Quinta-feira, 17 de Dezembro, 2015

 

Memórias...

Puxa o ar, ...., solta o ar, enche os pulmões, ..., abre o braço assim depois fecha, puxa o ar de novo....”. Para uma criança com bronquite esse simples exercício era como uma escalada na montanha. Apenas o fato de levantar e abaixar o braço fazia o coração disparar. Mas como o pai dizia que era fácil, a criança fazia esse exercício. E depois de uma hora, realmente os pulmões estavam melhores, apesar da tosse. A figura do pai ao lado, dava mais força e direção e ao final tudo sempre dava certo, com a brisa gelada da madrugada em claro.

Nós vamos andar de bicicleta, mas sempre você irá à frente e o pai vai atrás. Nunca ande atrás de mim...”. Mas criança é criança, e teimosamente, não parecia ser tão perigoso ficar longe um pouquinho com a bike, só um pouco ia ser interessante, para fazer manobras mais radicais. Mas de repente, tudo ficou escuro. Apenas era visto a roda de um fusca e o paralelepípedo da rua larga do bairro periférico da cidade. Nunca a roda de um fusca pareceu tão grande. A calota brilhava forte com a luz do sol da manhã. E quando a criança abre os olhos, a primeira voz, o primeiro olhar que vê é dele, do seu pai. Dentro do mesmo fusca que o atropelara, indo para o hospital, não parecia nada tão grave, mas com o nervosismo dos dois homens a criança começa a chorar.

Tá chovendo muito, não quero perder nossas férias. Vamos para o Rio de Janeiro”, afirma o pai nervoso numa manhã de férias. “Que é isso? Você tá louco pai? É muito longe, estamos em Joinville e você nem sabe dirigir no Rio!” O pai responde: “arrumem as coisas, vamos agora para o Rio de Janeiro”. E lá se foi todo mundo, no meio de umas férias chuvosas, num único dia de viagem de Joinville para Rio de Janeiro. E não é que a chuva parou e foram ótimas essas férias! Ele acertou mesmo, sempre acertava mesmo sem planejamentos calculados. Sempre mostrou que na vida tudo dá certo, quando executado com lógica e sem medo. Quantas chuvas torrenciais não aconteceram nas viagens, e nada de grave ocorrera. Nada de medo, tudo de concentração.

O inspetor da firma do grupo Votorantin estava meio apreensivo. Ele ouvira falar em São Paulo de um gerente que fazia “fusca-cross” no interior do Estado de São Paulo. Era a primeira saída de fim de semana para cobrar alguns clientes. Ao entrar no carro, o inspetor foi no banco de trás do carro, o pai gerente dirigindo e o filho, que já conhecia o “esporte”, foi na frente.

Já no início da estrada de terra, o show começou. O gerente soltava o fusca lombada abaixo, quase se percebia as rodas pularem fora da terra. Atrás, pobre inspetor, não parava de rir com o “frio na barriga”. “Você é mesmo louco cara...” dizia o inspetor rindo o tempo todo para o gerente. O gerente responde:” vocês me cobram para vender mais, aqui no interior só se for assim nessas estradas!”.


Por que mudaram meu filho de horário?”... “Meu senhor, é que o horário estava lotado”...”Mentira, isso é porque não temos dinheiro, pode voltar já o menino para o horário dele e seus amigos. E faça isso já, senão ninguém vai estudar nessa escola hoje”.

E a diretora da escola com medo, ordenou voltar a criança para a mesma sala de seus amigos. Na verdade existia uma escolha “aleatória” para as classes. Mas nos anos 70, especialmente no governo Médici, a Ciência da aleatoriedade era sempre determinística, os influentes sempre estudavam com os melhores professores e nos melhores horários.

Izidoro Leonel Caetano

* 11-11-1938

+ 12-12-2015

Não consigo terminar minha tese de mestrado ... o laboratório de computação fecha as 22:00 e tenho sempre que parar meu trabalho...” disse o filho em 1990. O pai então responde: “por que não falou antes? Tenho uns dólares guardados contra o roubo do Collor para as eventualidades, pega eles e compra um computador em São Paulo”.

O filho relutou, mas o pai insistiu que o dinheiro era para socorros, e esse era um socorro importante. E a tese acabou naquele mesmo ano com essa ajuda financeira.

Você terminou o colégio, e o que você vai fazer agora?” perguntou o pai em 1982. “Queria fazer um bom cursinho, pra tentar uma faculdade estadual”. O pai responde: “ Certo, mas é só um tiro, tem um ano pra estudar mas como não temos dinheiro para ficar tentando, se não der certo terá que voltar e trabalhar”.

E pagou um ano de cursinho para seu filho fora da cidade onde moravam. No final do ano, o único tiro com a bala na agulha deu certo. O filho passou para uma faculdade estadual e se formou em 4 anos”.

Que estrela é aquela?” pergunta o filho ao pai, por volta de 12 anos de idade. O pai responde:” Não é uma estrela, é um satélite” e explica o que faz um satélite. E o pai ainda reforça: “ Daqui a pouco vai passar outro satélite cruzando, exatamente no mesmo local... todos os dias, as nove horas da noite isso acontece”.

E não é que era verdade. A tradição da família era jantar, e depois apagar todas as luzes da casa e ficar deitados no chão, no fundo da casa, olhando o céu e chupando um copo bem grande de sorvete com licor de groselha por cima procurando satélites ou estrelas.

Por que você não vende esse carro pai?” pergunta o filho. “Porque esse carro é melhor do que os carros novos, é o melhor carro do mundo, com lataria sólida, um motor que nunca funde, e um balanço gostoso”, apontando para um Chevette do início dos anos 90. Na rua era ainda pior. “Você vende esse carro?” perguntou um senhor no carro do lado parado no semáforo. “Claro, que sim, 15 mil reais”, respondeu. “Meu senhor, eu quero o carro, não seu amor...” respondeu o homem no outro carro rindo.


Olha lá, é um disco-voador...” diz o pai. “Não, é um balão”, afirma o filho. “Larga de ser bobo, isso é um disco-voador, olhe as luzes e reflexos do sol” insiste seu pai. No dia seguinte sai nos jornais da região, que observações estranhas em diversas cidades relatavam as mesmas luzes observadas pelo pai e por toda a família. Seria mesmo um E.T.? Nessa época, a guerra fria estava “quente”.


Existem mesmo E.T.? Como eles vem de outra galáxia? Ou de outro sistema? Sim, porque no sistema solar, pelo menos até onde se conhece, não existe civilização avançada. Se eles tem a capacidade de viajar longas distâncias, tem capacidade de viajar no tempo? Algumas áreas da Ciência moderna afirmam que os E.T. existem e que eles, aparecem e desaparecem com facilidade, pois usam uma dobradura no espaço e no tempo. O Universo seria um grande holograma.


Outra parte da Ciência afirma que existem diversos mundos, afirmação que levou frenesi em diversas religiões. O que as religiões não observaram é que esses mundos paralelos da Física são mundos teóricos que, em tese, não se desenvolveram e tem dimensão de dez elevado a menos 34, ou 10^-34, ou seja, quase zero. Isso nunca foi observado a tamanho tão pequeno. A religião não pode ser provada pela Ciência, e a Ciência não deve ser usada pela religião. Religião é fé, Ciência é conhecimento adquirido.


Uma linha mais prática da física experimental afirma que foi observado com laser, um pequeno teletransporte no tempo de um elétron, quando passou por um túnel cheio de magnetos, eletrodos, eletricidades, etc. Os pesquisadores afirmam que ele viajou no tempo, com um delay imperceptível a olho nu, somente medido por aparelhos ultrassensíveis.


Se tudo isso for comprovado, se tudo isso for possível, no futuro viagens no tempo serão um terror, pois todo mundo vai bagunçar o universo querendo voltar no tempo ou avançar para ver o futuro. Leis terão de ser inventadas, para que as pessoas só possam fazer a viagem um número pequeno de vez, e mesmo assim restritas.


Mas já temos essa máquina, essa poderosa máquina do tempo se chama “Memórias”. As memórias são gravadas em nosso cérebro como um machucado que deixa cicatriz. Quando queremos voltar e relembrá-las, basta acessar a “cicatriz” cerebral correspondente. No entanto, mesmo essa máquina não permite conversar e voltar a participar das lembranças boas, principalmente tocar as pessoas, tocar os entes queridos, tocar só mais um pouco e contar sobre o que acontece nesse atual mundo.


Por mais que um adulto se lembre dos eventos que mais marcaram sua infância, por mais que o cérebro seja a melhor máquina do universo, ele ainda é limitado. Nem mesmo uma máquina de holograma que retorna imagem em 3D é boa o suficiente para permitir um toque, só mais um toque no ente amado que se foi.


Como não podemos tocar no passado, não podemos tocar no futuro, também não podemos tocar nas pessoas que amamos e que se foram. Nos resta mesmo a limitação, mas não insuficiente, de lembrar com carinho fatos, eventos, diversões e tristezas com aqueles que amamos.


Eu queria muito passar mais alguns dias com meu pai, queria bater só mais uma foto, queria muito poder conversar mais sobre o tempo, sobre sua noite de insônia, sobre sua falta de ar, sobre seu café da manhã, mesmo não sendo essas as melhores lembranças em comparação com os incontáveis ensinamentos sobre o que é certo e errado no mundo em que vivemos que ele nos passou.


As conversas noturnas olhando para o céu foram ótimas, as conversas sobre a política nacional um ensinamento crítico sobre o moral das pessoas. As conversas sobre a economia eram aulas de previsões, as conversas sobre o passado, uma diversão, enfim, as conversas com meu pai, valiam mais do que qualquer curso acadêmico.


Eu não queria uma máquina potente para voltar muitos anos atrás, ou muitos anos à frente, apenas uma máquina para dizer, “boa viagem pai, vai com calma”. No que ele me responderia “obrigado filho”, com um toque nas costas e um aperto de mão. Ou ainda como ele colocava sempre nos seus e-mails “tiau tiau filho”.... Que saudades!
Te amo meu pai.

 

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