Sexta-feira, 6 de Abril, 2018

 

O monstro fora de controle

O cenário de um filme clássico antigo de terror é sempre o mesmo. Começa com um cientista louco, ou nerd, que cria um monstro, uma máquina, um software que tenta de alguma forma beneficiar a sociedade. Mas sempre aparece algum personagem ganancioso que deseja a invenção para si com o intuito de dominar o mundo.

O que acontece em seguida é que a criação domina o criador e sempre causa pânico na sociedade, com destruição de vidas, prédios, dinheiro e ao final, o herói aparece para salvar e destruir esse "monstro incontrolável".

E temos nos dias atuais um monstro que venceu a sociedade. O Ódio !

Se em outros tempos fomos conhecidos como um país de pessoas boas, de bom coração, receptivos e de muito bom humor, hoje esse lugar em que vivemos está doente. As pessoas estão doentes. Os governantes estão doentes. A sociedade, na origem da palavra em seu sentido mais amplo, não existe mais.

Com o fim da era militar, que foi sim um golpe de estado patrocinado pela farda, uma lacuna se abriu no Brasil. Se hoje Michel Temer tenta colocar outra palavra para o golpe militar de 1964 é por covardia pessoal, por covardia de um governo que se mostra corrupto dia após dia, apoiado antes pela mídia e agora buscando âncora com os militares.

Quando General Figueiredo assumiu seu governo, desde o início deixou bem claro que gostava mais dos cavalos do que das pessoas. E por isso faria uma abertura democrática o mais rápido possível e se aposentar. E quando entregou o governo deu uma declaração para os jornalistas que o acompanhavam: "esqueçam de mim".

A lacuna que se abriu foi porque a ferida exposta de crimes militares cometidos nunca se fechou. A bomba do complexo Riocentro no Rio de Janeiro foi uma farsa que tentava implantar na oposição a medalha de terroristas. A morte do jornalista Herzog nunca foi devidamente apurada. A morte de Rubens Paiva ficou aberta, sem corpo, sem provas do crime, com a família vivendo por anos sem ao menos uma certidão de óbito. O mesmo agora tentam fazer com o caso da morte brutal da vereadora no Rio de Janeiro.

Para tentar colocar panos quentes, na época Sarney deu de ombros quando assumiu o governo a todos esses percauços e claro, assim como Michel Temer, ele também fez um governo com diversas covardias e repleto de covardes que não se propuseram em fechar as feridas. O ódio dos familiares ficou obscurecido, mas ficou aquecido e fechado ao círculo de parentes.

A imagem a seguir é forte, é triste, é emblemática e marcante, mas serve de alerta para todos que nunca viveram aquela época de que uma ditadura militar nunca será a maravilha que agora seus simpatizantes tentam espalhar nas redes sociais.

Jornalista Vladimir Herzog, segundo na época, tinha "se enforcado"

Sabidamente, quando não se tem governos, ou quando se tem governos de covardes, alguém vai tomar o poder. E esse alguém foi a mídia televisiva nacional, seguida de perto pelos jornais. A Rede Globo elegeu Collor de Melo, ao produzir inúmeros documentários, inúmeras reportagens sobre o famoso "caçador de marajás".

Na eleição de 1989 o país ficou dividido, mas não como hoje. Havia sim bate-bocas nas famílias, ásperas conversas entre amigos, mas o ódio ou a raiva era contida pela racionalidade da época. Estávamos na época onde o Muro de Berlim tinha sido derrubado. A ameaça da guerra fria estava terminando. O sentido de "nós contra ele"s, provocado pelos EUA contra a URSS, estava bastante tímido e muito pouco resiliente.

Apesar de marcante, aquela eleição dividiu o país em opiniões, não em irracionalidades pessoais. Mas do mesmo jeito que colocou Collor, a mídia tirou Collor. Com uma série em formato de pequena novela, a Rede Globo de televisão jogou gasolina na situação presidencial que ela mesma havia criado.

Os crimes existiram, os criminosos estavam sempre ao redor da Casa da Dinda, pertencente à família de Collor, mas a mídia só abandonou o presidente nos últimos meses, quando a voz das ruas começou a crescer. Quando os cara-pintadas saíram para as ruas, a Rede Globo resolveu dar uma "pequena força" no movimento e mudando de lado, tirou Collor. E na eleição seguinte, colocou Fernando Henrique Cardoso, promovendo novamente o discurso velho e surrado de nós contra os "vermelhos".

E de lá para cá, Globo e demais jornais alinhados a ela, nunca mais pararam com artimanhas bastante visíveis de incentivos aos candidatos que lhe agradavam e expondo dados negativos, até muitas vezes em clima de barbárie ou chacota, de candidatos que não lhe serviam. E essa mesma mídia apoiou Lula nos dois mandatos. E essa mesma mídia apoiou Dilma no primeiro mandato.

Mas ao final de 2012 um outro discurso entrou em cena. Com o advento do fenômeno internet, a mídia profissional viu seus patrocinadores diminuir. Era muito mais fácil e lucrativo para os patrocinadores investir em blogs e sites. Para a mídia de grande circulação, agora não se tornava mais a prática antiga eficiente.

Não bastava dizer que esse governo é isso, ou esse governo é aquilo. Não bastava dizer que esse candidato era isso ou aquilo. As pessoas agora tinham como buscar os dados e verificar se a mídia dizia a verdade ou não. Então, a grande mídia partiu para arquitetar planos extraindo o que os candidatos ou governos tinham de pior.

As piores frases, as frases com tom jocoso, conversas de corredores gravadas em celulares, ou conversas em "off" com seus repórteres. E vamos reconhecer que isso é muito fácil de se obter no quadro político no Brasil, visto o baixo nível de instrução dos políticos e o alto nível de corrupção. Qualquer governo sempre terá corruptos e roubos e nós só saberemos se a grande mídia colocar no ar.

E se a grande mídia não der espaço, não significa que o governo não está roubando, é que está servindo bastante aos interesses deles, mídia, e não nosso interesse como cidadão. A própria Globo reconheceu isso em editorial do JN alguns anos atrás sobre o apoio que deram aos militares na ditadura, pedindo desculpas.

E ao colocar em letras garrafais nos jornais, ou em horários nobres, fatos ou palavras de políticos "podres", a grande mídia criou em seu laboratório a estrutura do Ódio. Os editores são os arquitetos desse ódio. Os jornalistas são empregados dos editores (quase escravos), ou seguem essa linha, ou são demitidos.

Então, para se manterem no cargo, ou sonhar em ser algum dia um âncora, saem para ficar amigos dos políticos e sacar a qualquer custo um furo de jornal, com alguma frase que alfinete a pessoa que está sentada em seu sofá e que ajude na repercussão nacional a derrubar um governo do partido A ou B.

O monstro Ódio encontrou um campo fértil nas redes sociais. Sobretudo no famigerado Facebook. Um site que nasce de votação sobre qual colega da faculdade é mais bonita, ou mais namoradeira, ou mais atraente do que as outras, com certeza não é um site sério e útil.

O Facebook cria uma rede de "falsos benefícios", mas por trás de todo seu software, sempre o maior interesse foi coletar dados para vender e influenciar eleições, derrubar governos, colocar propagandas direcionadas em subliminares e assim por diante. E agora que isso foi descoberto na Inglaterra, seu fundador deve muitas explicações.

E assim como um fungo que começa a se desenvolver, assim como algas em piscina, se não jogarmos algum produto para controlar, eles se proliferam e contaminam tudo.

Com as redes sociais, o monstro Ódio se desenvolveu no Brasil e no mundo todo. Mas como aqui no Brasil, a população é uma das que mais acessa internet, um país onde existe em média dois celulares para cada habitante, a rede social fez o Ódio sair de controle.

O que leva um jornalista esbravejar contra alguém, pedir cadeia, pedir morte, bater na mesa como se fosse um pai revoltado com seu filho em rede nacional?

Existem hoje diversos programas de rádio e televisão, onde seus âncoras são os senhores da verdade. Quando se tem entrevistados, apenas o âncora fala, para direcionar as respostas para o seu campo preferido: o campo do Ódio.

Nós somos os mocinhos, vocês são os bandidos. Nós não temos criminosos e vocês são todos criminosos.

Ou ainda, nós temos criminosos, mas não se tem provas. Ou ainda, nossos crimes são muito pequenos, pois tudo começou com vocês.

Ninguém, absolutamente ninguém tem sangue de barata. Temos em nosso cérebro, uma área bem interna que é remanescente dos homens primitivos.

Lá no centro de nosso cérebro, uma região ainda segura, contém o instinto selvagem e animal de matar o outro para dominar o território.

Denúncias de ofensa na internet no Brasil - Dados: Safernet.org.br

 

 

 

Denúncias de ofensa DIÁRIA na internet no Brasil - Dados: Saferlab.org.br

 

Carro de jornalismo atacado hoje (06/04/2018)

E obviamente isso com o estímulo da mídia profissional e das redes sociais, está acordando o gigante adormecido no interior dos cérebros da grande maioria de indivíduos.

O problema disso?

Saiu do controle das mídias e das redes sociais. O monstro Ódio não está mais controlável e agora se volta inclusive contra seus próprios criadores.

Os próprios repórteres agora são vitimas do ódio que alimentaram no passado recente. Estão provando da bába venenosa que escorre da boca das pessoas incontroladas pelo monstro Ódio.

Dois sites de denúncias sobre abusos na internet já demonstram com dados, o crescimento explosivo de todo o tipo de ódio e raiva.

O Safernet e Saferlab coletam denúncias e dados sobre a população e suas postagens em redes sociais. Recebem e encaminham as denúnicas para serem apuradas.

Segundo o Saferlab, desde 2006 eles já receberam mais de 2 milhões de denuncias relacionadas a todo tipo de ódio.

No primeiro gráfico acima é possível ver que em 2012 o Brasil tinha 37 denúncias sobre ofensa e intimidação na internet através do Safernet.

No ano passado, o número de denúncias nesse site saltou para 359. O aumento foi de quase 10 vezes em 5 anos de acompanhamento.

No gráfico ao lado vemos as denúncias coletadas diariamente pelo Saferlab. O aumento explosivo sobre denúncias de estrupo, pornografia infantil, racismo, xenofobismo, nazismo é impressionante num país que até uma década atrás era o mais "amistoso" do mundo.

O jornalismo, que deveria servir de modo positivo à população, toma partido não declarado no país, onde seus editoriais deixam escapar seu ódio incentivando no subliminar das pessoas o "nós contra eles". Tanto a extrema direita mais alinhada com o facismo, quanto a extrema esquerda de militância irracional estão ganhando potência em redes sociais incentivadas pela mídia.

Em outros países também ocorre o mesmo fenômeno e em certo grau ainda mais sério. Nos EUA onde a venda de armas é aberta, mortes entre os civis sem crimes estão aumentando de forma explosiva. Por lá a eleição de Trump foi gasolina no adormecido ódio dos estados de fronteira com o México. E ainda Trump voltou a incentivar o ódio contra a China e contra os pobres.

O que fazer?

As redes sociais são de muita utilidade, mas tornaram-se um campo fértil para proliferação de ideias exclusivistas do passado. Pessoas que na vida real são aparentemente calmas, encontram nessas redes o canal para se libertarem das amarras da vida social real. A loucura é a lei das redes sociais de hoje em dia.

A saída passa pela educação. E a educação passa por uma eleição justa, com um governo justo, que plante uma semente para a valorização dos professores, não somente em termos de salários, mas de perspectivas de crescimento e prazer por ensinar. Sem a educação, as crianças que cresceram na década passada frágeis em pensamentos lógicos, hoje são os atacantes e divulgadores do monstro Ódio.

A curto prazo, não existe solução. Não adianta restrição, não adianta lei, não adianta amarra, não adianta proibição. A situação está tão tensa que primeiro temos que trabalhar para baixar a poeira da raiva. Criar cenários mais otimistas no país, incentivando colunas de jornais e canais de notícias voltadas para boas pesquisas e divulgações sobre Ciência, por exemplo, para pegar jovens que podem aprender brincando.

Michel Temer cortou ainda mais a verba de Ciência, quase acabou com o ministério da Cultura, chamou artistas de esquerdopatas e vagabundos, inflando uma das classes mais importantes do mundo educacional. Agora artistas que cantam um determinado gênero são vaiados, não pelo seu tipo de música, mas pela sua afinidade política.

Esse ódio, vem da falta de educação!

Enquanto editores estiverem nessa linha de alimentar o monstro que eles criaram, não temos opção no Brasil. O único e trágico desfecho que poderemos ver em breve é o sangue na rua. Como isso já começou, o sangue do ódio só vai se intensificar. A questão que fica é se esses jornalistas que ditam o tom dos editoriais querem mudar.

Será?

Obviamente que não querem. Já escolheram seu lado há mais de um século no Brasil. Estão no conluio dos políticos que lhes prometem investimentos em propagandas de governo, em redução dos juros de suas dívidas, ou mesmo de empréstimos para suas dívidas com uso dos bancos federais tais como Caixa, Banco do Brasil ou BNDES. A própria Globo teve um expressivo empréstimo a taxa quase zero de juros junto ao BNDES para não quebrar no início dos anos 2000.

O monstro venceu essa batalha!

Mas a guerra só depende da coragem. Enquanto os covardes por mudanças positivas estiverem escondidos nas moitas da vergonha, esse monstro Ódio nos destruirá. Que as pessoas de bem usem de sua racionalidade para pacificar essa região do globo que chamam de país.