
Quarta-feira, 26 de Julho, 2010
1907: o ano que New York faliu
Que anos dourados foram aqueles do início do século XX com a prosperidade nunca antes vista, com invenções como máquinas a vapor, telégrafo, telefone, imprensa escrita com alta cobertura dos fatos e bancos se proliferando nos EUA. O crescimento do consumo americano era invejável e exuberante. Nada poderia atrapalhar a economia que despontava no mundo da época, com New York sendo uma cidade agitada, ainda meio tímida com os primeiros magnatas com suas cartolas pelas ruas. Nada atrapalharia esse desenvolvimento rápido e crescente. Nada mesmo?
Quem denunciou que algo de errado ia ocorrer foi uma catástrofe natural. O grande terremoto de San Francisco arrasou a cidade com incêndios e mortes numa escala nunca antes vista. Com isso as companhias de seguros se viram à beira de um colapso, pois teriam que arcar com os milhares de pedidos de indenizações. A economia da região parou, com os bancos recebendo pedidos de empréstimos, com as vendas estagnadas e o comércio nulo. Um grande e dispendioso empréstimo federal foi necessário na região. Como sempre os "criacionistas" do mercado adoram inventar tipos de produtos para atrair capital de risco. E naqueles inocentes anos era ainda mais fácil atrair pequenos investidores e grandes banqueiros para produtos que "nunca" dariam errado. Novos produtos com promessas de altos rendimentos surgiram.
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Otto Heinze era irmão de Fritz Augustus Heinze, presidente do Mercantile National Bank que por sua vez era sócio e dono junto com seu irmão, da companhia de minério United Copper Company. E aí começa todo problema do pânico de 1907. Otto achou que as ações da United Copper estavam sendo alugadas por alguns corretores, pois ao monitorar o número de negócios, estimou que haviam 25.000 ações a mais do que as representativas da United. A contra gosto de seu irmão Fritz, Otto resolveu "apostar" contra o mercado. A idéia de Otto era fazer uma chamada de margem para ações de corretores (operações de margem eram rotineiras na época) que caso não tivessem de posse das mesmas, teriam que comprar no mercado, elevando assim a procura e o preço. Com essa recompra, Otto estimava que seria no máximo um desembolsar 3 milhões de dólares de imediato, mas com a disparada dos preços iam ter um lucro estupendo. Essa estratégia ficou conhecida como "squeeze" (aperto). No dia 12 de Outubro de 1907, as ações da United Copper valiam 37 dólares e Otto decidiu que era ora de fazer o "squeeze". Ele fez uma chamada de 6 mil ações no sábado. Na segunda-feira as ações abriram em leve alta para 39 dólares, mas quando a notícia se espalhou que um operador estava chamando 6 mil ações os preços aumentaram a cada 15 minutos para 40, 41, 50, até chegar a 60 dólares! Quase 100% de rendimento em meio dia de negócios. Otto estava contente, pois sua jogada parecia ter dado certo. Mas então, a verdade apareceu. Otto errou, pois não havia ações emprestadas, as ações realmente existiam e estavam de posse dos corretores que as compraram. No mesmo dia, às 14 horas começaram a aparecer as ações chamadas e a United Copper tinha que pagar por elas na entrega. Logo de início um pagamento devido deveria ser feito com valor de 630 mil dólares. Na terça-feira, respondendo a chamada de margem, 20 corretores devolveram as ações e a United pagou mais uma vez.
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E logo Otto percebeu que a jogada tinha dado errada, pois todos os chamados de margem estavam sendo respondidos, não havia excesso de ações nem empréstimos. Milhares de ações e corretores começaram a chegar à sede da companhia para receber pelas ações. Com excesso de ações em mãos, o mercado começou a vender e então do preço de 60 dólares as ações começaram a despencar e terminaram o pregão valendo 36 dólares. No dia seguinte as ações terminaram valendo apenas 10 dólares. O desastre estava feito, a United Copper não tinha o montante suficiente para pagar 6.800 ações que responderam a chamada de margem. Em 16 de Outubo de 1907, a United Copper estava falida, apenas 4 dias após o squeeze. O efeito cascata foi intenso e rápido. Para suportar e pagar as chamadas, o irmão de Otto, presidente do banco Mercantile começou a tomar empréstimos acima do que o banco poderia ceder. No dia 12 de Outubro quando começou o squeeze, o banco tinha 19 milhões de dólares em caixa. No dia 16 de Outubro 11 milhões de dólares. Estando muito aquém de suas reservas, o banco tomou empréstimos de outros, que começaram a tomar empréstimos de outros que acabaram vendo suas divisas chegando perigosamente ao nível de falência. Com tantos bancos sem caixa a população começou a ficar apavorada e correram para sacar dinheiro, fazendo o ciclo de queda se acentuar ainda mais. Com medo as pessoas passaram a não gastar mais, economizando. Isso fez donos de estabelecimentos dispensarem os empregados, que gerou um aumento de desemprego e inadimplência. Quem mais foi afetada foi a cidade de New York. Com a enorme quantidade de bancos e corretoras a cidade sentiu de imediato o pânico, com contratos quebrados e impostos praticamente zerados. A cidade parou. Ao tentar lançar títulos da dívida pública, o que se viu foi um fiasco pois os europeus na época os maiores investidores na América, não confiavam mais no sistema bancário americano. Durante a queda a prefeitura de New York tinha financiado 40 milhões de dólares na esperança de ajudar e receber o dinheiro de volta com juros. Não recebeu.
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Foi aí que surgiu a figura lendária de J. Pierpont Morgan. Percebendo que a crise de confiança tinha assolado o país, ele se cercou com mais 20 banqueiros, transformando sua casa no quartel general da guerra financeira. Segundo conta a lenda, ele pediu para o seu advogado sair da sala e trancar a porta por fora. Os banqueiros somente deixariam a casa de J.P. Morgan se fizessem "doações" generosas para sustentar o sistema financeiro dos EUA. Ele próprio emprestou à cidade de New York 30 milhões de dólares, conseguindo um total de 100 milhões para a prefeitura. Além disso, os 20 banqueiros se associaram e compraram uma após a outra as grandes companhias do mercado financeiro, para segurar o pânico. Fora isso, J.P. Morgan ainda foi a Europa, saudado como herói pelos seus atos e convenceu à Inglaterra a enviar diversos carregamentos de ouro para manter os bancos funcionando.
Passada a crise e com a recuperação do sistema, alguns anos depois, o patrimônio de J.P. Morgan era de 22,5 bilhões de dólares contando com 112 corporações em 1914. A lição que o governo americano aprendeu, então ausente e somente aparecendo no final da crise, é que a saída para uma crise é a concentração de todos os bancos em torno de uma única entidade. Copiando a idéia de J.P. Morgan, o governo americano entendeu que não poderia haver bancos particulares comandando a emissão de moeda e todo o sistema financeiro. Foi então, em 1912 que surgiu o Banco Central Americano conhecido como FED, responsável por centralizar as operações de todos os bancos e emissão oficial de moeda. A crise ensinou que na hora do pânico as ações devem ser coordenadas por uma única entidade. Todos os detalhes e melhores explicações com notas detalhadas muito interessantes sobre esses fatos podem ser encontrados no livro de Robert F. Bruner e Sean D. Carr "The panic of 1907" que se encontra na "aba" livros desse site.
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