Sexta-feira, 12 de Junho, 2015

 

Modelo Errado ou Governo Errado?

A noite caía não tão gelada como de costume, com um céu estrelado, típico de inverno, com um ar de tranquiliade na cidade. Pai e filha andam juntos, abraçados, sorrindo e fazendo piadas um com o outro. Então o pai diz para a filha:

- Você quer crescer e ter problemas para resolver, ou ficar sempre pequena para deixar os problemas para seus pais?

- Não dá para ter o melhor dos dois mundos? Crescer e não ter problemas? pergunta a filha.

- Impossível! Responde o pai. E continua:

- A natureza é sábia, sempre vai dar a nossa vida um saldo zero. Se você ganha muito na infância, em algum momento vai perder o suficiente para ter seu saldo zerado antes de morrer. Todos saem desse mundo com a conta zerada.

Quem diz que acerta sempre, é porque erra sempre. Impossível em toda sua vida sempre ganhar. Claro que existem pessoas que se gabam o tempo todo de só ganhar, analistas que dizem que só acertam, economistas de televisão que sempre recomendam investimentos que sempre estão certos e assim por diante. E até el alguns casos, todo mundo deve ter aquele amigo que realmente é o "cara de sorte". Parece que ele está sempre acertando em tudo que faz.

Mas no íntimo, mesmo esse sortudo de causar inveja sempre, terá algum problema sério, lá no fundo, bem no seu íntimo que ninguém nem imagina. A sorte nunca está do mesmo lado, caso contrário o ser humano não existiria. Ou então, se todos sempre ganham, alguém tem que perder para deixar os outros felizes. No tempos dos reis existiam os escravos, que sempre sofriam em prol da burguesia sorridente. Nos tempos atuais estamos, em certo momento, próximos disso, onde a população sofre para os políticos ficarem sorridentes.

Os tempos mudaram e salvo 0,1% da população, o resto está sofrendo pelo mundo afora. Se é marola, ou se é onda, isso é balela de baixo nível. O importante é que faltam no mundo líderes que espelham a confiança e a sobriedade dos povos. Políticos se degladeiam nos senados pelo mundo afora. E quanto pior a educação, pior as cenas.

E no Brasil....bem, nossa pátria educadora....

Em Março de 2014, escrevemos aqui sobre o modelo de Svensson para estimar para estimar taxas de juros e valores de títulos de dívidas de países e empresas (ver "A hora do Tesouro está chegando"). O modelo de Svensson é famoso nos meios acadêmicos de Economia, por ter um bom comportamento na previsão de taxas de juros para títulos. Pelo menos para um horizonte de pequena previsão, o modelo segue de maneira clássica e determinística os dados reais dos títulos. Já deixou saudades os gráficos desse artigo anterior, quando a situação do Brasil ainda estava dentro de uma banda de estabilidade.

Usamos o modelo de Svensson para estimar a taxa de juros de um dos títulos do Brasil, a NTNB-principal com vencimento em 2035. Recuperamos o gráfico da previsão do modelo do senhor Svensson (ao lado).

Naquela época, fizemos uma previsão para cerca de 60 dias á frente de Março, para depois verificarmos o quanto acurado seu modelo estava com os dados do Brasil.

Dois meses depois, em Maio de 2014, realizamos nova simulação para verificar os acertos e erros.

Os dados do título da dívida pública brasileira conhecida como NTNB-principal de 2035 oscilavam para baixo das estimativas, mas nada muito assustador a ponto de jogar o modelo fora.

Ao lado, recuperamos então o segundo gráfico que estava no texto "É hora de comprar títulos?".

Esse também é um gráfico que deixará saudades, pois ao observá-lo agora (ao lado) o erro era bom. Um erro com a taxa de juros sendo negociada abaixo do estimado, indica que o valor do título está aumentando. Isso é uma rentabilidade maior para o investidor.

Uma queda na taxa de juros da dívida significa que o país tem um bom grau de confiança com os investidores, sobretudo os grandes investidores internacionais.

Num determinado parágrafo desse texto de Maio/2014 escrevemos: "...A taxa de juros está em 11%, mas não parece que esse número será suficiente para segurar a alta dos preços. Não se vê isso no gráfico acima. Logo, os juros vão...subir!...".

Infelizmente, profético. Mas não é mérito, pois muitas outras pessoas já diziam isso. Olhando o modelo de Svensson era possível ver que a confiança excessiva com a queda nos juros tinha algo de errado.

Será que existia algo articulado par que algum outro país ou empresas internacionais entrassem comprando forte nossos títulos, forçando uma grande baixa como a que era visível? E baixa de juros é rentabilidade alta.

 

 

Previsão do modelo para 13 de Março de 2014

 

 

 

 

 

 

Previsão comparada para 9 de Maio de 2014

 

Previsão de Junho de 2015 para 90 dias (parâmetros antigos)

 

 

Previsão de Junho de 2015 para 90 dias (parâmetros novos)

 

 

Previsão de Junho de 2015 para 4 anos

Agora, mais de um ano após esses estudos, retomamos o modelo de Svensson com os dados atualizados do mesmo título NTNB-principal de 2035.

Colocamos nosso código para rodar o modelo no Matlab, o mesmo código de um ano antes, apenas atualizando os dados adquiridos do site do Tesouro Direto.

O que se vê então, após um ano, é que o modelo se tornou ainda mais obsoleto. Só que para nós, ainda pior. Antes o erro do modelo era superdimensionar uma crise, e agora vemos que ele subdimensionou a crise!

Sim, na data de hoje era para as taxas dos títulos estarem sendo negociadas por volta de 4% a 4,5%. O ganho do investidor nesse tipo de aplicação seria imenso. Dos atuais 800 reais que o título está sendo negociado hoje, era para estar valendo mais de 1.000 reais.

Observamos no gráfico ao lado, que a curva vermelha é a projeção do modelo que tinha sido ajustado ao cenário do Brasil antes da eleição. Em vermelho é o cenário que deveríamos estar vivendo, se o mundo e a natureza sempre estivesse nos favorecendo. Mas a natureza deseja lucro zero no final.

Assim, tudo que ganhamos, perdemos.

É claro agora que estamos no futuro e quando olhamos para o passado, vemos que o típo de dados desse título é algo completamente atípico para uma curva de títulos de dívida.

O modelo do senhor Svensson, famoso por sua característica foi vencido pelos dados .... do Brasil!. Conseguimos com nossa falha de gerenciamento estragar o modelo de previsão.

Na verdade, vamos reescrever a linha anterior. Uma realidade nunca se adapta ao modelo, e sim o contrário. Logo, a linha anterior, para quem não percebeu, foi só uma frase sarcástica para mostrar que um bom gestor pode sim levar sua empresa sempre para o bom caminho.

É só uma questão de usar um bom modelo, como esse de Svensson, e com pequenas correções de percurso, acreditar na matemática sofisticada que existe nele. Essa matemática não é apenas para prever algo, é para orientar como proceder, para manter o navio na rota.

O que fizemos então agora, foi ajustar com o Matlab novos parâmetros para esse novo cenário nacional. Com os novos parâmetros do modelo de Svensson, percebemos que no curto prazo, os juros não vão cair tão depressa. Leia-se, rentabilidade aquém do esperado.

A curva em vermelho indica que nos próximos 170 dias a taxa de juros deverá ficar praticamente no mesmo patamar de hoje, por volta de 5,5%.

Não parece então, aos olhos de Svensson, que aplicar nesses títulos seja um bom negócio até o meio do segundo semestre desse ano. Parece melhor aplicar o dinheiro guardado em outro investimento do que nesse tipo de títulos.

Mas claro, como nossos dados traíram o modelo no passado, podem trair novamente. E tomara que isso aconteça, com as taxas de juros caindo muito mais do que no modelo. Isso significa que os valores dos títulos aumentariam muito mais.

Também em nosso outro texto, fizemos uma simulação para os 4 anos à frente. Naquela época o modelo mostrava uma taxa de juros bem baixa, projetando lucros bem altos.

Refizemos novamente essa simulação para 4 anos. E a taxa do modelo estaciona em 5%. Mau, muito mau cenário se essa taxa ficar estacionada em 5%. É sinal que o horizonte de investimento nessa aplicação não empolga.

Tudo isso é verdade? Depende do governo. Quem faz a vida desses títulos serem mais atraentes ou não é o governo, com sua política de crescimento do país. Pensar somente em alta de juros, alta de luz e corte de incentivos, pode piorar ainda mais os dados. Tudo o que está sendo feito só terá efeito com uma lição de casa mais séria por parte do governo.

Por exemplo, um governo com coragem, deveria propor corte na quantidade de deputados, de senadores, corte nos salários dos deputados, corte na ajuda de custo para os deputados, corte nos salários dos juízes, enfim, todo mundo tem que sentir a mesma dor. Falar em "remédio" amargo, onde apenas a população de classe média e baixa pagam, não é um remédio: é um veneno.

Afinal de contas, as classes que fazem o país andar não são as classes A e A+. São as classes mais baixas e a classe média. Por que abortaram os impostos sobre fortunas de megamilionários? Mas não abortaram os cortes nos benefícios do assalariado.

O modelo de Svensson não é perfeito, como nenhum modelo matemático é. Mas ele é mais perfeito do que a atitude de governadores, deputados, senadores, juízes e governo federal. Ninguém escapa nessa linha de política, todos estão errados e não se vê ninguém procurando acertar a casa de maneira organizada e de longo prazo, como prevê o modelo de Svensson.

Assim, parece verdade o que o pai disse à filha. Não adianta as pessoas acharem que vão sempre ganhar. Quando a conta chega para zerar o crédito, ela chega rápida e severa. Isso quando ela não chega colocando a própria vida em risco, com fomes, roubos, sequestros, e outras mazelas lamentáveis que já viraram corriqueiras no país.

 

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