Professores americanos, por uma professora brasileira
Já falei tanto sobre educação nesta coluna, mas talvez valesse a pena detalhar um pouco o que realmente difere nosso país com relação aos outros países mais avançados neste quesito. É muito claro – e este debate também tem sido um pouco repetitivo, pelo menos entre economistas – que o principal problema da educação brasileira não está no ensino superior, aliás, está no excessivo foco no ensino superior, ao custo da falta de atenção ao ensino fundamental e médio. Mas vou basear-me na experiência pessoal, de professora universitária, e não de uma especialista em educação, nem mesmo em ensino. Na verdade, o que farei são relatos casuais de experiências vivenciadas em universidades americanas. Por isso, nesta e na próxima coluna, dar-me-ei o direito de trazer dois textos que escrevi há exatamente um ano atrás, quando encontrava-me na Universidade da Califórnia em Berkeley, na condição de pesquisadora-visitante. Certamente foi um momento cheio de reflexões sobre a nossa universidade em comparação a deles...
O primeiro a gente nunca esquece... Primeiro seminário acadêmico em terras norte-americanas, poucas semanas depois de chegar. O apresentador era um aluno brasileiro, quase concluindo seu PhD em Economia na Universidade de Wisconsin. Certamente depois de vários anos de sofrimento, ele finalmente via seu “filho” nascido. Certamente também tinha ido à apresentação com muito orgulho e muita vontade de mostrar a todos a criança. Entretanto, os professores na platéia quase não o deixaram falar, de tantos comentários, perguntas, opiniões sobre o tema que tinham. Um deles em particular, estava muito exaltado: não parava de fazer comentários e críticas de forma que para mim soaram agressivas (meu primeiro seminário...) Lembro-me de nosso brasileiro, segurando a latinha de Diet Coke, andando de lá pra cá, de cá pra lá, de forma que, naquela época, parecia-me nervosa. Ao fim, quando ele tinha terminado sua exposição, aquele professor continuou com os comentários e perguntou num tom alto e firme: “-Afinal de contas, para que serviu o seu trabalho? Porque você não conseguiu fazer o que você disse que iria fazer no começo!” Eu, que estava no fundo da sala, sem ninguém me olhando, sem ter nada a ver com a estória, depois de ouvir isso quis esconder por baixo da mesa, por baixo da terra, sumir do planeta!!! Com todo o mal-estar que EU senti, não me lembro de o que o coitado respondeu.Terminado o seminário, e também o meu sufoco, surprise, suprise! O professor algoz e ele saíram juntos, rindo, para irem tomar um café!!! Esta cena foi uma das melhores coisas que eu vi, principalmente por ter sido nas primeiras semanas de vida acadêmica nos EUA. Ela me ensinou uma lição importantíssima: os americanos, especialmente acadêmicos, não levam para o lado pessoal! Ter isso claro em mente foi e é muito importante para qualquer pessoa que queira enfrentar a academia norte-americana. E caramba, que inveja!
Mais de 10 anos depois, em Berkeley, hoje eu não mais me impressiono com as críticas “agressivas” dos acadêmicos. Pergunte a qualquer um deles e eles te dirão conscientemente que este é o papel dos acadêmicos: criticar. Isso faz parte do jogo, e é o que faz as coisas andarem, e é o que faz os EUA continuarem a ser o maior centro de produção de conhecimento humano do mundo. E não é nada pessoal!!! Mas eu ainda me impressiono com o envolvimento dos acadêmicos daqui. Em qualquer seminário a orla de professores é imensa. Não é raro ver 10, 15 professores num seminário semanal e você, apresentador, pode ter a certeza que os 15 hão de querer falar – todos eles – sendo que alguns vão querer falar mais do que você! Já fui a um seminário em que a proporção de tempo falado pela apresentadora e pela platéia foi de 1:2, ou seja, a cada 30 segundos que a mulher falava, a platéia falava 1 minuto. No fim, ela claramente não tinha terminado e perguntou qual era a regra, dado que o tempo tinha acabado. O coordenador disse: “A regra é que o tempo acabou!” Ou seja, prepare bem seu tempo!
O primeiro a gente nunca esquece... Primeiro encontro com meu “orientador” daqui de Berkeley, o famoso especialista em Law and Economics, autor do livro-texto que uso com meus alunos há 5 anos. Cheguei mais cedo ao office-hour e já havia uma moça esperando. Ele chegou logo depois, a moça – super simpática – falou para eu ir primeiro porque a reunião dela iria demorar. O Prof. Cooter cumprimentou-me, abriu a sala fazendo uma cara de “quem é essa?”, convidou-me para sentar, fez o mesmo e... colocou os pés em cima de sua mesa!!! Surpreendi-me ao ver um professor de 65 anos de idade fazendo isso! Fui recuperando-me do enorme choque aos poucos e lembrei-me de que sim, a informalidade, o comportamento despojado não significa desrespeito. Aliás, eu já tinha visto meu orientador de mestrado – mais velho que o Prof. Cooter – fazer o mesmo em sua sala. Nós brasileiros esquecemos muitas vezes de jogar fora a necessidade de poses, formalidades e hierarquia. Na verdade, na maioria absoluta das vezes, é muito mais fácil receber o email de resposta daquele professor americano super famoso, a grande estrela da sua área de pesquisa, quase ou já ganhador do prêmio Nobel, do que daquele professor brasileiro que escreveu um certo artigo numa revista. Os professores brasileiros somos muito mais preocupados com hierarquia e ego do que os lá de fora (talvez os de Harvard sejam um pouco mais inacessíveis...)
Quem chega a qualquer universidade americana, logo se sentirá um verdadeiro cidadão do mundo. Fazendo uma retrospectiva dos 4 anos, 2 mestrados e muuuuuuitas aulas que tive em universidades americanas, posso lembrar meus professores das seguintes nacionalidades: americana (claro), inglesa, francesa, neozelandesa/australiana, chinesa, japonesa, coreana, argentina, canadense e indiana (acho que não esqueci ninguém...) Aprender inglês aqui não é somente aprender inglês americano. Você ainda leva de graça, no pacote, o aprendizado de inglês com sotaque chinês, inglês com sotaque indiano, inglês com sotaque castelhano... Depois de algum tempo você passa para o segundo estágio e se torna habilitado(a) a fazer imitações dos diversos tipos (nada mais engraçado do que uma brasileira com cara de chinesa imitando um indiano falando inglês...). Se prestar atenção pelos corredores, nos seminários, será possível identificar (e aprender) mais outros: brasileiros, alemães, ucranianos, italianos, gregos, suecos... Quando será que as universidades de nossa amada Pátria conseguirão atrair 10%, 5% das melhores mentes de todo o mundo que ainda vem para cá aos montes? E caramba, que inveja!
PS: O segundo encontro com o Prof. Cooter foi sem sustos. Ele até me convidou para tomar um chá!
email: LucianaY@insper.edu.br
COLUNA - LUCIANA YEUNG
Professores americanos, por uma professora brasileira

Profa. Luciana Yeung
(Economista)
Insper Ibmec São Paulo



02-Maio-2010