Terça-feira, 5 de Abril, 2016

 

Migração e Dinheiro

No momento em que a Europa não sabe o que fazer com os imigrantes e a onda imigratória crescente vinda da Síria, os investidores e formadores de opiniões em negócios criticam o excesso de apoio e abrigo as centenas de milhares de pessoas que estão nos seus quintais. Claramente o sentimento de racismo e a extrapolação em achar que todas aquelas pessoas são terroristas estão tornando os dias na Europa cada vez mais complicados.

Mas isso não é só na Europa. Também nos EUA com a corrida eleitoral, o megabilionário Donald Trump está provocando arrepios em diversos setores da população americana, sobretudo aos latinos e orientais. Dono de uma arrogância sem precedente e apoiado por uma multidão de malucos como ele, caso Trump ganhe a eleição, o mundo certamente será menos seguro.

E também no Brasil o mesmo fenômeno ocorre, na divisão social completamente desigual e na insistência das pessoas ricas em propagar o desprezo e vingança sobre as pessoas pobres. E se essas pessoas vem do norte ou nordeste do país, o exagero das palavras tornam-se ainda mais evidente.

A interpretação de todos esses atos é só uma: burrice coletiva!

Há um ano atrás dois pesquisadores italianos publicaram um interessante artigo na prestigiada revista PlosOne com o provocativo título " Migração Humana Afeta Negócios Internacionais? Uma Perspectiva de Complexa Rede ". O interessante estudo de Giorgio Fagiolo e Marina Mastrorillo se debruça em cima da preocupação sobre as migrações humanas e sua rede de negócios.

Estudando a estrutura da rede sob o ponto de vista topológico (suas medidas que representam a rede) eles conseguiram notar uma grande correlação entre as estruturas dos nodos de viajantes com as estruturas dos nodos dos negócios, relacionados com os países de origem e destino da imigração.

As figuras ao lado apresentam as duas redes com dados coletados no ano de 2000. Na verdade o estudo coletou dados desde 1960 para estudar diversos modelos de negócios e tentar entender a relação entre os nodos dessas duas redes.

A rede de imigração constitui de pessoas que deixaram seus países e suas famílias para tentar a vida em outro país. Os dados foram coletados na ONU.

A rede de negócios que mostra as transações internacionais, contou com dados de importação e exportação entre os países no período entre 1950 e 2000.

Sem pensar muito em matemática, apenas olhando para as duas figuras, já é possível para qualquer pessoa notar uma boa similaridade entre essas duas redes.

Para transformar os dados em modelo de negócios os pesquisadores usaram alguns modelos na área de Econometria e tentaram relacionar os dados dos modelos com os dados reais.

Estatísticas sobre a similaridade da rede e sobre o "peso" nas conexões também foram estudados.

Um dos modelos utilizados foi hábil em explicar 75% das variações nas transações bilaterais entre as duas redes de negócio. Isso deixou os pesquisadores tranquilos para tentar extrapolar sobre o grau de influência e correlacionar entrada de mais pessoas nos países de destino com aumento bilateral dos negócios.

Rede de Imigração

Rede de Negócios Internacionais

Relação entre Rede de Negócios e Rede de Migrantes

 

 

O gráfico ao lado extraído do artigo nos mostra a relação entre o número de conexões na rede de negócios (eixo horizontal) e o número de conexões na rede de imigração (eixo vertical).

Segundo os autores, quanto maiores os círculos e mais vermelhos, mais expressivos são os negócios bilaterais.

Por exemplo, no caso da imigração de pessoas da China para a Índia mostrado na seta ao lado, o círculo vermelho está na parte debaixo do gráfico. Significa que os negócios entre os dois países são volumosos, mas enquanto o número de ramificações na rede de negócios é alto, o número de conexões é baixo na rede de imigração.

Isso ocorre porque a imigração de chineses para a Índia é notoriamente pequena.

Mas o fato interessante da figura é a observação de uma linha onde os pontos se aglomeram seguindo um inclinação de 45 graus, com algum espalhamento.

Nas tabelas conhecidas como regressão, os autores demonstram um alto grau de relacionamento entre os nodos das duas redes. Não ocorreu entre China e Índia, mas a relação é bem forte entre outras centenas de relações e países.

O grau de correlação entre as duas redes chegou a 85% em alguns casos, demonstrados nas tabelas do artigo. E os autores então deixam a conclusão que "sim", a imigração faz o grau de conexão dos negócios aumentar de forma bastante significativa.

Então, se investidores sedentos por tanto dinheiro entendem apenas das notas de papel dos bancos, deveriam se animar com esse estudo e promover o acolhimento, mesmo que temporário, das famílias amontoadas na Europa. Claro que essas famílias não querem ficar na Europa, elas deixaram casas para trás. Se houver condições, com certeza elas vão querer voltar para sua origem.

A condição para voltar? Colocar o presidente Assad fora do poder na Síria. A outra é acabar com o estado islâmico. A outra é dar condições financeiras para essas pessoas reconstruam suas casas e cidades. Todos vão voltar? Não.

Obviamente os jovens vão querer continuar na Europa, trabalhando, namorando, construindo suas famílias. Mas vão enviar de volta para seus familiares os ganhos que terão na Europa e como vão pagar imposto sobre tudo, o dinheiro poderia voltar a circular de forma mais constante nos países europeus.

Da forma como está, a Europa vive uma forma de idade "medieval nos negócios". Tudo está estagnado, todos esperando ninguém sabe o que, e ninguém quer assumir nenhuma responsabilidade. O Reino Unido irá votar se fica na União Européia ou cai fora. A discussão é longa, mas claramente tem a ver com a onda migratória dos últimos anos.

Formas racionais, se estudadas e aplicadas existem. A demonstração financeira do artigo é mais uma constatação do que na prática já conhecemos. Nas décadas de 1980 e 1990 diversos brasileiros de origem japonesa retornaram para trabalhar no Japão. Todo dinehiro adquirido com sofrimento e trabalho era remetido para os pais aqui no Brasil. A conexão financeira entre Brasil e Japão aumentou consideravelmente.

Então, o que impede a resolução do problema da imigração com essas pessoas carentes de solidariedade?

Sempre ele: o dinheiro.

 

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