Terça-feira, 4 de Maio, 2010

 

Mundo financeiro no olho do furacão

Furacões não aparecem de uma vez ou são considerados de imediatos como furacões.  Sua formação depende de uma combinação de nuvens mais frias das altas camadas da atmosfera que, quando encontram o ar mais quente do oceano provocam um vórtice (rotação). Esse vórtice começa a sugar ventos das camadas superiores e levar o vento mais quente do oceano, aumentando a cada vez mais sua velocidade de rotação.  Dividido em categorias, o evento pode ir passando de categorias de tempestade tropical até furacão, que em sua maior escala, a de número 5, possui ventos de mais de 300 km/h.

Ou seja, o evento vai evoluindo e aos poucos indicando sua mudança, que nos dias de hoje é de fácil previsão com dias de antecedência graças aos satélites e novas ferramentas matemáticas e computacionais. Na verdade os furacões até ajudaram a matemática a desenvolver uma nova teoria nos idos dos anos 1960, a teoria do caos. O meteorologista Edward Lorenz do MIT-USA trabalhava com integração numérica de equações quando por "descuido" resolveu interromper seu programa e começar de novo, mas com dados apenas aproximados. O resultado foi absurdamente diferente do início de seu programa. Por isso existe a expressão que quando uma borboleta bate asas na China, causa uma tempestade no Brasil. Tudo está ligado, tudo está conectado seja na natureza, seja no mercado financeiro.

Desde nosso texto "Os deuses do Olimpo se revoltam" sobre a Grécia, os movimentos financeiros mundiais estão mudando de tempestade para furacão. No início o governo grego desmentiu os boatos de quebra, depois desmentiu os comentários sobre um socorro europeu, depois desmentiu que o FMI ajudaria a Grécia e então ... desistiu e admitiu que a Grécia está quebrada. Em " Os ventos de Colombo" postado nesse site em 4 de Fevereiro de 2010 apresentamos estatísticas de Grécia, Espanha e Portugal e provamos utilizando teste de hipóteses que dos três países o pior PIB é o da Espanha e quem tem a maior taxa de desemprego também é a Espanha. A Espanha será a próxima a pedir socorro. O primeiro ministro da Espanha Zapatero ficou muito revoltado hoje e disse (segundo a bloomberg) que ajuda a Espanha é especulação e que isso é "loucura completa" ! Não adiantou, o maior banco da Espanha e com filial no Brasil (Banco Santander) perdeu hoje 7,1% e a bolsa da Espanha caiu 5,4%.

Em outro post colocamos os países com maior risco de quebra ( " E o big ben parou" ) onde se tem um gráfico de uma reportagem do Financial Times com um ranking de calotes financeiros. O primeiro do ranking  já foi acertado , que era a Grécia. O segundo pela reportagem será a Irlanda, que esbarrou e quase caiu como mostramos em "Terrível e desesperador empréstimo-Irlanda". E finalmente Portugal que tem uma economia menor, com reservas menores e já está contaminada não pela Grécia, mas pela Espanha.

Espanha e Portugal estão no olho do furacão e Irlanda e Islândia nos arredores. O primeiro a ser socorrido será a Espanha pelo seu tamanho e por seu sistema financeiro. Também será o primeiro, pois com 17% de desemprego, uma insatisfação social pode gerar revoltas como as que estão ocorrendo na Grécia. A Europa não pode deixar a Espanha entrar na fase que a Grécia está, pois a Espanha possui ativos ao redor do mundo e com seu alto risco de calote o resto do mundo virá junto, muito mais do que a Grécia. Mas o governo espanhol deve ser honesto e pedir empréstimo para não chegar onde a Grécia chegou. A Grécia começou dizendo que não precisava de empréstimo, depois de apenas 8 bilhões de euros e agora chegou-se a cifra de 120 bilhões de euros, ou 147 bilhões de dólares.

 

 

 

E o Brasil?  O gráfico anterior mostra o espectro de alta freqüência para os movimentos diários da Bovespa. Estamos atingindo uma configuração onde as freqüências de longo período estão correlacionadas com as de baixa. O lado direito é o dia de hoje e quanto mais à esquerda, mais se afasta do dia presente. Configurações onde o branco do gráfico sobe da esquerda para a direita mostram que existe um nervosismo intenso na bolsa.  Significa que altas freqüências e baixas freqüências estão cada dia mais correlacionadas (vide explicação na aba Introdução ao IMA). A queda forte desses últimos dois dias não é correção e nem apenas influência de mercados exteriores.

O Brasil é uma bolha como comentamos em "A bolha Brasil", por mais que o ministro Mantega diga que não. Uma bolha mantida por fundos exteriores aplicando em Bolsa e não em investimentos diretos. A queda fortíssima da Petrobrás retrata exatamente isso, pois vem depois da declaração de que a capitalização deve ser imediata para novos investimentos no pré-sal, mas vai demorar pois estamos em ano de eleição. Os investidores desistiram e estão indo embora. A Vale caiu pois a China caiu (a maior importadora de minério) e outras tantas vieram muito ladeira abaixo pois dependem da Petrobrás e da Vale. Exemplo da Usiminas que subiu com anúncios de vendas de eletrodomésticos e automóveis mais do que poderia e agora cai  mais do que deveria devido à queda da Vale.

Não é correção, é que o limite da especulação foi alcançado, ou seja, as altas freqüências contaminaram o mercado e se romperam ,como apresentado no gráfico do Índice de Mudanças Abrutas. A linha em vermelho é o indicador e sempre acima de 0,9 o mercado volta, como nos últimos dias e em todos os outros desde 2004.

 

 

 

Quanto aos EUA, a pedra no sapato atual é desemprego e Goldman Sachs. A bolha de desconfiança só aumenta a cada dia e a cada declaração do CEO do Goldman Sachs, Sr. Blankfein. O Senado americano demorou demais para rever regras do "jogo" de Wall Street e agora pode ser mais perigoso sacudir com as torres de marfim. O presidente Obama tinha dois caminhos: Sistema de saúde ou Sistema financeiro. Escolheu o primeiro e consumiu muitos meses. Pode ter sido uma escolha acertada, mas a segunda ficou muito para depois e pode cobrar mais caro para ser solucionada.

O mundo está deixando de sair da tempestade tropical e entrando lentamente para a condição de furacão, mas como o tempo das bolsas é diferente do tempo do dia-a-dia as pessoas não sentem, não percebem o perigo. Novamente como já afirmamos, a crise não terminou e dados de relatórios estatísticos de vendas nos EUA não são suficiente para provar que a crise terminou. A crise não terminou, as bolsas subiram pela ampla oportunidade de preços baratos e pela enorme ajuda dos governos que nos lugares "chaves" do mundo como EUA e Inglaterra não se transformaram em emprego. Emprego sem ajuda artificial é o melhor parâmetro para se medir crise, não relatos de vendas e lucros de setores que caíram 90%. Um setor que caiu 90% pode ter um espetacular aumento de 50% no ano seguinte, mas ainda não recupera o poder anterior. O PIB americano está crescendo, mas ainda está muito negativo, longe dos anos do presidente Bill Clinton. E como o PIB americando não cresce, seu defécit cresce e o mundo gira em círculos ao redor do furacão.