Domingo, 26 de Novembro, 2017

 

Comércio na Lua para a Terra

 

 

Quantas vezes nos orgulhamos de um ministro da Ciência no Brasil? Alguém deve ainda perguntar: mas quem foi o ministro da Ciência? Ou ainda: Existe um ministério da Ciência?

Conversando com um professor, ex-integrante de governos passados, dissemos que a política cientifica no Brasil é ridícula, com governos nunca dando o real e verdadeiro valor ao que se deve. Claro que ele não gostou. Argumentamos que ministro da Ciência deveria ser cientista, pessoa de fato que viveu a vida acadêmica, pessoa que realmente sabe das dificuldades financeiras dessa área no Brasil e que vai convencer os políticos tradicionais a olharem para a Ciência com mais respeito.

É óbvio que esse ex-integrante de governo foi contra e disse: "... ministro não tem que ser matemático ou engenheiro, tem que ser político...". Claro, ele está certo. Santa inocência de nossa parte tentar manter uma conversa de alto nível com político que não consegue enxergar além da lapela de seu paletó. Não consegue ver que não saímos desse atoleiro por conta de gente que pensa exatamente como ele.

Justiça seja feita, José Goldemberg foi um grande cientista da área nuclear, foi chamado para ser ministro de Collor de Melo, mas nem teve tempo para nada. Assumiu no dia 20/nov/1989 e deixou o cargo em 14/mar/1990. Quatro meses, sim, apenas isso num ministério de suma importância para o país.

O resto dos ministros, é resto, nada, irrelevantes para a Ciência nacional. O atual ministro está mais interessado nas companhias de telefonia e nos seus lobys do que realmente trabalhar para que o Brasil saia do lamaçal da Ciência. Aliás, o atual ministro também está sendo investigado como crime de caixa 2 e segue o mesmo caminho dos demais desse governo. Ou alguém acha que Kassab tem algum interesse em Ciência?

Tristeza geral para todos nós.

Enquanto isso, a roda gira lá fora. O mundo continua seu caminho e ninguém fica olhando para seu umbigo cheio de dinheiro como os políticos e empresários brasileiros. Imaginem numa reunião de políticos no Brasil, se alguém propõe investir na Lua?

Você tá louco? Essa seria a primeira resposta possível.

A segunda seria: vamos privatizar e me repassa 20% dos ganhos de caixa 2 para minha campanha!

Já no mundo mais civilizado, essa discussão está a toda e não é mais um mero exercício teórico de egenharia espacial. É fato consumado, e em 2020 os ínfimos empresários brasileiros vão ver o quão são pequenos diante dos lucros enormes que empresários americanos, europeus e chineses vão ter.

Numa reportagem fantástica de hoje no The New York Times ( If No One Owns the Moon, Can Anyone Make Money Up There?) a discussão não é mais sobre como ir fazer dinheiro com a Lua, mas como modificar um tratado de 1967 sobre os direitos em corpos celestes. Por que estão interessados nisso?

Porque eles vão para lá daqui há dois anos.

 

Ou seja, enquanto aqui, Michel Temer e Kassab doaram Alcântara para os EUA, deixando inclusive que eles tenham o poder para decidir quem entra e quem sai da base de lançamento do Maranhão, nos EUA a briga é para rever um tratado que proíbe viagens espaciais a corpos celestes com fins comerciais. Ou seja, eles vão, eles já sabem como ir, eles tem dinheiro para isso e .... terão muito lucro!

Nós aqui já tinhamos alertado para o interesse descomunhal de China, India, Russia e EUA em voltar à Lua para minerar (ler "Precisamos ir Lua" 24/5/2013).

Agora também países africanos estão entrando na corrida espacial, tal como Africa do Sul.

Enquanto isso, o projeto espacial do Brasil ainda está há 60 anos lançando apenas foguetes de sondagem e com o programa espacial brasileiro praticamente parado depois da explosão do VLS (veículo lançador de satélites).

A tragédia de 2003 na base de Alcântara parou com todo o projeto do VLS que agora passa por uma readequação, mas sem dinheiro.

Alguém acha que esse governo está preocupado com a área espacial? A preocupação de Kassab sempre foi a de brigar com ambulante e com Outdoor em São Paulo.

Que ideia ele tem sobre Ciência? Claro que nenhuma. Nem mesmo o próximo presidente da república estará preocupado com isso.

Diante de uma imprensa analfabeta em assuntos científicos, que nunca apoiou qualquer programa sério de ciência no Brasil, nenhum governo vai retornar a esse assunto tão cedo.

Como poderemos pensar em nosso próprio lançador sem pesquisadores? Para a área de controle para direcionamento do foguete, o corpo de engenheiros é formado no máximo de cinco pessoas.

Dessas, talvez apenas uma realmente trabalhe diretamente com os cálculos de controle. Mesmo a pós-graduação do ITA está com um foco completamente diferente dos anos 80, sempre voltada para a área espacial.

Hoje os alunos pensam mais em outras áreas mais rentáveis, mais diretas e menos científica.

No lado civil, por exemplo no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o foco é imagens de satélites e meteorologia. A pesquisa toda está voltada para vender imagens e vender relatórios sobre o clima.

A parte de desenvolvimento de algo novo está a passos de tartaruga. Além da falta de dinheiro, o pessoal que trabalhava com isso nos anos 80 está se aposentando, ou já foram para outras áreas com salários melhores.

Os que sobraram hoje, tanto em número quanto em qualidade, não tem condições de sozinhos desenvolver algo de ponta para alavancar o projeto espacial no Brasil.

Tratado sobre direito em corpos celestes entre URSS e EUA em 1967

 

 

 

Engenheiros do INPE ajudando a montar satélite de sensoriamento remoto da China em São José dos Campos

Sonda Rosetta no cometa

Sonda chinesa na Lua - 6 dezembro de 2013

Enquanto isso, nos EUA, ano que vem terá a competição Google Lunar X Prize Competition. O prêmio é de US$ 20 milhões para o primeiro robô de empresa particular que pousar na Lua.

O investimento do Google tem sido da ordem de US$ 1,85 milhões nessas últimas décadas, para alavancar de vez a área comercial do espaço exterior.

Essa cifra não chega nem perto das propinas que Temer pagou, na forma de "emendas", para seus colegas votarem a seu favor num processo de corrupção que absurdamente foi arquivado.

Ou seja, investir em área espacial nos dias de hoje, não é nem de longe perto do roubo dos políticos. E também não vai atrapalhar nenhum programa social. E também não vai atrapalhar nenhum programa de educação ou alimentação.

Sim, porque toda vez que esse tema aparece, tem sempre ignorante colunista se perguntando por que gastar com espaço se "não temos escolas"?

Não temos escolas, porque os ministros, governadores e prefeitos não deixam o dinheiro chegar até os professores.

Dinheiro há de sobra, não existe esse papo de que o Brasil está falido. Isso é papo de economista ligado a governo que deseja um cargo para aparecer na imprensa.

Uma segunda espaçonave desse prêmio do Google deverá pousar no polo sul da Lua em 2019. E por fim, uma terceira espaçonave deverá pousar em 2020 e trazer de volta para terra uma amostra de rochas lunares.

Então, até 2020, a área espacial internacional estará agitada, com empresários de olho em tudo.

Mas não para por aí. O príncipe de Luxemburgo (sim, o país pequeninho da Europa) está investindo pesado.

Estão investindo US$ 28 milhões para minerar não na Lua, mas num asteróide!

Sim, o príncipe está investindo em empresas que tragam de asteróides minérios importantes e raros aqui na Terra, ou que sejam muito caros em suas extrações. E para não ter problemas, o príncipe até já passou uma lei em Luxemburgo sobre lucros de empresas com extração de minérios em asteróides.

Segundo a reportagem do New York Times, companhias poderão extrair platina, cujo preço na Terra é cerca de US$ 900 a onça. Além disso poderão extrair água, hidrogênio e oxigênio para vender a Nasa em expedições de longo prazo, como por exemplo a Marte.

Para revisar o tratado, o senado americano estará se reunindo e debatendo o tema. Apesar de existir o tratado sobre propriedade de corpos celestes, nem mesmo os EUA assinou esse tratado em 1967. Ele diz o seguinte:

Espaço exterior, incluindo a Lua e corpos celestiais, não está sujeito à apropriação nacional por reinvindicação de soberania, por meio de uso ou ocupação, ou por qualquer outro meio.

Congressistas americanos, diante da pressão das empresas já estão certos de que esse tratado será jogado no lixo. E vai mesmo, ou alguém vai dar ouvidos a cientistas, sendo que existem empresas oferecendo bilhões de dolares em recompensa? Por exemplo, uma das alegações dos senadores é que as crateras da Lua foram bombardeadas milhões de ano e possuem Hélio-3 em suas rochas, raro na Terra.

Esse mineral servirá como combustível para indústrias nucleares, comenta um senador do partido Republicano de Donald Trump.

Ou seja, a partir do ano que vem, novamente nós aqui no Brasil vamos ficar assistindo os outros brincarem e ganharem muito dinheiro. Para nós participarmos, depois desse maléfico governo, vamos ter que comprar os brinquedos dos estrangeiros, pagar ainda mais caro e ainda, de quebra, deixar eles usarem nossa base de lançamento.

O problema não é uma retórica de soberania nacional, mas a retórica de propina nacional, propriedade exclusiva de políticos sujos que jogaram nossa chance de crescer na Ciência Espacial no lixo nos últimos 30 anos. Enquanto o mundo no ano que vem vai discutir quem chegará primeiro à Lua, nós ainda vamos assistir a briguinha entre esquerdistas e direitistas, entre nazistas e facistas, entre coxinhas e mortadelas e assim por diante.

Ao invés de Ciência, é disto que a imprensa nacional adora. Até quando?