Terça-feira, 2 de Agosto, 2016

 

Olimpíadas: O que esperar da Natação?

No próximo sábado, logo após a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, inicia-se a competição que está entre as mais tradicionais da Olimpíadas, a natação. Nadadores ficaram famosos como o eterno Tarzan, Johnny Weissmuller, que conquistou cinco medalhas de ouro em 1924 e 1928 e estabeleceu 67 recordes mundiais na categoria. A natação é uma competição que evoluiu muito rápido, com recordes sendo quebrados a cada novo campeonato. Os tempos foram sendo cada vez mais baixos graças aos novos estudos aerodinâmicos, estatísticas de evolução, estratégias de provas, dentre muitas outras melhorias.

O maiô masculino foi importante para a quebra da maioria dos recordes, mas foi abolido por reduzir demais a superfície de contato da pele com a piscina e ser considerado um meio não natural de competir. Foi um acerto sua proibição nas competições, mantendo a igualdade entre os participantes, sendo o princípio que norteia os jogos mantido.

Na figura a seguir é possível ver como os tempos dos 100 m livres para homens foram caindo ao longo do século XX, desde 1922 até 2009, quando Cesar Cielo ainda mantém sua histórica marca de 46:91 segundos em 2009. Até o momento ninguém chegou perto, nem o próprio Cielo, que não participará das Olimpíadas por não conseguir marca.

A natação do Brasil foi sempre heróica e desde os primórdios, com poucos nadadores, conseguiu feitos inesquecíveis. O que foi esquecido ao longo do tempo foi o apoio dos governos brasileiros, somente se lembrando dos atletas perto das competições importantes. Ainda são os pais dos garotos escolares que bancam todo o treinamento nas piscinas dos clubes, sem apoio oficial, ou com apoios irrisórios.

Nesse ano, por ser no Brasil, a equipe de natação será forte e também será grande. Pela primeira vez, 29 nadadores vão formar a equipe. Mas o quão forte é nossa equipe? Vamos esquecer as "reportagens fofinhas" que fazem as pessoas chorarem em rede nacional e vamos aos fatos. Números e tempos é que dirão o que poderemos esperar e não vídeos com filtros coloridos e tons melodramáticos sobre a vida dos esportisticas, como a fraca e tendenciosa mídia nacional tenta induzir a população.

Tomamos na Federação Internacional de Natação (www.fina.org) o ranking atual mundial dos 100 melhores nadadores nas modalidades 50 m livre, 100 m livre e 200 m livre. Esse primeiro gráfico a seguir, mostra o ranking feminino para os 50 metros livre. Entre as 100 melhores nadadoras, o Brasil tem como melhor colocada a Etiene Medeiros, na décima quinta posição. Seu melhor tempo atual foi de 24:64 seg, enquanto a primeira colocada, Cate Campbell tem 23,84 seg. Etiene terá que baixar quase 1 segundo para a medalha de ouro ser sua. Ou então 50 milésimos para tentar a medalha de bronze. Os pontos verdes do gráfico são as nadadoras brasileiras entre as 100 melhores do mundo.

No caso masculino, temos um forte concorrente. Bruno Fratus tem 21:74 e o primeiro colocado do ranking tem 21:42. Se melhorar cerca de 30 milésimos Bruno poderá beliscar uma medalha. Além dele, o Brasil tem outros bem colocados no ranking, mas entre eles está Cesar Cielo que não participará. Outros também não participarão, pois darão prioridade para outras modalidades onde são mais fortes, como nado borboleta ou de costas.

Nos 100 m livre, nosso melhor colocado é Marcelo Chierighini com 48:20, sendo o primeiro colocado mundial, o quase imbatível Cameron McEvoy da Austrália, com 47:04. Se tudo correr dentro da normalidade ninguém vai tirar a medalha de ouro desse australiano. Mesmo o segundo colocado do ranking em sua melhor prova chegou apenas a 47:72, quase 1 segundo atrás de McEvoy. Se conseguir tirar 30 milésimos, Marcelo poderá tentar uma medalha de bronze, visto que o melhor tempo do chinês Zetao é de 47:96. Podemos ter um bronze nessa modalidade masculina.

Já no feminino, os 100 m não dão esperança nenhuma de medalha. Nossa melhor representante no ranking é Larissa Oliveira e está na vigésima quinta posição. Seu melhor tempo foi 54:03, enquanto a número 1 tem o tempo de 52:06. Mesmo a terceira colocada tem o tempo de 52:78. Larissa e as demais meninas terão que tirar quase 2 segundos para alguma medalha. É quase impossível dentro da normalidade.

Mas claro, o fato legal dos jogos é que a emoção, o coração e a adrenalina poderão mudar tudo. Por exemplo Cate Campbell (número 1) poderá ter uma infecção estomacal, ou sentir o calor do Rio, ou simplesmente não entrar direito na prova movida pela emoção.

Então se nossas nadadoras estiverem no seu melhor dia e as melhores do rank no seu pior, poderemos ter algo como bronze. Mas isso pode ser apenas nosso sonho. Pelos resultados dos campeonatos, nenhuma brasileira conseguiu nadar no campo dos 52 segundos essa prova.

Nos 200 m livres para mulheres não temos a menor chance de medalhas. Nossa perfomance feminina para essa prova é muito baixa. O tempo entre nossas nadadoras e as estrangeiras é uma eternidade.

Nossa melhor colocada é Manuella Lyrio, com 1:58:59 enquanto a primeira do ranking tem o tempo de 1:54:34. É simplesmente impossível qualquer medalha nessa categoria. A diferença de 4 segundos em natação são muitas braçadas, um ou dois corpos de vantagem.

Mesmo que caimbras ataquem a número 1, existem ainda outras 50 melhores do que as brasileiras. Nossa melhor colocada está na posição 61.

Apesar da equipe ter um representante melhor para os homens na prova dos 200 m livre, nosso melhor colocado está na posição 25. Nicolas Oliveira tem o tempo de 1:46:97 enquanto o número 1 tem 1:44:82.

Tirar 3 segundos na natação é muito complicado, mas se Nicolas conseguir baixar para a casa dos 1:45 poderá entrar em pé de igualdade com os 10 melhores do mundo.

Talvez consiga fazer parte da prova final, o que seria um sonho perfeito para ele.

 

 

 

 

 

200 m livres para mulheres - ranking mundial

200 m livres para homens - ranking mundial

O esforço para baixar 3 segundos é enorme, uma luta cruel e muito difícil. Mas tudo é possível. Num bom dia, se nadar forte e outros 10 nas eliminatórias caírem, poderemos ter esperança de um bronze nessa prova.

Mais do que isso, é muito difícil e complicado.

Essas 3 provas são difíceis, fortes, rápidas e qualquer erro na largada fica difícil de recuperar.

Existem no entanto boas esperanças nas modalidades costas e borboletas, em pontos isolados e com nadadores ainda espalhados.

Ao contrário dos EUA, Austrália e China, ainda dependemos do esforço heróico da garotada. Não temos uma equipe homogênea, mas destaques que podem surpreender.

Qual escola pública brasileira possui uma piscina para suas aulas de Educação Física? Aliás, muitas desistiram dessa disciplina, pois nem mesmo quadra de basquete decente elas tinham.

Nossas escolas são voltadas para treinamento do Enem, do vestibular, apenas isso. A Educação em seu maior grau de palavra não existe no Brasil, ou é muito raro.

E isso se reflete em nossos campeonatos internos de natação. Como são fracos, os atletas precisam de patrocínio para participar de treinos fora do país, nadando lado a lado com medalhistas e poder ter condições de competir em pé de igualdade.

Ao entrar no site da CBDA é possível consultar os recordes para os torneiros regionais do Brasil. Enquanto nosso recordista Cesar Cielo detém o recorde mundial para os 100 m livre de 46:91, o tempo médio recorde desses torneios regionais é de 52:30. O melhor tempo obtido nesses campeonatos foi de 50:24. Como um nadador de ponta, interessado em ser o melhor do mundo poderá treinar em campeonatos tão fracos como os nossos, onde o tempo do melhor nadador é 4 segundos mais lento do que o número 1 do mundo?

Pedir medalha para a natação brasileira é quase uma piada. E ainda assim a garotada consegue. Muitos, diga-se de passagem, são mantidos fora do Brasil pelos seus pais com poder financeiro melhor. Para nós é inaceitável aceitar a premissa de que os melhores nadadores estão na região sudeste e com dinheiro. Com certeza no sertão nordestino existirão nadadores tão bons quantos os do sul do país. Quem vai lhes dar condições? Tem que ser o governo.

Outro ponto são os treinamentos de regulariedades. Por exemplo, de nada adianta nosso nadador ir bem num campeonato e depois não manter sua posição. Vide nossa estrela maior Cesar Cielo. Na primeira distração, caiu fora da equipe. Concentração, disciplina, competições exaustivas, tudo isso faz parte de um medalhista.

A título de exemplo de regularidade, acompanhamos a carreira desde 2011 de Cameron McEvoy e nosso melhor do ranking atual para os 100 m livre para Homens, Marcelo Chierighini. A perfomance não deixa dúvida sobre a consistência de queda e melhora no tempo do australiano, anos após ano baixando seu tempo anterior.

Enquanto nosso melhor nadador dos 100 m livre nunca baixou de 48 segundos, o australiano está buscando o recorde de Cielo que poderá sim, ser detonado, aqui no Brasil. Será uma final onde um homem nadará contra o tempo e não contra outro humano. A final dos 100 m livre será sensacional.

Esse é o espírito dos Jogos Olímpicos. Não é um quadro de medalhas, não é a quantidade de ouro, não é a babaquice de país contra país, mas a batalha do homem contra o tempo, vencer o tempo que corre num fluxo contínuo. Quando o ser humano derrota o fluxo do tempo, os deuses param de fazer suas tarefas para admirar o ser humano. Com isso, o homem chega mais perto de sua imortalidade.

 

 

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