Sexta-feira, 26 de Janeiro, 2018

 

O Julgamento

 

Juiz: Galileo, filho de Vincenzo Galilei, florentino, 70 anos de idade que jurou dizer a verdade.

Juiz: Como e há quanto tempo chegou em Roma?

Galileo: Eu cheguei a Roma no primeiro domingo da Quaresma...

Juiz: Diga se sabe ou suspeita o motivo de sua intimação?

Galileo: Eu pensei que me apresentaria ao Gabinete Sagrado para explicar meu livro recentemente publicado.

Juiz: Diga se, ao ver o tal livro, o reconheceria como seu.

Galileo: Eu espero que sim. Se ele me fosse mostrado, eu esperaria reconhecê-lo.

Escrevente do processo: Foi lhe mostrado um livro de Florença, publicado no ano de 1632, chamado "Diálogo por Galileo Galilei". E quando ele o viu e o analisou, ele disse:

Galileu: Eu conheço este livro muito bem e reconheço que o escrevi.

Galileo: E reconheço que tudo que há nele foi escrito por mim.

Juiz: Deixem Galileo dizer o que o Cardeal Belarmino (hoje sua santidade Papa Urbano VIII) disse sobre a decisão da Santa Congregação do Índice em um dia do ano de 1616.

Galileo: O Cardeal Belarmino me informou que a opinião sobre a estabilidade do Sol e sobre o movimento da Terra era considerada repugnante pela Bíblia. Creio que o cardeal tenha dito que eu poderia defendê-la "hipoteticamente" como fez Copérnico.

Papa Urbano VIII (Cardeal Belarmino)

Juiz: Galileo pode explicar o que há em seu livro que nos levou a intimá-lo a comparecer aqui?

Galileo: Quando eu estava escrevendo "Diálogo" eu não o fiz porque concordava com a doutrina de Copérnico. Em vez disso, eu divulguei as razões astronômicas que podiam ser apresentadas por ambos os lados do debate e tentei mostrar que nenhum deles tinha uma conclusão para favorecer uma opinião sobre a outra.

Galileo: Eu não defendo agora e desde a determinação do Cardeal Belarmino eu não tenho defendido a opinião condenada.

Galileo: Com todo respeito a esse tribunal, eu li meu livro após três anos e admito que em vários trechos um leitor que desconheça meus verdadeiros objetivos possa supor que vários argumentos sugiram uma convicção de minha parte.

Galileo: Meu erro, eu confesso, foi o da ambição, a inclinação natural em relação às sutilezas para se mostrarem mais habilidosos que outros na criação de argumentos em favor de proposições ... mesmo de falsas proposições.

Juiz: Esta é sua sentença.

Juiz: Nós declaramos que você, Galileo Galilei, devido às questões detalhadas no julgamento declarou a si mesmo, perante este Gabinete Sagrado veementemente suspeito de heresia tendo defendido uma doutrina falsa e contrária à Bíblia de que o Sol é o centro do muno e que não se move.

 

 

Confissão de heresia por parte de Galileo para minimizar a pena

 

Juiz: De que a Terra não é o centro do mundo e se move. Nós o condenamos à prisão formal neste Gabinete Sagrado à nossa vontade.

Juiz: Como pena adicional nós impomos sobre você que recite os sete salmos penitenciais uma vez por semana pelos próximos 3 anos.

22 de Junho de 1633

Este foi o julgamento pela Inquisição da Igreja Católica sobre os pensamentos, mas sobretudo pelo livro "Diálogos" escrito por Galileo Galilei, que pregava o sistema heliocêntrico de Copérnico, contrário ao sistema geocêntrico de Ptolomeu adotado pela Igreja. O julgamento começa a partir da página 124 do livro I Documenti Del Processo Di Galileo Galilei.

O processo de Galileo foi secreto desde 1633, com documentos fechados pelo Vaticano. Todo o processo foi aberto com a transcrição de documentos pela Pontificia Academia delle Scienze em 1984. O livro pode ser baixado inteiramente de graça em formato PDF e ser lido como uma relíquia de quase 400 anos.

A transcrição livre aqui é feita de forma parcial, uma vez que o processo é composto por dezenas de documentos. Ele nos mostra como a justiça é falha, como a justiça politizada torna a vida humana um atraso em qualquer período da humanidade. Por volta de 1600 Giordano Bruno foi queimado vivo para demonstrar a força da justiça do Vaticano sobre o pensamento científico contrário a doutrina da fé.

Por sorte, sabendo do doloroso fim que poderia ter, Galileo mentiu para o tribunal de inquisição, salvando a verdade para ser comprovada no futuro. A justiça do Vaticano quis demonstrar seu poder, a lei em nome de Deus, pensando ser essa lei eterna e correta.

Ao criar um julgamento falso, a inquisição pensando ser forte, demonstrou para a história o quanto foi fraca. Não importou o que Galileo falou, não importou sua súplica ou reconhecimento que errou. Falar ou não falar de nada adiantou para o juiz. Ele falava para pessoas que não escutavam, pessoas onde a única lógica era condenar para mostrar força.

A condução do processo foi infantil, leiga, com juízes pobres de conhecimento e com um único pensamento. Por ordem do papa Urbano VIII eles tinham apenas que parecer justos, mas não serem justos. A ordem era prender Galileo.

O resultado aparente é que esse tipo de juri pensou ganhar no curto prazo. Mas perdeu a longo prazo. A verdade apareceu poucos anos depois, com outras demonstrações de que a Terra não era o centro do Universo. Mais equipamentos provaram que Galileo estava certo e os juízes e sua fé errados.

E o golpe final veio com o Papa João Paulo II, finalmente reconhecendo o erro da Igreja, reconhecendo que Galileo estava certo e que sua sentença deveria ser retirada. Mesmo com 400 anos de atraso, ao invés de poucos juízes serem punidos, todo o sistema do Vaticano desmoronou. Ao tentar segurar a verdade, a verdade os engoliu.

Alguns anos depois deste julgamento de 1633 o Vaticano se envolveu na guerra dos 30 dias junto com a França e Inglaterra. Os fiéis abandonaram a igreja com os questionamentos de Martin Lutero, criando o protestantismo, um duro golpe na igreja. Hoje é perfeitamente claro que, ao esconder a verdade dos fiéis, das pessoas que acreditavam apenas na fé, essa escolha fez o Vaticano se tornar menor, cada vez menor.

Quando um sistema autoritário se acha forte, se apoiando em mentiras e falsas justiças, justiças com lógicas apenas em políticas, ele implode, ele desmorona por si só. E quando esse sistema cai, quem os apoiou sofre mais do que os que foram prejudicados.

É uma boa lição que parece não ser compreendida em muitos lugares do mundo.