Quaresmeira em flor
(Esta semana vou me dar ao direito de não falar sobre economia “para não dizer que não falei das flores”... Além disso, vai servir para contrabalancear com o assunto da coluna passada. Senão, logo, logo vão dizer que sou uma economista sem-coração e materialista...)
Lembro-me de uma das frasesinhas, daquelas que meninas adolescentes escrevem no caderno uma da outra (se é que as meninas de hoje ainda costumam ter cadernos de recordações e agendas...), que tinha uma profunda sabedoria: “Ao olhar para fora de uma janela, pode-se ver a lama suja no baixo do chão, ou as estrelas cintilantes no alto do céu”. Ou seja: o mundo e a vida são exatamente da forma como queremos enxergar: se você quiser ver apenas o lado bonito, você enxergará as belezas da vida; por outro lado, se você escolher ver apenas a lama do chão, a vida será um drama ou uma tragédia sem fim. Isso talvez seja o único fator que, de fato, diferencia aquelas pessoas eternamente “vítimas do sistema”, “azaradas” e para quem as coisas ruins acontecem uma atrás da outra, daquelas que estão sempre no “controle da situação”, para quem a vida parece sempre sorrir, ou até mesmo dizem que “nasceram com a b... virada para a lua”.
Mas é claro, não é tão simples assim. Principalmente numa cidade grande, onde as pessoas mal têm tempo para comer e dormir – muito menos para pensar em como ser realmente felizes, onde as cobranças são certas e freqüentes e os elogios inexistentes, não é fácil seguir firme em nossos eixos. E aí, é preciso apelar para alguns pequenos truques para continuar sorrindo todos os dias. Um clichê repetido invariavelmente em todos os livros de auto-ajuda – assim como a frasesinha dos cadernos das meninas – é simples, mas é profundo e verdadeiro, e na verdade, muito difícil de ser seguido: para ser feliz é preciso saber apreciar as pequenas coisas da vida. Pequenas coisas são pequenas coisas mesmo! Exemplos: saber apreciar o canto dos passarinhos (sim, por incrível que pareça, eles ainda existem até mesmo num bairro super povoado de São Paulo), o céu azul com nuvens, o por do sol com céu cor de rosa, o velhinho na rua contando piada, os livros maravilhosos comprados na livraria, o frozen yogurt da loja que acabou de abrir no shopping, o prato favorito comido no almoço ou no jantar, os amigos com quem falamos por telefone, email ou até mesmo num chopp, as pessoas desconhecidas com quem encontramos e trocamos breves palavras, os funcionários que nos servem em cada lugar que vamos, etc, etc, etc. Se pararmos um pouco para pensar (no banho, no carro, no ônibus, etc) vamos nos dar conta de que temos, todos os dias, dezenas de pequenas grandes coisas para apreciar na vida. (Esta foi a minha lista de um dos meus dias... Cada um pode fazer a sua!)
E nas últimas semanas, uma das coisas que mais tenho apreciado são as quaresmeiras em flor. É impressionante como, de repente, toda a cidade, e na verdade, todo o estado, vestiu-se de roxo e rosa num espetáculo absolutamente fascinante. Árvores, árvores e mais árvores, pedaços inteiros da mata (como constatei viajando ao longo da Rodovia Régis Bittencourt) coloridos de forma excitante. Em seu esplendor, pode acontecer de não ser possível enxergar as folhas, mas somente as flores da árvore, tal é a sua abundância e o seu tamanho grande. Conceder a si mesmo(a) três a quatro segundos de pura contemplação é um privilégio que todos deveriam ter a cada vez que passar por uma quaresmeira em flor. É uma lavagem na alma...
A primeira vez em que fui apresentada a uma quaresmeira eu tive a certeza de que jamais esqueceria seu nome. Elas aparecem justamente na época da Quaresma, um pouco antes do Carnaval até a época da Páscoa. (A verdade é que elas florescem duas e até mesmo três vezes ao ano.) Outro motivo que curiosamente apelidou a árvore de quaresmeira é a sua cor roxa, coincidente com a cor usada pelos católicos nesta época do ano.
O nome científico da quaresmeira roxa é Tibouchina granulosa. A Tibouchina mutabilis, também conhecida popularmente como manacá da serra, é uma quaresmeira interessantíssima, pois muitas vezes apresenta flores de três cores ao mesmo tempo, numa mesma árvore: branca, roxa e rosa. Eu e minha mãe já tivemos altas discussões sobre qual deveria ser o ciclo cromático desta flor. Nada como apelar para a ciência: segundo os botânicos, ela nasce branca e vai tornando-se roxa, sendo rosa a cor que assume no ciclo intermediário de sua vida. A espécie é original da Mata Atlântica, encontrada principalmente nos estados da região Sudeste e Sul. Apesar de se espalhar com facilidade na natureza – as matas à beira da Régis Bittencourt são prova! – a quaresmeira parece ser “rebelde” contra a intervenção humana em sua reprodução: parece que os viveiros comerciais têm dificuldade para propagá-la e muitos cientistas gastam muito tempo fazendo pesquisas acadêmicas – inclusive financiadas por órgãos como o CNPq – para descobrir como fazer para melhor reproduzi-la.
Além da beleza, como tudo o mais na natureza, a quaresmeira tem sua importância ecológica. Diz-se que a Tibouchina mutabilis é o único alimento da lagarta de um tipo de borboleta, a amarela manchada de preto (cujo nome científico não consegui encontrar). Sob a árvore a borboleta mãe deposita os ovos e, assim que saem dos ovos, as lagartas irão se alimentar das flores.
Entretanto, ao mesmo tempo em que pode ser fonte de contemplação e alegrias para os seres humanos, ela própria parece ter seus dramas. Alguns cientistas acreditam que, quanto mais “estressada” uma quaresmeira for, mais vezes ela florescerá. Por estresse, claro, entende-se dificuldades de sobreviver por muito tempo. Parece que as árvores sabem quando estão submetidas a condições adversas de vida (muita poluição, por exemplo) e tentam compensar os poucos anos de vida (que na mata pode ser de até 70 anos) com uma maior quantidade de floradas para que suas sementes se espalhem logo. Parece até que, quanto mais perto do fim da vida de uma quaresmeira, mais exuberante ela será. Ironias da vida... A felicidade do ser humano às custas da vida desta bela árvore...
Mas enquanto não for provada esta teoria, que ela continue alegrando as nossas vidas nesta época do ano...
email: LucianaY@insper.org.br
COLUNA - LUCIANA YEUNG
Quaresmeira em flor

Profa. Luciana Yeung
(Economista)
Insper Ibmec São Paulo



2-Fevereiro-2010