Segunda-feira, 22 de Dezembro, 2014

 

2015 será ótimo !

O chororô dos jornalistas brasileiros com suas previsões furadas deve sempre ser visto com muita cautela e desconfiança. No Brasil, anos atrás existiam muitos jornalistas competentes, muitos estudiosos, com formação não apenas em jornalismo mas em áreas afins como economia, turismo, educação entre outras muitas profissões. No entanto, com a ampliação da internet, os jornais viram o número de clientes diminuindo ano após ano.

A saída para os grandes jornais brasileiros foi de duas maneiras: ou fechavam, ou terceirizavam a notícia. O Jornal do Brasil (JB), um dos mais importantes e que mais relatou eventos históricos do país não aguentou e fechou para a circulação em papel. A Gazeta Mercantil era imbatível na área econômica, com textos e comentários não apenas de "especialistas" e não apenas de "fofoqueiros traders", mas de uma mistura de opiniões saudáveis que nos fornecia um panorama global de opiniões. Infelizmente a Gazeta não aguentou e fechou em 2004.

JB parou de circular em papel em 2010

Então os jornais que sobraram sobrevivem de propagandas com aqueles "spams" e "cookies" de internet, que tentam influenciar compras o tempo todo no meio das notícias. E para não contratar e manter um corpo experiente de jornalistas, os atuais jornais mantém apenas algumas colunas com alguns nomes que tem relativa importância na mídia. E também mantém muitos blogueiros. Blogueiros desinformados, blogueiros que vivem de fofocas ou de fotos, blogueiros que tem interesses expúrios, blogueiros que tem amigos em corretoras ou fundos de investimentos e que comentam sobre os aspectos econômicos, enfim uma gama enorme de pessoas que escrevem como se tivessem escrevendo no facebook.

E ainda existem jornalistas, mas da nova geração. E aí o problema é ainda maior, é ainda mais preocupante, pois são jovens com menos de 30 anos que não conseguem separar suas expectativas particulares com a ética e o distanciamento que devem ter de suas opiniões para com o leitor. Um bom jornalista é aquele que escreve um texto imparcial, separando a notícia com opiniões a favor e com opiniões contrárias. As opiniões não devem ser as dele. Após ler um texto, é o leitor que deve tomar a notícia e formar sua opinião sobre um determinado assunto.

No Brasil, no entanto, a geração de jornalistas "leite com pêra" escrevem mal, traduzem mal os textos das agências de notícias e não aceitam críticas. Qual jornal brasileiro permite que o jornalista deixe seu e-mail para responder questões dos leitores? Qualquer um poderá visitar o site da bloomberg, da CNN, do N.Y. Times e ler ao final da notícia "esse texto foi preparado pelo jornalista " e a seguir temos o seu nome completo com o e-mail para críticas. E eles respondem!

Gazeta Mercantil faliu em 2004

Mas no Brasil existe essa "redoma de vidro" e proteção contra críticas aos textos pífios e sem nexo de 90% das matérias dos grandes jornais.

Que interesse existe para um leitor que assina um grande jornal, se o artista A ou B foi com sunga vermelha ou amarela na praia? Ou se a artista traiu seu namorado ou marido numa festa? Isso é coisa para tablóide de fofocas, não para sites de grandes e importantes jornais.

Mesmo em televisão é díficil manter contato com algum jornalista para criticar ou corrigi-lo de erros de interpretação. Nas grandes redes de televisão existe uma central de jornalismo, onde o telespectador deve se cadastrar, deixar seus dados completos e, se eles tiverem boa intenção, reponderão com e-mail automático de "obrigado".

Nos últimos dias, os jornais brasileiros estão aterrorizando os leitores com as palavras "crises", "quedas nas vendas", "baixa renda", "aumento de impostos", "aumento de inflação", e previsões que 2015 será terrível. Dados? Quando muito interessado o jornalista coloca os dados passados, entrevista algum dono de fundo de investimento e já escreve que o ano de 2015 será "danoso", "desastroso" para a economia brasileira.

Quando se entrevista um dono de fundo de investimento, um corretor de bolsa ou trader do mercado, a opinião que se passa para o leitor é a opinião dessas pessoas que são chamadas de "especialistas", mas elas não são. Especialista não é aquele que ganha dinheiro no mercado, mas aquele que estuda o mercado, com dados, com técnicas, com aprofundamentos históricos. Até porque quem dá essas entrevistas faz apostas com os amigos nas meses de trades sobre acertos e erros de sua carteira. É comum ver as brincadeiras entre os traders quando erram ou quando acertam com seus amigos nas entrevistas. Esses "especialistas" usam os jornais e notícias como um facebook do mercado.

A crise atual com quedas em alguns parâmetros (ou todos os parâmetros) já tinha sido escrita e divulgada por nós no ano passado (ver o texto "treze gráficos que vão te desanimar"). Ela não surgiu agora depois da eleição, mas vinha corroendo contas de governos federal e estaduais, e também as contas das pessoas. Alertamos no texto sobre o endividamento familiar, mas os jornais da época alardeavam que as pessoas estavam comprando televisões, carros novos, apartamentos e que o crédito era farto. Era difícil ver algum tom crítico de alerta por parte das reportangens.

Existiram sim, reportagens bem feitas alertando que as pessoas deveriam economizar. Mas a grande maioria das reportagens restantes era com imagens, fotos e blogueiros dando dicas do que comprar, de onde comprar, de como abrir crediários e assim por diante.

E agora, "pipocam" o tempo todo o clima de desastre no país.

Então vamos voltar no passado longínquo de 1998. Naquele ano, o governo de Fernando Henrique liberou a banda cambial, aumentou a Selic em 50% e acabou indo pedir empréstimo ao FMI. As linhas de crédito dimimuíram, a Bovespa teve severas quedas e o que os jornais escreveram?

Numa reportagem na folhainvest, no dia 7 de dezembro de 1998, o jornal entrevistou alguns homens "importantes" no mundo econômico brasileiro. A chamada era: "O que estes homens vão fazer com seu dinheiro em 99". Os entrevistados eram todos CEO de bancos ou fundos de investimentos no Brasil. Eles eram responsáveis por R$ 60 bilhões na época, que correspondia a 40% do patrimônio dos fundos de investimentos no Brasil. A jornalista escreve numa das frases: "... cuidado! Não se deixe levar pelos sorrisos de alguns deles..... eles estão muito preocupados".

Em outra parte do artigo, um dos entrevistados avisa com ar de previsão: "...Há muitas incertezas e estamos diminuindo os papéis prefixados na carteira". Em outra parte, apesar de outro entrevistado relatar otimismo, revela que só teria papéis pós-fixados e escreve: "... O início do ano de 99 será um período difícil e, se o cliente estiver pensando no curto prazo, é melhor ficar fora dos fundos de ações...".

Será? Pois é, os tais especialistas erraram e muito, e quem os seguiu perdeu uma grande chance de ter altos lucros. Investir na bolsa foi um sucesso, com altas rentabilidades e todos eles erraram com seu clima de pessimismo, inclusive a jornalista que comprou a ideia de que 1999 estava perdido.

Mas o gráfico ao lado mostra que, entrevistar esses "especialistas" foi tendencioso e com olhar para seus negócios de seus bancos e não para a economia real. O Ibovespa, índice que reflete as principais ações na Bovespa começou o ano em 6.941 pontos e terminou em 16.772 pontos.

Quem não acreditou nos "especialistas" da jornalista e deu de ombros para a matéria ganhou 141% !! Isso em média, pois o índice é uma média ponderada das ações. Como os especialistas não previram isso? Quando acertam chamam os jornalistas para dizer que seu fundo é o número um em acertos, que todo mundo pode confiar, que eles são especialistas.


Quando erram, ficam quietos, ou dizem que eles não tem "bola de cristal". Só para o leitor se familiarizar, quando se calcula o retorno diário na série de dados do Ibovespa para aquele ano de 1999, num único dia tivemos 33% de retorno positivo!

O Brasil estava em crise, juros altos, inflação em alta, mas não foi o fim do mundo como todo mundo apregoava. Pelo contrário, a Bovespa foi disparada uma das melhores aplicações.

A economia ainda estava muito pior do que os atuais dias, pois quem se lembra do que é fazer parte da cartilha imposta pelo FMI, sabe que eles adoram prejudicar as pessoas e amam superávit primário que favoreçam os bancos internacionais.

O remédio em 1999 foi amargo como será no ano de 2015, a inflação deverá subir em 2015 como subiu em 1999 para mais de 8% em 12 meses, mas mesmo assim não tivemos catástrofe nenhuma.

Se agora 6,5% de inflação parece catástrofe, esqueça esse clima e comentários sobre metas, centro de metas e tudo mais relacionado à inflação. Em 1999 foi muito pior, e o ano foi ótimo para os investimentos.

 

 

Ibovespa - pontuação em 1999

 

Retornos da Bovespa no ano de 1999

Crescimento PIB Brasil - 1998/2014

 

No dia 29 de dezembro de 1998, o caderno dinheiro da Folha de S.Paulo colocava ainda mais terror. Um dos títulos era "Queda de reservas supera meta do FMI". Em anexo, existia um outro quadro com o título "Outras metas estouraram". A história foi a mesma desse ano, com descontrole do governo Fernando Henrique sobre contas, divisas externas baixas, inflação e superavits descontrolados por conta de sua reeleição.

Segundo o jornal, o rombo naquele ano de 1998 era de 4,43% do PIB e com reservas internacionais de apenas US$ 36,850 bilhões. Hoje elas passam de US$ 300 bilhões. A Venezuela que é a maior produtora de petróleo da américa latina tem reserva de apenas US$ 26 bilhões.

A matéria ainda dizia que os investidores externos estavam saindo do Brasil, retirando seu dinheiro. Naquele dia de 29 de dezembro de 1998 o montante de US$ 850 milhões tinha deixado o Brasil.

Em outro trecho o jornal ainda escrevia "Venda empata com a do Natal passado". Era uma referência que seria o pior ano de vendas de Natal e que 1999 seria "sombrio". Na parte interna do caderno dinheiro, o título em letras garrafais colocava: "Bolsa cai 3,86% com menor volume do mês".

Tivemos queda no PIB em 1999? Sim, mas algo bem mais tranquilo, por volta de 2%. Nada comparado com as previsões de crise generalizada conforme prometido pelos jornais (figura ao lado).

A Folha de S.Paulo não foi a única a fazer previsões drásticas e furadas com o relato dos "especialistas". O jornal o Estado de S.Paulo também ofereceu diversas previsões de catástrofes, assim como no dia 24 de dezembro de 1998, com o título no caderno de Economia: "Balança teve déficit de US$ 1 bilhão em novembro".

No mesmo dia e no mesmo caderno o Estadão ainda previa uma queda no PIB de 2,9%. Conforme visto na figura ao lado, não chegou a 2%. No dia 29 de Dezembro o jornal também insistiu em crise, com um título em sua capa "Saída de dolares chega à US$ 1 bilhão".

E em mais uma previsão que não se concretizou, a Folha de S.Paulo calculou que o desemprego havia aumentado em 38% nos quatro anos de Fernando Henrique Cardoso ("desemprego cresce 38% no governo FHC"). A previsão era de taxa de cerca de 11% de desemprego em 1999.

E mesmo assim, a bolsa de valores foi um sucesso.

O primeiro semestre de 2015 será de ajuste nas contas, por conta de novas metodologias, nova equipe e novas visões sobre a economia no Brasil. Mas isso, como vimos antes, não impedirá das pessoas obterem grande sucesso em seus investimentos. O clima de medo e incerteza é gerado muitas vezes por textos de pessoas que os escrevem no calor do momento.

Um perigo que realmente ronda o mundo todo, e que poderá eclodir no segundo semestre do ano que vem está relacionado com as bolsas nos EUA. O Dow Jones está muito forte, muito alavancado e acima da capacidade de suporte para a geração dos empregos nos EUA. O FED canalizou recursos públicos do tesouro dos EUA para dentro das bolsas de valores, ao usar o plano Quantitative Easing na tentativa de resolver a crise (ver "Nova crise já tem dono: Federal Reserve").

Será que o FED resolveu mesmo a crise como diversos jornalistas andam escrevendo? Não, em absoluto não.

O que o Quantitative Easing (agora copiado pelo Japão) fez, foi aumentar os ganhos e acirrar ainda mais a ganância dos fundos de investimentos internacionais, que aplicaram os recursos pelas bolsas de valores do mundo todo. No Brasil, inclusive.

Logo, algo novo realmente fará o Dow Jones corrigir sua trajetória no segundo semestre de 2015. Mas até lá, como a Bovespa e outras bolsas do mundo estão com atraso em relação aos retornos financeiros que o Dow Jones vem proporcionando, essa recuperação da Bovespa e outras bolsas poderá ocorrer no primeiro semestre de 2015. Talvez nada comparável aos 140% de 1999. Mas uma boa recuperação deverá ser ensaida no primeiro semestre.

O futuro ninguém sabe. Mas o que sabemos é que dados passados e estatísticas de dados anteriores não são garantias de previsão. O ano de 2015 pode até ser péssimo e estarmos errados no otimismo. Mas o que o ciclo histórico nos apresenta, é que quando um pessimismo impera na imprensa, regada por pessoas que olham para suas aplicações e não para a economia como um todo, a realidade sempre apresenta resultados diferentes.

Quem fará 2015 somos todos nós e não "especialistas". Continuar trabalhando e tendo cautela onde investir, na hora correta e com paciência, pode desbancar qualquer previsão de catástrofe.

Sendo assim, caro leitor, seja otimista para sua vida ser mais feliz com sua família em 2015. Textos jornalísticos mau humorados e despreparados não podem influenciar a vontade de viver e vencer, mesmo num caos "pré-programado" pelos "formadores de opinião".

Feliz 2015!

 

 

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