Sexta-feira, 14 de Outubro, 2016

 

Ninguém precisa da PEC da maldade

 

A discussão sobre dívida pública não é recente, nem nova, muito menos nos dará uma solução. Em agosto de 2004 o economista de renome Affonso Celso Pastore deu um seminário no antigo Ibmec-SP. Na época se discutia, de forma acadêmica bastante clara, como tratar as diversas variávies para se entender a relação dívida/PIB.

Modelos foram debatidos, relações entre investimentos, câmbio, juros, títulos da dívida pública e Pastore em seu último slide colocou sua conclusão:

"... A intolerância à dívida pública, no Brasil, vem de dois fatores: a) O tamanho excessivo da dívida; b) a sua composição, com uma excessiva proporção atrelada ao dolar.... e diante de uma parada brusca o câmbio ainda terá que se depreciar...".

Ou seja, já em 2004 a conclusão sobre nossa dívida era que seu tamanho aumentava por ter muitos títulos atrelados ao dolar, muita dependência do humor e pressões do exterior. Ele pode estar errado, ou correto, o fato é que no ambiente acadêmico esse sim, elaborava um debate construtivo onde com base em dados e modelos simulados por computador, economistas e pesquisadores da área se deitavam para entender os acontecimentos.

Bons tempos. Agora os economistas não se dividem mais em pró-modelos A e pró-modelos B. Estão divididos em pró-governo e contra governo. E sempre surgem aquelas artimanhas maldosas para iludir as pessoas comuns. Pior ainda, economistas tentam confundir os deputados com números em trilhões, bilhões e gráficos confusos que sequer 1% do congresso atual tem condição de entender.

Tanto assim que um deputado chegou ao cúmulo de dizer que votaria a favor da PEC da maldade (PEC-241) porque só deverá fazer faculdade quem tem dinheiro! Depois tentou se corrigir dizendo que existia a USP e outras federais, mas sua primeira resposta foi a clareza de um ódio insuportável a quem lhe questiona e ele não tem resposta.

E esse deputado não tinha reposta, nem nunca terá. Não terá condições de entender o montante de números jogados à mesa.

A maldade é tamanha que alguns economistas estão misturando dados, deixando de dizer claramente alguns números, trocando de variáveis a cada entrevista, para causar confusão e mal entendimento. Claro que isso beneficia a PEC da maldade e sua aprovação o mais rápido possível.

Semanas atrás tivemos outro seminário parecido, mas as condições e discussões estiveram longe para um campo fértil acadêmico. Obviamente que o leitor não precisa acreditar nas linhas a seguir, assim como não acreditamos em diversas linhas escritas em outros sites. Mas para tanto, devemos checar, verificar, tentar dar uma chance para que a verdade apareça de alguma forma.

Para tanto, recomendamos que todos baixem os dados oficiais, assim como fizemos, diretamente do portal IPEADATA do governo. É um site muito bom, incrível para pesquisa e averiguação das verdades em números. Pode-se baixar séries históricas de longo período, tais como as dívidas de que tanto falam os economistas, o PIB, as inflações passadas, juros, enfim, pode-se baixar tudo em Excel.

O leitor poderá então clicar na aba"macroeconômico":

E poderá escolher séries por temas diferentes e por períodos de amostragem diferentes. Uma das variáveis tão comentada pelos economistas é a chamada Dívida Pública Total Líquida. Ela está no tema " Finanças Públicas" com periodicidade "mensal". E Então é só clicar no símbolo do Excel que imediatamente os dados baixarão para seu computador no formato do Excel.

Como o leitor poderá constatar, somente do tema "dívida" existem mais de 20 séries diferentes, cada uma com foco diferente e com medida diferente. Assim, se uma série não explicar a tese de um economista, por exemplo gastos muito altos, outra poderá lhe satisfazer. Por exemplo existe dívida pública externa, dívida pública interna, divida externa dos estados, dos estados e municipios, etc.

O economista do tal debate, em favor da PEC da maldade afirmou logo de início:

"... O Brasil nunca esteve tão endividado..."

Não é verdade.

A figura a seguir foi construída com o cuidado de selecionar não apenas um tipo de dívida pública, mas três daquelas mencionadas acima. O renomado economista Affonso Pastore no seminário de 2004 deu amplas explicações, de que acadêmicamente era mais coerente se utilizar a Dívida Total líquida do setor público. Seus modelos, seus gráficos, suas previsões e conclusões sempre foram com essa série de dados.

Claro que para termos certeza da relação Dívida Total/PIB, selecionamos as duas séries em separado para a operação de divisão. Como o leitor pode ver a seguir, com conhecimento bem básico de Excel é possível realizar a operação de divisão e relacionar todas as variáveis com o PIB.

Isso serve, como dizemos em Ciência, para normatizar os dados, tirar os bilhões e trilhões e deixar números mais comportados, algo em torno de zero e um, para facilitar o entendimento.

Ainda assim, os economistas insistem em dizer que a dívida está na casa dos... xxx bilhões! Sim, alguém tem noção se isso é grave ou não. Para nós pobres mortais, sim, é um número absurdo. Mas para as contas do país inteiro pode não ser nada.

Após então realizar essas simples operações, vemos a seguir que a chamada Dívida Pública Total já esteve muito, muito, muito pior do que agora. Ela já esteve na casa dos 20% do PIB. No mês de agosto (último de nossa série) ela chegou a 12,29% do PIB. Então, o economista inventou a frase? Não, porque ardilosamente ele escolheu a Dívida Pública interna líquida, está sim bem alta, beirando os 60%.

Mas quando olhamos a Dívida Pública externa, vemos que estamos pagando a dívida internacional, a dívida que temos com os credores do exterior. Fizemos pagamentos de 20% do PIB em agosto, mas ninguém comenta nada? Pagamos os juros da dívida, é bem da verdade, mas isso abate da dívida que temos.

O mesmo economista falou sim da dívida pública. Mas ele mencionou:

" ... a dívida pública externa está na casa dos R$ 124,36 bilhões ..."

E o que há de errado nisso? Ele não se referiu para a platéia que nós, como cidadãos, estamos pagando uma dívida externa e cada vez estamos pagando mais para o mercado internacional. Para não mostrar o lado bom, ele resolveu usar cifra de R$ 124 bilhões, que tira a noção da platéia sobre o referencial relativo, que é muito importante em Economia. É só o leitor observar a curva verde acima, sempre caindo, passando para o campo negativo.

Nossa taxa de juros, a Selic, está apresentada no gráfico anterior no eixo da esquerda, em vermelho. Pode-se reparar que a mesma está estacionada em 14,25%. Incrível, ou não, mas o leitor poderá observar que quando o gráfico da Selic(vermelho) começa a sua alta em setembro de 2013, o leitor poderá observar a curva cinza da dívida interna disparando. Ou seja, juros altos fizeram nossa dívida externa diminuir, enchendo os bolsos dos credores, mas a custou caro internamente.

Mas o computo correto, segundo Patore, é olhar para a Dívida Total, que ... não subiu tanto assim., pois foi compensada pelo pagamento externo.

E então veio a pressão internacional, pressão interna, eleições, brigas, ruas, panelaços, roubos, desvios e tudo o mais que já sabemos e o dolar disparou. Como é possível ver no gráfico abaixo, o dolar disparou e levou junto nossa Dívida Pública Total. Ou seja, mesmo com os pagamentos cada vez mais fortes, o aumento do dolar elevou a dívida total. E por que?

Porque elevou nossa dívida interna, como visto no gráfico anterior.

 

Então tomamos a inflação acumulada de 12 meses, como mostrada a seguir. O economista em questão resolve então dizer que a relação dívida pública e PIB é um conceito no qual o mercado financeiro global avalia um país.

Mas qual dívida?A interna? A total? A externa?

E não se referindo a nenhuma delas ele solta:

"... No ano passado, a relação dívida pública/PIB atingiu a marca de 66%..."

Errado!

Nunca, em nenhuma das três dívidas, pelos menos nas séries do Ipeadata, essa relação passou de 60%.

Para a Dívida Pública interna, na crise de 2008 chegou a 50% e no mês de agosto em 59,27%. Mas no total, o ano de maior dívida, o ano do desastre, o ano que precisamos do FMI foi entre julho e dezembro de 2003.

Está nas séries do próprio governo! Está no gráfico ao lado. Foi o mesmo ano que a inflação anual passou dos 15%.

Não dá para aceitar, acadêmicos tentando embaralhar dados que são públicos, para colocar suas teses de apoio ou não, a um determinado governo.

Ainda ao lado temos a inflação, na curva cinza, também baixada do Ipeadata.

Estão dizendo que o país está quebrado, mas se recuperando. Ao olhar ao lado, vemos perfeitamente que o país não está quebrado, com dívida em torno de 12%

E também não está se recuperando. É só olhar a inflação ao lado, inflação de 12 meses. Em trajetória de alta.

Dados do preço do petróleo

 

 

 

Comparação Deutsche e Lehman

 

Não contente o economista dispara outra:

"... A questão é que a dívida pública vem crescendo muito mais do que o PIB..."

O que?

Primeiro, certamente ele estará falando da dívida interna, sim, porque a mistura de variáveis não deixa transparecer qual das medidas ele usa para afirmar isso.

Se for a interna, meu amigo leitor, sempre e desde sempre a velocidade da dívida pública interna foi no mínimo igual ao crescimento do PIB.

Ao lado tomamos a série do PIB, calculamos seu crescimento em % e fizemos o mesmo com a dívida pública interna.

Então, para não ficar um gráfico rebuscado, medimos a velocidade desse crescimento, somando 12 meses a cada novo mês. Ou seja, para cada novo mês, somava-se o crescimento de 12 meses anteriores.

Dizer que o crescimento mais veloz da dívida pública interna do que o crescimento do PIB, é motivo para a PEC da maldade ser aprovada, o que dizer então de Agosto de 2007? (olhe ao lado)

Em 2007, um dos melhores anos financeiros do Brasil, a velocidade de crescimento da dívida pública interna em relação ao PIB foi superior ao atual, muito superior. A curva laranja anterior esteve sempre acima do crescimento do PIB na curva azul.

Então podemos dizer: "ah.... a dívida disparou...".

Não. Veja as 3 dívidas do primeiro gráfico entre 2007 e 2008. Mesmo com a crise financeira, com os mercados nervosos, a Dívida Total estava em trajetória de queda, a Dívida Externa em queda acentuada, e a Dívida interna constante ao redor de 50% do PIB.

Ou seja, nenhum desses argumentos serve como alento acadêmico sólido para provar a tese de que a PEC da maldade é necessária. Ja vivemos sim esse mesmo momento antes e não precisamos comprometer futuros governos, ou ainda áreas tão importantes como educação e saúde.

Tese reprovada!

Mas o pior, a mais cruel das artimanhas está na "grande previsão" do economista. Ele garantiu que o mercado está prevendo que a relação dívida pública / PIB vai chegar a 70% em 2017.

Que projeção foi essa?

Onde está a maldade? Olhe o gráfico a seguir, a região escolhida. Para projeções em séries temporais, deve-se usar o máximo de dados possíveis para se verificar sazonalidades, relações entre os períodos, ajustes de coeficientes confiáveis entre tantas outras medidas.

Mas quando não se quer algo muito na média, escolhe-se os dados mais próximos aos eventos, podemos escolher "criar de maneira" fictícia que pareça acadêmica séria, um cenário mais terrível ou mais favorável. Depende de sua escolha!

Escolhendo essa região, o modelo exponencial (que os economistas adoram) através de linha de tendência do Excel, nos fornecerá em 12 meses no futuro 70% da relação Dívida/PIB.... Bingo! Veja a seguir a projeção na linha da maldade.

Mas se o analista escolher todos os dados.... teremos 50% na relação. Ah isso não pode, não ajuda a vender a PEC da maldade!

É esse tipo de artimanha numérica que estão fazendo para vender terror e dar argumentos aos congressistas para aprovarem a PEC.

Ninguém em sã consciência está dizendo que nada deve ser feito para evitar gastos públicos. Mas quem deve pagar a conta, é quem fez a conta. Então, por que não cortar salários dos deputados, dos senadores, dos juízes, dos desembargadores, do presidente da República, cortar o número de assessores, diminuir o número de deputados, de senadores e assim por diante?

Por que não diminuir o número de ministérios?

Sim, o atual governo disse que iria diminuir, mas apenas fez uma maquiagem remanejando os aliados de lugar, juntando aqui, juntando ali, demitindo quem era contra o governo, mas.... recontratando quem era do seu lado.

Tem muito lugar para cortar e precisa cortar. Mas usar de métodos quantitativos rudimentares com comentários infantis para passar essa modificação na constituição, aí é realmente querer dividir o país ao meio, como aliás, estão conseguindo.

E quem planta maldade, colhe tragédia. E nem mesmo variáveis econômicas salvarão a tragédia que se espreita no fim do túnel. Que pena! Mas vamos continuar deitados em berço esplêndido, talvez deitados para sempre numa lama intransponível.

 

 

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