Sábado, 24 de Outubro, 2015

 

A salada do Orçamento Federal

O Orçamento Federal será de 5 trilhões de reais em 2035! Já que é para bagunçar com números, por que não bagunçarmos também? A cabeça do leitor dos jornais está dando reviravoltas. O assunto orçamento deixou de ser algo técnico e contábil, para se tornar fetiche da mídia e dos políticos. E aí todos os jornalistas se tornam ridículos em suas reportagens. Essa nossa estimativa do orçamento é espantosamente errônea e o leitor deve desconsiderá-la. Talvez em 2035 algum leitor ainda nos envie um e-mail dizendo: "ei...vocês acertaram no orçamento do Brasil 20 anos atrás...".

As manchetes mudam a cada dia e ainda, diversas vezes ao dia sobre o rombo do orçamento. Esse não é um cálculo complicado para quem tem um bom estudo de contabilidade, para quem estudou em sua faculdade uma boa disciplina de Finanças Corporativas ou Empresariais, mas sobretudo, para quem teve um bom curso de Estatística e Econometria ( ver nosso texto "O mau uso da Estatística").

O leitor nunca deverá fazer o que fizemos na figura anterior. Orçamento, deficit ou qualquer outro tipo de medida financeira não deve utilizar reta de tendência do Excel. O eixo horizontal é formado pelos anos e o eixo vertical são os diversos orçamentos do governo brasileiro desde 2001, retirados do site Orçamento ao Seu Alcance.

E o leitor não deve fazer isso, porque o eixo horizontal não regride, não é a causa, nem o efeito do Orçamento Federal. Essa é uma observação simples de Estatística!

Não é porque os anos aumentam linearmente que o Orçamento Federal aumenta ou decai linearmente. Uma reta não representa estimativa com anos, e nem se correlaciona anos e dados de orçamento. O que o Congresso Nacional faz e os jornalistas vendem, é um crime, é um assassinato da Estatística ( leia "A Escória das Finanças"). São as estimativas mais furadas, mais ridículas e mais desastrosas da área financeira nacional. E, claro, tem total apoio da mídia.

As estimativas dos deficits em conta corrente não levam em conta os diversos cruzamentos necessários para se compor um cenário econômico mais próximo da realidade. São sempre estimativas lineares jogando para dados futuros, valores dependentes dos dados passados que inclinam determinada reta.

Conclusão: em agosto o deficit era de 30 bilhões de reais, em setembro passou para 36 bilhões, agora em outubro chegou aos 50 bilhões e diversos jornais, apoiados pelos discursos dos políticos da oposição falam em 136 bilhões de reais. Em casos extremos o deficit já é de 170 bilhões de reais. Façam suas apostas, pois a lambança começou.

Em vez de discutir estimativas furadas, erradas e grotescas, nossos congressistas deveriam discutir a qualidade do Orçamento Federal. Onde e como estão gastos os atuais dois trilhões de reais?

Claro que não interessa aos nobres políticos, boa parte é gasto com eles mesmos, com as mazelas de suas emendas, onde doam aos correligionários de seus estados dinheiro alheio (leia "Jogos Diferenciais no Congresso Nacional").

Não se vê no Congresso discussões sobre o falso marketing do governo federal de que essa é uma "Pátria Educadora".

No gráfico anterior, é possível obervar que entre 2003 e 2007 ocorreu um enorme estouro positivo no orçamento, mas um deficit na Educação.

Pode-se reparar que a porcentagem representativa da educação nacional caiu para míseros 1% em 2004. Como podemos dizer que o Brasil é uma patria educadora quando se diminui a verba da educação com aumento de orçamento?

Podemos afirmar que isso foi há 11 anos atrás. Mas olhando melhor nos últimos anos, principalmente no orçamento do ano passado para esse ano, novamente o orçamento aumentou, mas a verba para a educação já despencou nesse ano de 2015.

No gráfico ao lado, vemos que apenas de 2007 e 2008 o Orçamento Federal se reduziu. De 2006 para 2007 a redução foi de 9,8% e no ano seguinte de apenas 0,6%.

Mas agora, caro leitor, observe ao lado o que aconteceu com a Educação. De 2002 para 2003 a redução foi de 34% ! Sim, um número absurdamente alto.

Naquela época quem estava no poder era o PSDB com Fernando Henrique Cardoso. O catedrático, professor da USP, conhecedor da Educação, quando presidente propôs uma redução de 34% para a Educação.

Para o ano seguinte, novamente o governo reduziu o investimento em educação. A redução foi de 24,3% na pasta que deveria ser a mais importante.

E só para verificarmos que isso independe de partido, agora recentemente com o PT, de 2014 para 2015, a própria presidente Dilma que criou o marketing de "Brasil Pátria Educadora", reduziu o orçamento em 20,9% (ver nosso texto "Pátria Educadora?").

No ano que vem, pela proposta, novamente a presidente vai reduzir o investimento em educação. Então, como podemos acreditar no slogan de Pátria Educadora?

Outros absurdos ocorrem nas pastas de Saúde, da Previdência e assim sucessivamente, mas nenhum político tem a capacidade moral para discutir esses assuntos. Ficam a semana toda debatendo números, propondo novos números, num exercício primário do uso do Excel.

Qualquer que seja a crise, áreas prioritárias nunca deveriam ser atingidas. Educação e Saúde não poderiam ter corte nenhum. E não é para colocar Bolsa Família como se fosse verba de Educação. Quando se abre o quadro de orçamento interno da Educação, o que se vê são absurdos como ínfimos recursos para desenvolvimento de Ciências para as crianças. Ou ainda, poucos ou quase nenhum recurso para cursos de aperfeiçoamento de professores ( ver "Políticos mal-educados").

Seria injusto dizer que todas as reportagens passam de lado desse assunto. Alguns jornalistas até abrangem esse ou aquele tópico quando se fala em qualidade do orçamento. Mas mesmo esses jornalistas são engolidos pelos "queridinhos" dos editores, que adoram colocar números para chamar a atenção e proporcionar a venda criminosa de notícia que não traz nenhum progresso, não tem nenhuma relevância na vida do país.

Se o déficit é de 50 bilhões ou 170 bilhões, o que se deveria estarmos discutindo é qual área consome mais, onde está o furo que escorre o dinheiro público. A resposta todos sabemos. São nessas malditas emendas parlamentares, que só servem para a corrpupção e distribuição de dinheiro para parentes e amigos de políticos. O importante não são os números, mas os locais de investimento de tanto dinheiro e tão pouco retorno.

 

 

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