmente no que gostaria que fosse verdade e acham que as provas não são necessárias. Eles não sabem a diferença entre uma monografia de trabalho final de graduação e uma tese de doutorado.

Pudera, todos no máximo fizeram mestrado de curta duração e possuem livros publicados com .... 16 autores! São livros escritos em conjunto, na verdade "guias" ou relatos de conceitos já bastante batidos na área, porque sozinhos talvez eles não consigam expressar algum tipo correto de raciocínio lógico.

Batalhamos tanto todos os dias para que os estudantes se pautem em provas para expressar sua forma de raciocinar e o MPF apresenta infográficos sem sentido?

Quem tem dúvida sobre a capacidade acadêmica dos procuradores, é só buscar na ferramenta do Cnpq conhecida como Curriculo Lattes o currículo oficial de cada promotor (clicar aqui no link LATTES).

Ainda nessa linha de acreditar nos eventos apenas nas convicções, o filósofo David Hume citado por Carl Sagan em seu livro magnífico (O mundo assombrado pelos demônios) escreveu:

"... os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, as dúvidas que tem a respeito de certos assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo..."

O pior de tudo é que a acusação apresentada pelos procuradores não chega nem mesmo próximo do conceito de monografia.

Como pode ser visto ao lado, uma monografia possui um problema central, que poderá ou não se subdividir em problemas secundários.

O desenvolvimento do problema central é que significa uma questão chave para a concentração na solução.

É necessário se fazer uma boa revisão bibliográfica, ou seja, no caso da lavajato citar casos parecidos de outros países, peças chaves parecidas como provas, comparações de diligências e seus resultados para proporcionar então a solução final.

O assunto os procuradores já tinham, já conheciam, mas não fizeram a dedução correta. Eles pararam na abordagem experimental, indutiva, mas sem a lógica dedutiva para convencer a todos.

Tiveram tempo suficiente?

Sim, bastante, mas como eles as vezes alegam, talvez sem pessoal suficiente. Essa seria uma explicação para a tamanha falha cometida.

Mas como o procurador Dallagnol se gabou de que a operação contou com dezenas de pessoas envolvidas, então essa explicação de falta de pessoal não foi responsável pela peça infantil apresentada.

Monografia

 

 

 

 

 

 

E sendo assim, a explicação mais plausível é que eles não tentaram ser modestos e fazer uma monografia. Foram arrojados e resolveram propor logo uma tese. E aí... se quebraram.

Os procuradores descobriram da pior maneira que para uma tese, o pior inimigo é o tempo e a lógica para busca da solução. É nesse aspecto que começamos esse texto dizendo que os mesmos não tinham condição de tocar esse caso.

Alguns comentaristas alegam que a vaidade subiu na cabeça e atrapalhou o andar da investigação.

Sim, pode ser. Mas se propuseram uma tese, sem o devido ataque na produção de provas, o resultado é previsível: reprovação pela banca de avaliação.

Os elementos de argumentação foram, novamente, muito primários, muito insignifiantes.

Uma argumentação se divide em duas etapas: consistência de raciocínio e evidência de provas.

Não somos nós que estamos inventando isso agora para criticar a apresentação grotesca. Essa noção de argumentação pode ser encontrada em diversos textos sobre desenvolvimento de trabalhos.

São estruturas básicas de pensamento, que são baseadas na filosofia de argumentação. Sem isso, monografia ou tese não sai do lugar. Ou quando sai, é esse desastre observado.

A consistência do raciocínio é onde o raciocínio sobre a peça acusatória está isento de contra-argumentação. E é complementado pela evidência ou apresentação de fatos que torna o raciocínio verdadeiro.

As pessoas que acham tudo isso "balela" teórica, ou mesmo argumentos a favor do Lula, deveriam se acalmar e lembrar que tudo isso foi construído para que tenhamos (todos nós, não apenas o Lula) um rumo e regras que garantam igualdade na avaliação judicial.

Por que as provas são importantes?

Porque convicções não mostram realidades. Convicção é a cegueira humana, convicções foram o que fizeram com as mulheres em 1620 acusando-as de bruxas. Ou seja, as convicções são os demônios do pensamento humano.

O grande Carl Sagan, assim como nós, sempre abominou em todos os seus livros e estudos as convicções humanas.

Nunca o ser humano saberá qual é a realidade. O homem conhece apenas aspectos da verdade. Se uma pessoa sem visão, que nunca tocou um elefante, se apresenta para conhecer o animal, se essa pessoa apenas tocar em algumas partes, ficará com a impressão errada sobre o mesmo.

A verdade se manifesta, a verdade se impõe, a verdade se desvela através das provas! Por isso cobramos provas dos nossos alunos. Nunca vão inventar outra forma de conhecimento sobre o raciocínio do próximo sem um exame ou prova. É quando nos expomos em provas que mostramos nossa verdade interior.

Convicção nunca foi, nunca será prova de nada.

Então podemos perguntar: O juiz Sérgio Moro vai aceitar essa denúncia colocando Lula como "general de um esquema gigante de roubo"?

Sim. Na verdade essa peça acusatória pode ter sido já apresentada pelo MPF antes e até mesmo orientada sobre o procedimento pelo juiz do caso. Ou será que alguém acredita que eles não se conversam na mesma cidade?

E então, caso isso realmente ocorra, não será apenas uma forma de injustiça. Será o coroamento de que realmente toda nossa luta por ensino, por Ciência, por educação, por desenvolvimento do pensamento está no lixo. Peça acusatória em qualquer lugar civilizado do mundo precisa de provas documentais para serem aceitas. Se a peça apresentada for aceita da maneira como está, qualquer um poderá acusar qualquer pessoa sem provas e a justiça no Brasil estará terminada.

E todos sabemos o que acontece numa sociedade onde não se confia mais na justiça, que deveria sempre buscar a verdade, essa mesma verdade que nunca conheceremos sem as provas.

 

 

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