
Quarta-feira, 21 de Julho, 2010
O minério de ferro, a VALE e a mudança semanal
Qual o preço real do minério de ferro? Estaria ele realmente abaixo do seu valor real de mercado? Por isso as ações das mineradoras subiram tanto? O primeiro grande pânico do século XX foi em 1907, conhecido como pânico dos banqueiros de Nova York. Com uma exuberância de crescimento, o preço do minério de ferro acompanhava o cenário otimista do mercado americano. Com a crise de 1907 que todos achavam que seria passageira, o preço do minério de ferro retornou forte e depois caiu novamente aos mesmos níveis de pré-crise. E o retorno foi muito rápido e a ganância e o desespero por lucros fizeram seu preço despencar novamente. O preço aumentou 25% de 1909 para 1910 e retornou aos mesmos valores em 1911. A conduta normal do mercado conhecido como commodities é ter um atraso de comportamento e informação em relação ao seu ajuste de preço. Como o montante negociado é volumoso tanto em mercadoria quanto em preço, o ajuste demora de dois a três anos para acontecer. Se existe uma volatilidade ocorrendo no mercado, então esse ajuste pode demorar até mais.
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Então veio a crise de 1929 e os problemas com os preços do mínério de ferro foram ainda mais sérios. Com a economia mundial estagnada, grandes obras foram paradas e canceladas, obrigando a quebra de contratos e desistência de compras. Os preços caíram de US$2,50 para US$1,50 por tonelada de minério em 1932. Foram 40% na queda dos preços de um ano para o outro e o detalhe, dois anos após deflagrada a crise mundial. O mundo mudou, a tecnologia mudou, as negociações são mais rápidas, mas o ajuste dos preços das commodities respondem mais lentamente assim como há um século atrás. Tanto minério de ferro, alumínio, zinco, quanto os metais preciosos tem seus preços de ajuste mais lento pois a demanda por esse tipo de produto normalmente é criada por grandes investidores. Esses investidores trabalham num mercado de grande porte que depende dos pequenos invesitdores e compradores numa ponta muito mais à frente do que o tempo em que os contratos são fechados. Por exemplo, se um grande negociador comprou um grande carregamento de ouro, terá que "desovar" esse carregamento de ouro no mercado interno para negócios de investimento, ou para os pequenos negociadores de joalherias. Esses terão que repassar essa mercadoria para os clientes que devem estar dispostos a comprá-los. Em tempos de bonança os clientes de investimento ficarão divididos entre ter contratos de ouro que mudam mais lentamente (apesar de seguros) e ações. Em tempos de crise esses clientes irão atrás do ouro, mas as joalherias estarão encalhadas de metais preciosos, o que os obrigarão a não comprar mais do que já possuem em estoque. Essa lentidão no caso do ouro vale para outras commodities com exceção do petróleo pois a demanda por combustível tem um ciclo menor do que por exemplo para aço ou ferro. Com o grande número de veículos que precisam dos hidrocarbonetos (automóveis, trens, aeronaves) a necessidade por petróleo tem resposta rápida mesmo em tempos de crise. No caso do ferro, após uma crise financeira, com contratos já fechados bem antes, as mineradoras sentirão o problema ou quando a crise já está aguda ou quando a crise está terminando. No caso de 1929 foi exatamente isso, pois os carregamentos através de navios eram lentos, os contratos eram mais longos e a estratégia de estoque era diferente das estratégias usadas nos dias de hoje. Quando os estoques estavam diminuindo ou os contratos antigos terminando, já se passavam dois anos do grande crash.
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No caso específico dos tempos atuais de paralisia pós-crise, as especulações e a ânsia para fazer os tempos de bonança do minério voltar, fazem boatos serem muito traiçoeiros. Esses boatos são tão traiçoeiros e tendenciosos que mesmo experientes do mercado acabam caindo, pois a manada de pessoas contando o boato é tão grande que ele vira verdade. Foi o que ocorreu com a Vale do Rio Doce ontem (20/07/2010) na Bovespa. As ações da Vale do Rio Doce (Vale5 e Vale3) subiram mais de 6% sem aparente notícia importante. Isso foi zero perto de suas opções. A opção ValeH40 subiu 160% e outras chegaram ao patamar de 500%. O volume financeiro foi de 2 bilhões de reais, quase a metade de todo volume da Bovespa ontem. Correndo pelas notícias, o que se viu foi um mar de "achismo", "obscurantismo", "invencionismo" sobre o motivo da subida. Em notícia repetida por diversos sites entre eles O Globo, Clipping Planejamento, Portal Exame, o diretor Claudio Alves diz que não tem bola de cristal, mas emenda que "a China continuará a puxar o avanço da demanda de ferro" e que os preços sofrerão recuperação no quarto trimestre desse ano. Seria essa entrevista o motivo para uma "puxada" de 500% nas opções? Teria o diretor da Vale tanto poder assim no mercado? Então outros veículos reportaram que na verdade a China disse que ia afrouxar o aperto fiscal para manter o padrão de crescimento. E como a China é o maior importador de minério de ferro, os governos "devem ter avisado os analistas" que o minério de ferro não ia ser mais taxado. Outros analistas sairam dando entrevistas dizendo que como o vencimento de opções foi na segunda-feira e o preço já estava muito baixo, os investidores externos retornaram para comprar a Vale5 e Vale3. Quanta vontade comprar a ponto de subir as opções na extratosfera! Observando o gráfico a seguir dá para verificar que "tem boi na linha". Esses fatos relatados não são fatos relevantes a ponto da VALE segurar hoje a Bovespa para não cair. O gráfico a seguir foi retirado do site "Statistics Canada" e mostra o número índice sobre os preços do minério de ferro com base em 1997. O nível 100% representa que os preços estariam no mesmo valor de 1997. Olhando o gráfico percebe-se que a curva em azul a qual indica valorização, não dava indícios em Novembro que a tendência de baixa estaria se revertendo. Na verdade os preços ontem (20/07/2010) no mercado à vista da China (conhecido como "spot") fecharam a US$ 120,00 ainda muito longe dos patamares de US$180,00 negociados no início desse ano de 2010. Então será mesmo que a fala de um diretor, ou o vencimento de opções, ou o anúnico Chinês foram responsáveis pela alavanca das ações da Vale do Rio Doce? Cabe lembrar aqui que o relatório trimestral dos lucros sai dia 29 de Julho. Ontem parecia que os mercados estavam em êxtase, um foguete de "puxada para o céu" e foi só o presidente do FED começar a falar hoje que os resultados foram estes observados nos gráficos a seguir do Dow Jones e Ibovespa.
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O que aconteceu com os mercados não foi culpa do presidente Bernanke em dizer que "o cenário ainda está incerto". Ele está correto ao afirmar isso pois o cenário está mesmo com muitos estatísticas com dados contraditórios. Os relatos de lucros acima do esperado em certas indústrias contrasta com o nível de desemprego, o nível de confiança do consumidor, com o número de seguro desemprego, com o número de casas novas construídas e com o nível de crédito. As hipotecas voltaram a aumentar nos EUA. Os dados para o Dow Jones é tipico de mudança abrupta, ou seja, um bom período de tempo em alta frequência de negociação até as 14:00 (nos EUA) e depois desaba. O que esperar da VALE? Quem não entrou é melhor curtir essa dor de perder o bonde e esperar o próximo. Isso poderá acontecer na semana que vem com o relatório da VALE, ou não acontecer mais dentro de dois meses. Acompanhamos a VALE5 nessa semana para medir o nível de possível virada para baixo e para cima. O que pode ser observado (figura a seguir) é que quando o índice de entrada passou de 0,7 na segunda-feira a tarde o indicativo de compra era bom. E A VALE subiu. Hoje (21/07/2010) antes do meio dia o sinal de crash chegou em 1,0, o valor mais alto do IMA quando as ações eram cotadas à R$42,00. O sinal foi dado que a VALE vai voltar como já começou a voltar após o meio dia.
Subidas muito rápidas sem um patamar seguro e real sempre dão indícios de quedas abruptas por qualquer coisa sem muito sentido. Saber identificar o que é sinal real e o que é "achismo" pode evitar perdas caóticas no futuro. Isso porque como os primeiros a ganharem são os grandes investidores, quando as notícias chegam ao pequeno investidor os lucros gigantes já foram formados. Não deixa de ser como a famosa "corrente financeira". Se você é quem lançou a corrente vai ganhar junto com seus amigos mais próximos. Se você está no final da corrente não recebe de volta nem seu dinheiro investido. O minério de ferro é real, a demanda é real, a VALE é real, mas as notícias... |