
Sábado, 10 de Setembro, 2011
Por que o mercado financeiro não é normal?
O plano do presidente dos EUA para tirar o país da crise é muito bom e está em linha com todos os textos que já escrevemos nesse site. Para tirar o país da crise, já salientamos aqui, que o necessário é colocar construções em todas as partes ("O último ato de Nero", "Um olhar para o desemprego"), por ser esta a área onde responderá mais rápido na diminuição da taxa de desemprego. Se conseguir convencer os inimigos do congresso americano a votar o mais rápido possível e sem cortes, o plano pode dar certo e mudar o rumo da crise. Sim, esse é um plano que verdadeiramente pode evitar um aprofundamento da situação que o mundo financeiro vive. Se não der certo, ou se atrasarem muito para colocar em prática, a recessão que na prática já existe, vai aparecer na forma de dados estatísticos. Também já alertamos sobre a recessão, não agora que todos escrevem e falam, mas no dia 04 de Agosto de 2010 (um ano atrás) no texto "E a recessão está chegando". Com os comentários do aumento da crise nessa semana, o aparecimento da palavra recessão começou a crescer e mais pessoas estão confirmando nossos textos "antigos", mas atuais. O prêmio nobel Krugman escreveu um artigo nesse sábado no The New York Times (reproduzido no Uol) dizendo exatamente sobre a possibilidade da recessão e sobre o plano de Obama. O montante não é muito, ou seja, 400 bilhões de dólares é infímo perto de 2 trilhões de dólares que o FED já despejou no mercado e ainda mais irrisório perto dos 10 trilhões gastos no mundo inteiro para conter quebras de bancos e países. Mas é, sem dúvida, uma bela tentativa. Mas, como sempre, os analistas do mercado financeiro não gostaram e saíram relatando más previsões. Com isso, na sexta-feira passada as bolsas caíram em pessimismo. Isso é normal? Os "especialistas" de mercado gostam de afirmar na mídia que isso é normal, pois a bolsa é volátil (eles adoram essas palavras). Outros gostam de usar o velho ditado do mercado: "sobe no boato, realiza no fato". A verdade é que o mercado não é normal, pois não segue a distribuição de probabilidade normal. E os analistas de mercado, que gostam de dizer que o mercado não é normal, usam errôneamente a distribuição normal. Os cálculos são a antítese da fala. A distribuição de probabilidade normal, também conhecida como gaussiana ou curva de sino, foi primeiro criada pelo grande matemático Gauss, no século XVIII. Gauss não criou a função como uma distribuição de probabilidade, mas apenas uma função para descrever alguns eventos que oscilavam em torno da média. Posteriormente, nomes famosos da Probabilidade e Estatística elaboram os estudos sobre chances usando teoremas e provando que a curva de sino era, no limite de grandes números, uma boa representação de probabilidades(veja nossa explicação no youtube).
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Com negociações em alta frequência, tomadas a cada milésimo de segundos, a curva da normal não tem nenhum sentido em nenhum cálculo tradicional de probabilidades usada pelo mercado financeiro. A prova disso é a figura a seguir. Coletamos dados a cada 15 minutos de nosso sistema IMA (Índice de Mudanças Abruptas) nos nove primeiros dias de Agosto de 2011. Usamos o código computacional Ksdensity.m do software Matlab para estimar distribuições de probabilidade em tempo real. Para quem não tem habilidade em Matlab, poderá encontrar um curso completo de programação, usando nossos slides gratuitamente disponibilizados na aba "cursos" (Computação(Matlab) para Macroeconomia e Finanças). Qualquer um poderá repetir o gráfico a seguir com seus próprios dados e analisar o que acontece num dia de quedas e crises.
O que a figura anterior mostra é o retrato estatístico da "anormalidade" do mercado financeiro, e por isso, tentar entender o mercado do ponto de vista de cálculos baseados em distribuição normal é errado. No dia primeiro de Agosto, o mercado estava "normal" com o índice Ibovespa oscilando dentro do seu histórico e com a distribuição normal sendo respeitada. Quando saiu a notícia do rebaixamento dos títulos americanos pela agência de risco Standard & Poors a situação mudou completamente de figura. Primeiro a média começou a "passear" para a esquerda (valores mais baixos) e o pior, o desvio padrão não só aumentou, mas também mudou de forma. A curva apresentou "calombos" em três partes diferentes, mostrando aumento de chances inexoráveis do índice pular em altos ganhos, como também cair ainda mais. Isso nunca é previsto na distribuição normal, pois sua cauda é sempre contínua, suave e...fina! Se o leitor olhar para a curva do dia 5 de Agosto, perceberá que naquele dia o "calombo" da direita quase desaparece, e o "calombo" da esquerda aumenta de tamanho. Significa que os valores de quedas são muito superiores ao ganho e mesmo os valores médios tem menos frequencia ("calombo" central). E nos dias 8 e 9 de Agosto a curva muda novamente, de forma dinâmica ao sabor das notícias. Então, como podem os analistas de mercado, estudar risco e fazer projeções para o final do ano, se em 6 dias de dados uma curva nunca foi igual a outra? Em 6 dias os cálculos deveriam ser alterados a cada 15 minutos. E mesmo assim, somente se a curva fosse normal. Como a curva não é normal, não existe cálculo de risco para esses novos "calombos". Somente cálculos poderão ser feitos se usarem métodos numéricos específicos para cálculos de áreas. E a maioria do mercado não faz isso. Essa é a razão para sempre olhar de forma diferente quando alguém diz que você não é normal, pois a curva que está na mente dessa pessoa pode ser diferente daquela que está na sua. Logo, rotular alguém ou algum evento de normal, é no mínimo "anormal".
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