Quinta-feira, 17 de Junho, 2010

 

Quem vai chutar o "traseiro" primeiro?

Na semana passada (8/6/2010) o presidente Obama (EUA) disse que não se cercava de técnicos para assistir um seminário acadêmico, mas sim para descobrir o traseiro de quem ele deveria chutar primeiro. O primeiro apareceu hoje (17/6/2010). O chefe executivo da Britsh Petroleoum foi denunciado pelos legisladores do congresso americano por obstruir o processo. Segundo reportagem da bloomberg ele falhou ao responder as questões formuladas. Na verdade ele não falhou, ele disse o que estamos acostumados a ouvir no Brasil em depoimentos de políticos: "Eu não sei". Parece que virou moda lá fora também. O Brasil realmente está conseguindo influenciar outras potências com sua cultura.

Tony Hayward de 53 anos disse repetidamente que não estava envolvido com nenhuma tomada de decisão sobre a operação do vazamento da plataforma no Golfo do México. Disse constantemente que não estava envolvido a ponto de fazer qualquer julgamento da situação.

Ao ser interpelado: "O Sr. está obstruindo", ele respondeu: "Eu não estou obstruindo, eu simplesmente não estou envolvido com a tomada de decisão". Então o presidente Obama já tem o primeiro candidato à chutar. Mas esse é, como conhecemos no Brasil, "peixe pequeno". Os grandes peixes estão fora da rede.

Ontem o CEO da BP concordou em estabelecer um fundo de 20 bilhões de dólares para limpar os danos. Mas o maior dano será para quem confiou na companhia inglesa. Até ontem, ela afirmava que a situação estava sob controle e que nenhum acionista seria prejudicado. Como já comentado nesse site em outros posts, devemos interpretar o mercado não pelas palavras mas pelo lado simbólico delas. Após o acordo a BP mudou de posição dizendo aos acionistas que irá suspender os dividendos.

Quanto a companhia BP já perdeu com a crise? O resultado está no gráfico a seguir.

 

 

 

A ações da BP valiam 60,48 dólares em 20 de Abril e depois da explosão até hoje (17/6) perderam 52% , chegando ao valor de 32 dólares. E pode cair mais? Vai cair mais pois o valor é enorme para a limpeza do Golfo. Na verdade esse valor de 20 bilhões de dólares é muito pequeno diante da tragédia. Pescadores estão perdendo emprego nas regiões atingidas, a pesca está proibida. E mesmo que não tivesse, não se tem o que pescar. O dano financeiro vai para longe de 1 trilhão de dólares pois muitas coisas estão envolvidas.

A taxa de desemprego novamente aumentou hoje visto que o relatório de benefícios concedidos subiu para 472.000 esfriando o otimismo exagerado do mercado. Com o acidente do Golfo mais pessoas vão correr para os benefícios e assim como no episódio de New Orleans, onde o Katrina destrui aquela região, novamente a economia vai parar lentamente, mas constante.

Mas o maior prejuízo só vai aparecer dentro de um ano, quando ocorrerá a escassez de peixes. Isso dinheiro nenhum vai recuperar em tão pouco tempo. Os microorganismos do fundo estão morrendo pelo óleo em suspensão, e os pequenos peixes estão morrendo juntos. Os grandes peixes tem uma maior capacidade de locomoção e ainda conseguem migrar daquelas áreas. Mas vão retornar pois é da sua natureza cíclica ir e vir de onde nasceram. Ao retornarem não vão encontrar alimentos e a pesca dos grandes peixes também estará prejudicada, mas a nível global e não somente da região do Golfo.

Ainda continua vazando óleo, o que mostra a incapacidade da empresa BP de solucionar o problema (cerca de 60 mil barris ao dia). Ao contrário do que afirmam os analistas de agências, isso não é bom para a Petrobrás. A Petrobrás será prejudicada pois o mundo todo vai cobrar mais para seguros contra esse tipo de acidente, o que vai tornar as ações menos atrativas aos grandes fundos. Isso porque a onda ambientalista e governamental de outros países vão pressionar para se evitar comprar petróleo de regiões onde acidentes de grande escala podem ocorrer.

 

 

A jogada para ameaças já começou. Hoje a agência Fitch disse numa conferência no Rio de Janeiro que as contas da Petrobrás ainda estão balanceadas, mas se a alavancagem aumentar a nota de rating vai cair com viés para baixo. A Petrobrás sempre pagou dividendos, sempre foi uma empresa sólida mas as agências insistem em ameaças "poderosas" de seus ratings como já comentamos em "Ameaça à Inglaterra". E a BP, porque os ratings ainda não caíram?

O presidente Obama foi feliz em sua frase pois ele não disse que ia chutar um "traseiro". Ele disse que queria saber qual ia ser o primeiro a ser chutado. Significa que o presidente dos EUA sabe que terá que calçar um sapato mais resistente, pois muitos irão aparecer para ele treinar. Resta saber e a imprensa americana se pergunta: Ele vai mesmo "chutar o traseiro de alguém"? A pressão no congresso começa a aumentar questionando o pulso forte do governo americano.

Esse vazamento não vai afetar apenas a BP, mas toda a natureza, inclusive a natureza humana e financeira.