Sexta-feira, 21 de Maio, 2010

 

A nova dama de ferro

Acertou. A premiê alemã Angela Merkel fez o que todos os líderes vinham prometendo e não cumpriram. O presidente Obama falou que ia regular o mercado financeiro, pediu dinheiro de volta (em nosso post "O silêncio dos inocentes") mas os bancos americanos fingiram que não eram com eles. O presidente da França disse ameaçou desistir do euro ("frança jogará a toalha?"). O ex-primeiro ministro da Inglaterra Gordon Brown se disse "chocado" com o Goldman Sachs e investigações foram abertas nos EUA ("Torre de marfim arranhada"), mas nada ocorreu de fato.

E então a premiê pegou os especuladores internacionais no contra-pé e probiu as transações de curto período de títulos à descoberto. Há anos que o mercado financeiro é "criador" de novas fórmulas de apostas e muito inovativo para ganhar dinheiro. Mas quando vem a crise, correm de chapéu na mão aos governos prometendo se comportar, mas nunca cumprem. Desde o New Deal que o mercado não sofria uma regulação de verdade a tão curto período de decisão e ficou sem saber para onde ir lembrando uma foto de Jânio Quadros. A foto abaixo gerou apostas na época para dizer: "onde vai Jânio Quadros?" Os pés do antigo presidente e governador de São Paulo estão à 90 graus e a cabeça virada para onde os pés não estão (não é montagem, é real e famosa essa foto). O mercado financeiro ficou assim nessa semana e na indecisão vendeu.

 

 

Ao tomar o ato de proibir a negociação à descoberto, Angela Merkel está pela primeira vez dando um duro e certeiro recado ao mundo financeiro. O jogo tem que mudar para sair de vez da crise. O ato que ela propôs deu mais certo do que o pacote de 1 trilhão de dólares para segurar o Euro. Há dois dias a queda do Euro estancou e ela chamou todos os grandes líderes europeus a tomarem a mesma decisão, como na reportagem de 20 de Maio no yahoo finance ("Merkel calls for tough steps on regulation"). Se todos os líderes tomarem essa decisão, 20% dos problemas futuros já estão sanados, mas para isso a Alemanha e quem a seguir vai ter que se preparar para a enxurrada de vendas. Por isso as bolsas européias e no mundo todo não param de cair há 6 dias.

O apelido "dama de ferro" surgiu com a premiê britânica Margaret Tacher pelo seus cortes nos impostos e sua dura decisão de corte de gastos do governo. E no episódio das ilhas Malvinas ( ou Falklands) enviou a "nata" da marinha britânica para retirar os argentinos que invadiram a ilha. Uma batalha rápida e dura como ela prometera e sem negociação com o governo ditador argentino. Saiu vitoriosa e até hoje é saudada como uma das melhores líderes da Inglaterra desde Churchil.

 

Mas "dama de ferro" para Angela Merkel ainda é cedo para ser pronunciado pois a mudança de regra mudou o humor dos grandes fundos. Outras medidas importantes devem ser tomadas, não pela Alemanha que está com as contas em dia, mas pela França, Itália, Espanha, Portugal e os países gélidos da Escócia, Irlanda e Islândia. A Grécia só agora acordou, mas quem vai pagar pelos erros é o povo e por isso a revolta forte que vive o governo grego.

A Espanha ao invés de assumir a mesma regra da Alemanha resolveu jogar para o povo, assim como fez a Grécia, cortando sálarios, aposentadorias e aumentando impostos. Se não mexer na regra de seu mercado, isso não vai resolver.

As mulheres sempre foram injustiçadas em suas conquistas nos espaços povoados de machismo e a premiê alemã deverá mesmo convocar e se cercar de poderosos políticos para segurar a fúria do mercado. Quantos casos de sucesso feminino não foram reconhecidos, ou quando foram reconhecidos já fora tarde. Por exemplo o caso de Barbara McClintock, geneticista Prêmio Nobel de Medicina em 1983 que foi literalmente chamada de "louca" por 30 anos por cunhar o termo "gene" para a transmissão de informação de um ser vivo a outro gerado.

Se hoje esse termo é corriqueiro e amplamente divulgado foi devido a Barbara. Quando ela entrava nas salas para dar palestras os alunos saíam, ninguém queria fazer trabalho com ela. Niguém publicava seus artigos ou davam atenção à sua pesquisa. Seu chefe à ameaçou: "Se você se casar, será demitida". Trabalhando de sol a chuva literalmente, nos campos de plantação de milho, foi desenvolvendo sozinha suas pesquisas em genética do milho para formar uma bela teoria. Só então, na década de 1980 seu trabalho foi reconhecido e deslumbrante depois de anos de sofrimento. E recebeu o prêmio sozinha, sem dividir com ninguém, fato raro no Prêmio Nobel. Sua frase ao ouvir no rádio o anúncio do prêmio reflete o estilo de vida de uma pesquisadora acuada por anos de injustiça: "... é injusto recompensar uma pessoa por ter sentido tanto prazer, durante anos, solicitando ao pé de milho que resolvesse problemas específicos ...".

O mercado vai bater forte, vai cair e espernear, mas se novas regras duras e sólidas forem tomadas, aí sim pode-se dizer que a crise passou. Claro, até a próxima invenção financeira do mercado.